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Nossa aldeia

Nesta vida pacata em que construímos nossas certezas, qualquer fuga do cotidiano traz impacto

Leandro Karnal, O Estado de S.Paulo

25 de agosto de 2021 | 03h00

Mal havia começado a década de 1990 e eu terminava meu doutorado na USP. Publiquei a tese em forma de livro em 1998. Naquele texto, há um prólogo empedernido. Várias vezes, nas décadas que se seguiram à publicação, perguntei-me se eu deveria ter escrito aquele pequeno texto da forma que o fiz. Era um misto de arrogância da juventude com genuíno gosto por história. Das muitas coisas que poderia ter feito diferente no prólogo, uma delas eu manteria idêntica.

A lembrança da frase foi trazida por um amigo, em conversa recente. Ele se lembrou dela e me perguntou a quem eu me referia. Faz sentido, pois o preâmbulo do livro é carregado de referências implícitas, quase uma esfinge. Respondi que tinha ecos de Tolstoi, ainda que a lavra fosse minha: “é preciso sair da aldeia para contemplar o vale". Eu justificava a amplitude do recorte cronológico do trabalho. 

Volto à máxima e a reitero. Nossa aldeia é sempre sinônimo de conforto, bem-estar. Ainda que tenha muito trabalho, desafetos e problemas, tudo que se passa na aldeia em que vivemos é nosso. Nossas referências são aprendidas em nossas casas, com nossas famílias, em nossas igrejas aos finais de semana. Aprendemos qual restaurante frequentar e quais pratos pedir quando nos sentamos à mesa. Sabemos os melhores caminhos para os lugares de hábito, pegando atalhos e manejando o volante sem necessidade de GPS. Usamos roupas que vem do mesmo conjunto de lojas, tomamos café na mesma padaria de sempre e, como de hábito, folheamos livros da livraria da esquina. Pela lógica, o oposto é tão natural como abotoar uma camisa, qual caminho deve ser evitado, qual vizinho é detestável, qual rota deve ser escolhida.

Nesta vida pacata em que construímos nossas certezas, qualquer fuga do cotidiano traz impacto. As novidades chegam às aldeias, claro, e modificam por alguns dias a vida dos pacatos moradores. Mas, como vieram, ou se vão e tudo volta ao normal, ou são incorporadas, mais dia ou menos dia, ao costume dos aldeões. 

A vida de nossa aldeia é, malgrado experiências com forasteiros, a mesma. A mesma paisagem se vê pelas mesmas janelas. Não há prédios altos que nos permitam ver além das ruas do próprio vilarejo. 

Não há palavra melhor que descreva o que somos em nossas aldeias: idiossincráticos. Nossas peculiaridades não nos tornam abobados. Kant, um dos grandes filósofos do século XVIII, nunca saiu de sua aldeia: jamais saiu da Prússia e mal deixou sua cidade natal, Königsberg. Nasceu ali, estudou por ali, e tinha tantas idiossincrasias que seu passeio na praça no meio da tarde era tão pontual e regular, que, reza a lenda, ajustavam-se os relógios quando o viam: era 15h30, pontualmente. Kant viu longe sem (quase) nunca sair, fisicamente, da aldeia.

Há, contudo, os parvos que moram nas aldeias. Esses não só têm a idiossincrasia de todos os vilões, como emprestam o radical grego para algo mais chão: são idiotas. Os tais idiotas da aldeia que Umberto Eco imortalizou. Antes confinadas a seus preconceitos em bares pequenos, cercadas de pouca plateia que lhe davam respaldo, tais criaturas, hoje, têm uma aldeia global com a qual se comunicar. Qualquer opinião terraplanista que antes encontraria esparso acolhimento, agora gera engajamento em vídeos virais em redes sociais. O inepto saiu da aldeia e nunca viu vale algum, apenas aprofundou-se no abismo onde já vivia. Ou seja, pode-se sair da aldeia e continuar nela ao mesmo tempo. Quantos de nós conhecemos pessoas que viajam o globo e procuram comer no McDonald’s onde quer que estejam?

Sair da aldeia é deixar nossas certezas, nossas particularidades, idiossincrasias e idiotias para trás em busca de novos sabores, algo que nos balance o íntimo, sacuda aquilo que tínhamos como inabalável. Por que Kant, sem (quase!) nunca ter saído de sua aldeia, pôde ver tantos vales?

O vale é um horizonte que só se compreende quando nosso ponto de vista se alterou radicalmente, quando a experiência nos transformou. Uma experiência nos modifica de várias formas porque são várias as formas de experiência. No caso concreto do meu doutorado, como comentei no domingo passado, foram muitos as capotagens que me transformaram. Muito, muito estudo, uma mudança de paisagem, a distância da família, novos amigos, novos hábitos, estágios na França e no México etc. O Leandro que escrevia aquele prólogo era jovem, no entanto já compreendera a máxima que criara. Nunca reneguei o aconchego do hábito, gosto dele. Jamais aceitei me acomodar novamente em uma aldeia. Uma vez sabendo da beleza do vale, visto lá de cima, não queremos deixar de contemplá-lo. Àquele vale e a outros tantos que nem sabíamos existir. Tornei-me um aldeão peregrino. 

E você, caro leitor e estimada leitora, conhece apenas sua aldeia ou já se arriscou para fora dela, escalando montanhas para contemplar vales? 

É HISTORIADOR, ESCRITOR, MEMBRO DA ACADEMIA PAULISTA DE LETRAS, AUTOR DE ‘A CORAGEM DA ESPERANÇA’, ENTRE OUTROS

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