Nos retratos, um grande painel da américa

Foco é na complexa sociedade dos Estados Unidos nos anos do após guerra

Luiz Zanin Oricchio,

03 de outubro de 2010 | 00h11

Stanley Kubrick viaja como repórter fotográfico, mas, claro, seu foco de atuação recai sobre os Estados Unidos. Afinal, norte-americanos eram os dois, o fotógrafo e a revista. Interessava-lhes compor o painel de um país que saía da 2.ª Guerra Mundial vitorioso e otimista. Enquanto a Europa lambia suas feridas e dava início a uma penosa reconstrução, os Estados Unidos surgiam como a grande potência mundial. É ali, e em especial sobre a multifacetada Nova York do pós-guerra que Kubrick concentra seu olhar.

Esse painel vai desde o registro dramático do carro de transporte de presos em Nova York, visto do seu interior, com policiais e prisioneiros algemados como personagens, até o comovente acompanhamento de um menino engraxate pelas ruas da cidade. Essa sequência é exemplo acabado de história ilustrada. Vemos o garoto Mickey, de 12 anos, pelas ruas, contemplando um cartaz de cinema, com a família e sempre acompanhado de sua caixa de engraxate, com o preço do serviço estampado: 10 cents. Vemos o garoto trabalhando, mas também brincando, na aula, e dando de comer aos pombos do Bronx - tentativa, talvez, de alegoria do jovem Kubrick, que vê nas aves a imagem de liberdade a que o garoto talvez aspirasse, sem de fato ter.

Do mesmo tônus emocional se compõe a série dedicada ao circo, com seus trapezistas, homens fortes e equilibristas. Não parece ser um daqueles grandes circos, suntuosos, que proporcionam espetáculos inesquecíveis (e caros). É um pequeno circo, do tipo que existe em qualquer parte do mundo, e dos quais emana um suave tom de melancolia, de algo em via de extinção, com os dias contados. A lente de Kubrick parece bem sensível a essa circunstância. E também dedica atenção especial aos bastidores do espetáculo. Por trás do espetáculo e às vezes do glamour, existem as pessoas que se comportam como profissionais e preparam o show que irá encantar aos frequentadores. Da série, o que emerge não é tanto o clichê da magia do circo, mas o cotidiano dos artistas circenses.

Cotidiano. O tom do registro já é outro quando o fotógrafo, sempre sob as ordens da revista que o emprega, se debruça sobre outros aspectos da vida social americana. Nesse caso, algo oposto à vida pobre do garoto engraxate ou o cotidiano do circo do interior - são as fotos suntuosas de uma das maiores universidades do mundo, a de Columbia, lá onde a elite vai estudar e reproduzir nova casta de poder. Aqui, as angulações são diferentes e registram o senso do poder da jeunesse dorée nova-iorquina, a nonchalance daqueles destinados a dirigir o mundo.

O tom adquire mais leveza ao captar a graça de outra vencedora, a precoce Betsy von Fürstenberg, bailarina aos 7 anos, modelo aos 14 em Paris, atriz aos 18. Uma graça de criatura quando dança, brinca num balanço, quando aceita o cigarro de um cavalheiro ou quando descasca prosaica banana num restaurante. Consciente de seu poder de sedução, posa na contraluz de uma janela, as longas pernas dobradas enquanto afaga um cachorrinho. Betsy sabia perfeitamente do efeito de sua presença sobre o olhar masculino e não esconde sua aura à objetiva de Kubrick.

Enfim, são fotos em si sensacionais. Mas a sua reunião, num conjunto coerente, vão além da mera fruição estética para o espectador. Abrem nova vertente de compreensão da obra de um dos mais importantes cineastas do século 20. Claro, vemos as fotos com a atitude retrospectiva de quem sabe que aquele olhar que registra o engraxate, a bailarina, o policial, o universitário seria o mesmo ao qual devemos obras-primas como 2001 - Uma Odisseia no Espaço, Barry Lyndon e O Iluminado. No entanto, essa série de fotografias, por sua qualidade extraordinária, permite uma reavaliação dos anos de formação do futuro gênio do cinema. Além do seu valor em si, ajudam a iluminar a obra.

O curioso é que essa coleção estava dispersa, senão perdida, antes de ser garimpada pelo crítico de arte Rainer F. Crone, que também assina a curadoria da exposição. Crone diz que se empenhava em uma pesquisa séria sobre a fase de fotógrafo do cineasta quando procurou o próprio Kubrick, em Londres, para que ele o ajudasse. "Para minha surpresa", conta Crone, Kubrick disse que não possuía nenhuma das imagens que tinha feito para a Look entre 1945 e 1950 e não tinha ideia de onde se encontravam os negativos. Nem mesmo se ainda existiam." Crone diz ainda que Kubrick o encorajou a continuar as buscas pelas fotografias. Isso foi em 1998. No ano seguinte, Kubrick morreu, deixando como legado seu último (e extraordinário) filme, De Olhos Bem Fechados, baseado na obra de Arthur Schnitzler Breve Romance de Sonho.

Golpe de sorte. No curso dos anos sucessivos, chegou-se à descoberta dos negativos, conservados nos arquivos da Biblioteca do Congresso americano. O outro golpe de sorte surgiu quando se soube que 2/3 dos negativos de Kubrick haviam sido doados ao Museu da Cidade de Nova York pela Look, em 1952. Estavam misturados a material de menor valor e tiveram de ser cuidadosamente separados. Dessa forma, chegou-se a esse notável tesouro - 12 mil negativos de fotografias tiradas por Stanley Kubrick em sua juventude. Foram 12 também os anos que Croner dedicou ao estudo desse tesouro fotográfico.

O desafio final então se converteu em selecionar, entre essas milhares de imagens, cerca de 200 das mais significativas e ampliá-las para que dessem forma a essa exposição. Foram todas feitas para servir como material jornalístico e, portanto, jamais foram vistas nas grandes dimensões em que se encontram hoje no palazzo veneziano. A maior parte das fotos foi tirada com uma câmera Rolleiflex, com negativo no formato 6 x 6. Donde os quadros em que se transformaram terem forma quadrada e não retangular como é de hábito nas fotografias.

Como destaca Crone, Kubrick aproveitou-se de maneira muito hábil da exigência da Look de dispor as fotos em sequência narrativa - "Ele conseguiu de fato transformar imagens estáticas (still pictures, próprias da fotografia) em sequências que davam lugar a verdadeiras histórias, espécie de "contos" fotográficos tão fascinantes como aqueles que ele viria a realizar mais tarde com imagens em movimento." Em outras palavras, o Kubrick cineasta estava já contido no Kubrick fotógrafo.

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