Paul Mezey, um dos produtores de Indomável Sonhadora, não espera sair do Kodak Theatre domingo com o Oscar de filme. "Só um louco se julgaria capaz de vencer superproduções como Lincoln ou Os Miseráveis. Somos o azarão da noite.'' Talvez o Oscar seja mesmo demais para uma produção que custou apenas US$ 2 milhões, ainda que ela seja um dos títulos mais rentáveis do ano - só na América do Norte sua bilheteria alcançou mais de US$ 12 milhões.

Entrevista com

22 Fevereiro 2013 | 02h08

"Já me contento com a chacoalhada que demos naqueles que desperdiçam tanto dinheiro em filmes'', disse o produtor. Além de filme e atriz, o título comprado por quase 40 países concorre ao Oscar de direção (Benh Zeitlin) e roteiro adaptado (Zeiltlin, em parceria com Lucy Alibar).

O drama instaura uma inesperada aura de fantasia e celebração da vida, apesar de retratar uma existência desoladora. Com o pai à beira da morte, menina de comunidade pantanosa da Louisiana precisa aprender a sobreviver em meio à fúria da natureza. Uma tarefa que ela realiza graciosamente, recorrendo ao realismo mágico. "A princípio, ninguém queria financiar um projeto aparentemente tão insano'', lembrou Mezey, em Berlim, onde apresentou no 63.° festival alemão o filme The Cold Lands, sobre americanos que vivem à margem da sociedade, se refugiando em montanhas e florestas. A seguir, os principais trechos da entrevista.

Quando você e os demais produtores de Indomável Sonhadora perceberam que tinham um pequeno tesouro nas mãos?

Depois do curta de Benh sobre o Katrina, Glory at Sea (2008), ficamos de olho nele. Enquanto muitos filmes tratavam o assunto pelo viés político e realista, o curta lidava com a ideia da perda. O fato de o Sundance Institute ter ajudado a desenvolver Indomável, foi outro indicador.

O que mais os convenceu, na proposta do diretor e roteirista, a abraçar o projeto?

Valorizamos cineastas apaixonados pelo tema que tratam. Do momento que acreditamos na visão do artista, nós o encorajamos a ser o mais ambicioso possível, criativamente. O que nos seduziu foi explorar a vida como uma celebração, mesmo que vivamos o tempo todo à beira do desastre. A ideia de questionar quem somos e do que somos feitos também é instigante.

Como o sucesso de Indomável afeta a indústria?

O filme é uma prova de que a experiência emocional é o que ressoa no público e não necessariamente quanto dinheiro foi gasto na produção. Somos um intruso no Oscar, o que talvez tenha um efeito positivo sobre outros produtores. Esperamos que mais deles apostem em projetos arriscados.

Como anda o cinema independente nos EUA, depois da crise de 2008?

É um período de transição. A distribuição de títulos independentes passa por afunilamento ainda maior. Há poucos dispostos a trabalhar nesse nicho. Por outro lado, temos chances de atingir diretamente a plateia, com o VoD (vídeo on demand, usando redes de banda larga) e empresas que entregam o filme pelo correio.

Além de Indomável, você produziu outros títulos independentes indicados para o Oscar, como Maria Cheia de Graça (pelo qual Catalina Sandino Moreno concorreu como atriz em 2005) e Half Nelson (com Ryan Gosling competindo como ator em 2007). Diria ter olho clínico?

(Risos) Não! Ninguém consegue adivinhar se um filme acabará no Oscar. O que me ajuda é encontrar uma intersecção entre o tema do filme e o que ele representa para mim. Preciso ter uma conexão emocional com a história. Maria, por exemplo, me permitiu conhecer a Colômbia, onde o meu pai cresceu. Além de mostrar o tráfico de drogas de ponto de vista humano, passei três anos resgatando as minhas raízes. Os melhores filmes são jornadas pessoais para todos os envolvidos.

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