Nós que nos amávamos tanto

Amizade traída é o tema de A Pele do Cordeiro, que Paulo Morelli filmou em casa, em parceria com o filho Pedro

LUIZ CARLOS MERTEN, SÃO FRANCISCO XAVIER, O Estado de S.Paulo

30 de junho de 2012 | 03h09

Depois de percorrer uma reta só até Monteiro Lobato, o carro sobe por uma estrada de curvas até São Francisco Xavier. Até aqui, é asfalto, mas agora é preciso pegar uma estrada de terra e de novo serpentear até a locação de A Pele do Cordeiro. O lugar fica no alto de um morro. Dá vista para uma paisagem de cortar o fôlego. É aqui que o diretor Paulo Morelli roda seu novo filme. O diretor de Cidade dos Homens tem aquela cabeleira branca, mas não é de velho. E está cercado de jovens.

Seu elenco inclui atores de cinema (Caio Blat e Maria Ribeiro), de teatro (Lee Taylor) e uma loira linda que encarna sozinha todo o glamour da televisão (Carolina Dieckmann). Eles compõem apenas parte do elenco do longa que Morelli realizou em casa. Também estão ali Júlio Andrade, Paulo Vilhena e Martha Nowill. Não apenas a locação é a da casa no sítio do cineasta como Paulo divide a direção com o filho, Pedro Morelli - e o garoto parece tão mais jovem que até adotou uma barba para adquirir autoridade na hora de exigir 'Silêncio!' à equipe.

Pedro ri, mas, brincadeiras à parte, o set de A Pele do Cordeiro - já terminou - foi um dos mais tranquilos da carreira de Morelli pai. No início, rolou um estresse, porque a produção decolou no auge da crise provocada pelas fotos que vazaram na internet, mostrando Carolina Dieckmann nua. Surgiram paparazzis de todo lado. Carol, agora mais serena, reconhece que APDC - plaquinhas ao longo da estrada adotam as iniciais para sinalizar o local da filmagem - poderá marcar uma mudança em sua carreira.

"Vai ser difícil voltar aos diálogos naturalistas das novelas", ela diz, depois desse trabalho cuja dramaturgia foi estabelecida em parceria com o próprio elenco. Todo o grupo se reuniu na casa dos Morellis, antes da filmagem, para repassar e reinventar o texto. Paulo admite que correu um risco ao contratar Carol. "Sinceramente, não sabia se ela ia corresponder, e eu tenho um elenco de feras. Mas a Carol foi uma grande surpresa. É maravilhosa", ele diz, e há que concordar.

Qual é a vantagem de filmar em casa? "Bom, não pago aluguel e isso barateia a produção, que é B.O. baixo orçamento." Um B.O. de quase R$ 4 milhões? "Os custos com elenco e equipe técnica dispararam. É o preço da profissionalização do cinema brasileiro", ele reflete. Na chegada ao set, a 200 (ou 300) metros da porteira, o caminhão que traz a grua interdita a estrada. É sábado, 17 de junho, e a grua será decisiva numa cena filmada no domingo, 18.

O filme é sobre uma amizade traída. Caio Blat assumiu como seu um livro que Lee Taylor escreveu há dez anos, antes de morrer num acidente. Na cena filmada agora, os amigos escrevem, em 1992, cartas para eles mesmos, que vão abrir em 2002. A narrativa tem dois tempos, mas Paulo Morelli ainda decide se será linear ou flash-back. Caio será desmascarado? A grua é para uma cena que celebra a amizade. Nós que nos amávamos tanto. A Pele do Cordeiro fala de amigos para espelhar as mudanças do Brasil.

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