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Nós quem, cara pálida?

Os 64 milhões de eleitores de Hillary Clinton, mais os 7 milhões que desperdiçaram seu voto no libertário Gary Johnson e na maluquete Jill Stein – Trump, com 62 milhões, é o mais impopular vitorioso da história moderna dos EUA

Lúcia Guimarães, O Estado de S.Paulo

28 Novembro 2016 | 07h00

Era natural. Os 64 milhões de eleitores de Hillary Clinton, mais os 7 milhões que desperdiçaram seu voto no libertário Gary Johnson e na maluquete Jill Stein – Trump, com 62 milhões, é o mais impopular vitorioso da história moderna dos EUA – foram servidos com doses fortes de raiva, contrição e trocas de acusações.

Poucos diagnósticos tocaram num nervo como o artigo de Mark Lilla, o mais compartilhado do New York Times na última semana. Em O Fim do Liberalismo de Identidade, o professor de Humanidades de Universidade de Columbia culpa a fragmentação da mensagem da campanha em grupos alvo pela derrota de Hillary. Lilla, eleitor de Hillary, é autor de um livro sobre o reacionarismo político, A Mente Naufragada: Sobre a Reação em Política.

A rede social acendeu em debate, mais previsível fragmentação e a habitual polarização. Lilla foi até acusado de supremacista branco por um colega na Columbia. Eis o seu argumento: Os liberais norte-americanos escorregaram num pânico de identidade sexual, racial e de gênero e desgastaram sua imagem de força capaz de unificar e governar o país. Se a sua preocupação política dominante é com o pronome de gênero ou quem frequenta qual banheiro, junte-se aqui o poder da rede social de exacerbar exponencialmente micro-individualismo, você perde o senso de proporção.

Mark Lilla lembra que os republicanos controlam não só as duas casas do Congresso e mais a Casa Branca, a partir de janeiro. Eles controlam também 31 dos 50 governos estaduais e também a maioria das legislaturas estaduais. Vivemos há décadas sob o filtro narrativo da Fox News, diz ele, e o Partido Democrata não se armou para contra-argumentar esta bolha que atinge o vasto eleitorado branco francamente vulnerável à narrativa simplista e nostálgica. Sim, a vantagem de Hillary no voto popular, de 2.2 milhões, é a maior da história. Lilla acusa os estrategistas de Hillary de ter empurrado a candidata para moldar mensagens sob medida para grupos, de fato, oprimidos. Ele propõe que a defesa necessária do negro que leva um tiro da polícia por ser negro deve ser a defesa dos valores que definem o país como um todo. “Política nacional, em períodos saudáveis, não é sobre ‘diferença’ mas sobre coesão,” ele escreve.

Como eu não tenho uma filho cuja cor da pele o coloca em risco de morte cada vez que sai de casa em certas cidades dos EUA, ouço a irritação das mães que têm diante deste argumento. Volto a Lilla: “Liberais devem lembrar que o primeiro movimento de identidade em política nos EUA foi a Ku Klux Klan, ainda viva. Quem joga o jogo da identidade deve estar preparado para perder.”

No mesmo dia em que o artigo saiu, Bernie Sanders conclamou os democratas e superar a política de identidade. “Vote em mim porque sou mulher, não basta,” disse. “Precisamos é da mulher com coragem de enfrentar Wall Street, as seguradoras de saúde, as indústrias farmacêutica e de combustíveis fósseis.” Ou seja, Sanders, uma força inegável hoje no Partido Democrata, enfatiza classe e não identidade como o caminho para ganhar eleições.

Não há nobreza em perder eleição por pureza ideológica, diz Lilla. O presidente que mais fez pelos negros norte-americanos era um texano racista, até chafurdar na lama com políticos racistas do sul e forçar o fim da segregação. O país deve a Lyndon Johnson, não só a histórica Lei de Direitos Civis de 1964, como os programas sociais conhecidos como a Grande Sociedade.

Em várias entrevistas, o professor Lilla se declarou convicto defensor de direitos de minorias. O que ele critica como liberalismo de identidade é a ênfase na expressão em prejuízo da persuasão, o excesso de autodefinição que estimula o narcisismo e aliena o outro.

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