Nós que amávamos tanto as atrizes

Em coletânea, Guillermo Cabrera Infante expressa seu amor incondicional pelo cinema, em especial o de Hollywood

LUIZ ZANIN ORICCHIO, O Estado de S.Paulo

03 de agosto de 2013 | 02h18

Não é estranho um livro chamar Cinema ou Sardinha? Ainda mais quando se conhece o autor - o cubano Guillermo Cabrera Infante (1929-2005), escritor, roteirista, crítico de cinema, amigo da primeira hora da revolução cubana e, que, depois de brigar com os irmãos Castro, exilou-se em Londres?

O cinema pode ser muitas coisas - ferramenta crítica, de conhecimento ou autoconhecimento, denúncia social, entretenimento, fascínio ou sedução. Em especial esses últimos, principalmente quando se fala do cinema de Hollywood. E é sobre este, de maneira preferencial, que Cabrera Infante se debruça. Com lucidez exemplar, mas também com seu senso de ironia afiado, um tipo de distanciamento que jamais abole a paixão, esse combustível indispensável a todo cinéfilo digno desse nome. E Cabrera Infante era, antes de tudo, um cinéfilo.

Portanto, não se trata aqui de uma coletânea de textos críticos. Cabrera Infante foi crítico de cinema durante muitos anos, escrevendo sob o pseudônimo de G. Caín. Em Cinema ou Sardinha temos escritos de outra ordem, mais gerais, abordando aspectos amplos do cinema e não filmes em particular.

E de que trata Cabrera Infante? Acima de tudo dos personagens do cinema - pioneiros como Louis Lumière e Georges Méliès, diretores como Vincente Minelli, John Ford e Howard Hawks, produtores como Louis B. Mayer, atores como Humphrey Bogart e John Wayne e, acima de tudo, atrizes. Fôssemos tomar como ápice algum ponto desse livro multifacetado seria o amor por essas mulheres transformadas em estrelas intangíveis pela magia do cinema.

Há uma passagem elucidativa sobre a paixão cinéfila pelas deusas. Cabrera conta conversa que presenciou entre o fotógrafo cubano Néstor Almendros e o escritor argentino Manuel Puig, ambos residentes em Nova York. Na época, nenhum deles era famoso, e viviam com pouco dinheiro. Puig insistiu para que Almendros deixasse o hotel e viesse morar em seu cubículo. Começaram a conversar sobre cinema, claro. E, a certa altura, Almendros declarou que não gostava nada de Lana Turner. "Sério?", espantou-se Puig. "Seriíssimo", respondeu o outro, pelo que foi imediatamente expulso da residência. "Não posso ficar debaixo do mesmo teto com uma pessoa que detesta a divina Lana!", gritava Puig, de fato indignado.

Nessa época em que paixões cinematográficas podiam tanto aproximar fãs como desfazer amizades e casamentos. Cabrera não se faz de rogado e declara sua devoção a María Félix, a atriz mexicana de Doña Bárbara. No índice Cabrera Infante de sedução feminina, vinham, em seguida, Hedi Lamarr, Marlene Dietrich, Dolores del Río e Greta Garbo. Mas nenhuma competia com María que, por isso, ganha um artigo inteiro só para si: Ave Félix. Ele a amava a ponto de escrever: "Ela é seu próprio padrão de beleza, só se pode compará-la a ela mesma. Sua gestalt se decompõe na longa cabeleira ondulada, no queixo dividido e nos olhos onde dança uma chispa: - a dança do fogo-fátuo". Um amigo contou-lhe ter se encontrado com María, em Paris, já entrada em anos e comentado que ainda era bela. O "ainda" magoou Cabrera. Não a ponto de expulsar o interlocutor do recinto, mas de lhe explicar que "ainda bela" não fazia justiça a María Félix, como não faria a Vênus, a deusa da mitologia. A cronologia dos mortais não se aplica a esses seres.

Ah, sim, o título. O próprio Cabrera explica: "Na minha cidadezinha, quando éramos crianças, minha mãe perguntava a mim e a meu irmão se preferíamos ir ao cinema ou comer, com a frase festiva: cinema ou sardinha? Nunca escolhíamos a sardinha." Cinema é devoção. E vale mais que a fome.

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