Nos tempos do mimeógrafo

No próximo dia 10 de outubro, o Núcleo Bandeirante Acauã vai completar 50 anos de existência. Ainda que a data não tenha nenhuma importância no esquema cósmico das coisas e tampouco esteja propensa a aparecer em destaque no jornal A Gazeta da Zona Norte ou, vá lá, no informativo bimestral O Saresteiro, não há como negar sua relevância para esta pessoa que já foi muito pequena e usou saia azul-marinho com lenço colorido.

Vanessa Barbara, O Estado de S. Paulo

05 Outubro 2015 | 02h00

Fui bandeirante por mais de uma década, dos 7 aos 19 anos, e é provavelmente uma das coisas que mais me influenciou nesta vida, junto com a literatura, o vôlei e o YouTube. O bandeirantismo me ensinou a pensar fora da caixa, e com essa caixa montei foguetes, palácios, pirâmides e forrei o chão das barracas para passar menos frio. Aprendi a enxergar as coisas usando a lógica dos jogos, montando quebra-cabeças e encontrando pistas, achando graça em tudo e inventando outros mundos – um pouco como uma literatura aplicada que você pode dividir com os amigos.

No Acauã, passei por todos os ramos e depois virei coordenadora. Tirei quase todos os distintivos e especialidades do livro, de “técnicas de campo” a “salvamento de fogo”, passando por “jornalismo”, “cozinha”, “fotografia”, “observação de animais”, “esportes”, “costura”, “cortesia”, “datilografia”, “primeiros socorros” e “higiene infantil”. 

Aprendi a manejar pirógrafos, mimeógrafos, bússolas, marretas e extintores de incêndio; descobri como se constroem fossas e se montam mesas de bambu; como acender lampiões e como se orientar pelas estrelas. Me ensinaram a fazer reanimação cardiorrespiratória, a tratar queimaduras e a improvisar tipoias. Decorei músicas excêntricas; participei de um número infinito de peças de teatro; paguei mico publicamente em ocasiões variadas; joguei xadrez com deficientes visuais; aprendi nós e o Código Morse; fui imbatível na travessia de rios em cima de cordas. Quase tirei brevê de radioamador. Planejei gritos de guerra, jogos noturnos, cerimoniais e esquetes; montei fogueiras; chafurdei na lama; aprendi a hastear bandeiras e a assar pão de caçador. Trabalhei em asilos e centros de proteção animal. Plantei árvores. Presenciei explosões de bujões e tomei banho de caneca. 

A despeito de possuir uma origem militar, o bandeirantismo tinha seu lado progressista: falava de ecologia e sustentabilidade numa época em que quase ninguém se importava com isso, incentivava o debate, acolhia a diversidade e valorizava a independência dos pequenos. O Acauã era ainda mais notável nesse aspecto, sendo um grupo bastante heterogêneo que vivia acampando com os escoteiros e ganhando medalhas de recolhimento de lixo em parques – a propósito: hoje não há grandes diferenças entre escotismo e bandeirantismo; ambos são mistos e possuem valores parecidos.

Talvez os 50 anos do meu velho grupo não rendam uma notícia de jornal, mas podemos dizer que, no fim das contas, renderam uma cronista. 

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