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Nos tempos da cólera

‘Nenhuma peste teve maior custo para o gênero humano’, avaliou Sêneca sobre a ira

Sérgio Augusto, O Estado de S.Paulo

30 de setembro de 2017 | 02h00

Embora ainda faltem uns três meses para a revista Time e o Dicionário Oxford escolherem a palavra do ano, a minha já está escolhida. Contrariando a praxe recente, não é um neologismo ligado à informática, como tweet, hashtag, app (aplicativo), mas um sentimento – ou uma paixão como preferem psicólogos e filósofos, por sinal cada vez mais frequente na internet e no cotidiano de todos nós. Minha palavra do ano é: ódio.

Se os gringos propuserem “hater”, tudo bem: o espírito da coisa estará preservado. Raiva e ira, por motivos óbvios, também servem. 

Filólogos e lexicógrafos fazem distinções sutis entre ódio, raiva e ira. Ódio e raiva são vocábulos mais corriqueiros. Apesar de corrompida pelo jargão da Geração X, que fez de irado sinônimo de bacana, legal, a ira tem mais lastro que os concorrentes. A ira é um ódio épico, de dimensão divina, como cólera e fúria. Você não diz “o ódio de Deus”, mas “a ira (ou a cólera) de Deus”; nem traduziria The Grapes of Wrath como As Vinhas do Ódio. 

Sinta-lhe a nobreza: cólera (ou ira) é a primeira palavra da Ilíada, poema épico de Homero, obra fundadora da literatura ocidental. Na tradução de Frederico Lourenço, editada pela Penguin-Cia das Letras, ela é a terceira do verso de abertura: “Canta, ó deusa, a cólera de Aquiles...”. Mas o texto original começa com ela: “Orgé”. Com a cólera do mais obstinado hater da mitologia grega. 

As pessoas, em geral, associam a Ilíada ao rapto de Helena de Troia, ao proverbial presente de grego em forma de cavalo de madeira, e ao não menos proverbial calcanhar de Aquiles. A Ilíada relata histórias de míticos combates heroicos e conflitos entre superpoderes (sem mencionar o cavalo), introduz a mais polêmica e danosa chifrada de todos os tempos (Helena foi sequestrada ou corneou Menelau?), porém seu ponto de partida e dínamo narrativo é a cólera, o homérico piti de Aquiles, “que tantas dores trouxe aos aqueus (gregos) e tantas almas valentes de heróis lançou no Hades”. 

O melhor guerreiro grego irrita-se com o que considera um ultraje pessoal (perder Briseida, seu butim de guerra, para Agamêmnon, irmão de Menelau e comandante dos invasores espartanos) e recusa-se a continuar lutando numa guerra que já durava quase dez anos. Conflito absurdo, reação desproporcional a um provável caso de adultério. Por mais bela que fosse, Helena não justificava tantos mortos e feridos na esteira de seu resgate. E por mais que Aquiles se julgasse senhor indisputável de Briseida, seu confisco não justificava o abandono das tropas sob seu comando. 

“Nenhuma peste teve maior custo para o gênero humano”, avaliou Sêneca em seu diálogo sobre a ira. “De todas as paixões, a mais terrível e violenta”, reiterou o filósofo romano. A história nos ensina que sem ódio, raiva, ira ou equivalente não se combate a barbárie, não se arreda o pé do status quo, não se faz uma revolução, etc. A ira turrona de Aquiles é um desperdício de energia, como aquela fúria condenada por Sêneca: “Desenfreada, alheia ao decoro, esquecida de laços afetivos, persistente e afetada ao que começou, fechada à razão e aos conselhos, incitada aos motivos vãos, inábil em discernir o justo e o verdadeiro”. Ávida por uma vingança, termina por arrastar consigo o vingador. 

A raiva domina e consome Aquiles, observa Emily Katz na introdução de seu ensaio sobre os efeitos destrutivos da iracúndia, Enraged (Enfurecido), recém-editado pela Yale University Press (288 págs., US$ 30, só menos 5 dólares no kindle), cujo subtítulo beira a autoajuda histórica: “Por que os tempos de violência necessitam dos antigos mitos gregos”. Se vieram da Grécia as noções básicas de democracia e sufrágio popular, por que não as mais eficazes armas de combate à autocracia, à usurpação do poder e à tirania? 

Seus quatro primeiros capítulos abordam os desastrosos efeitos do furor de Aquiles e da violência vindicativa, os demais três tratam dos “perigos da decisão democrática” (pela tragédia de Ajax, de Sófocles) e do “abuso de poder e suas consequências” (à luz de Hécuba, de Eurípedes), acrescidos de uma conclusão sobre “os objetivos da autogovernança”. A tragédia de Sófocles lida, em última análise, com as sequelas de uma decisão moralmente equivocada (a armadura de Aquiles deveria ter ficado com Ajax, não com Odisseu), deliberada no voto. 

O livro é bom, didático (certas decisões tomadas democraticamente podem servir mais aos objetivos da tirania e da ignorância do que à justiça e à igualdade), aqui e ali rebarbativo, e bastante oportuno. Se não tivesse qualidades, a grande historiadora britânica Mary Beard não teria aceitado resenhá-lo para o suplemento literário do New York Times. Beard vê com reservas a excessiva fé da autora no “truísmo liberal” de que discutir é sempre melhor do que brigar. Para Anhalt, o incentivo ao debate de ideias foi uma das lições que ao Ocidente legaram os antigos mitos gregos, que, além de guerreiros, tinham de dominar a oratória persuasiva. 

Beard duvida que Homero estivesse advogando que vivêssemos sem raiva, estoicamente, pois a ira às vezes não só era, como continua sendo, justificável mas também necessária. “Por acaso desejamos viver num mundo no qual não nos enfurecemos com a escravidão, o racismo e outras injustiças globais?”, indaga a historiadora, vítima de haters desde quando os odientos digitais nem tinham esse nome ainda. 

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