'Nós precisamos ser mais globais'

Richard Armstrong, diretor do Guggenheim de NY, diz que fase extravagante do museu está encerrada

Lúcia Guimarães, de O Estado de S. Paulo,

31 de outubro de 2009 | 00h05

     

 

NOVA YORK - Numa tarde amena de 1992, um americano natural de Kansas City, Missouri, Richard Armstrong, hoje diretor do Museu Guggenheim de Nova York, percorreu todo o Jardim Botânico do Rio em silêncio. Seu guia era o curador Paulo Herkenhoff e ele não desconfiou que o visitante desprezava as palmeiras imperiais. "Armstrong se encontrava num estado de contrição extática, consumido por pinturas", lembra Herkenhoff ao telefone, do Rio. O silêncio do estrangeiro, então recém-nomeado curador do Carnegie Museum of Contemporary Art, era uma reação à visita que fizera na mesma tarde ao estúdio de Beatriz Milhazes.

 

Armstrong montou no Carnegie uma exposição da artista carioca, inaugurada em 1995, pouco antes de assumir o leme da instituição. No escritório que ocupa atualmente, na sede administrativa do Guggenheim, ele dispensa o crédito. "Qualquer um no meu lugar teria entendido a importância da Beatriz", sentencia.

 

Frank Lloyd Wright

 

O Solomon R. Guggenheim Museum, um dos sinônimos de Manhattan, completa 50 anos com recorde de frequência. Na semana do aniversário, em 21 de outubro, 33 mil pessoas passaram pela pequena porta de vidro que deságua na visão majestosa da rotunda branca arquitetada pelo gênio de Frank Lloyd Wright. Quem admira a imensa claraboia, seis andares acima, pode pensar no clichê dos últimos 20 anos - os museus são as catedrais contemporâneas.

 

Dia da inauguração do museu.

 

Se a arquitetura de Wright inspira reverência, o período de emergência da metáfora artístico-religiosa coincidiu com um paganismo bizarro. Sob a direção de Thomas Krens, a instituição plantada na esquina da Quinta Avenida com Rua 89 conheceu a fama e a infâmia. A ideia do museu global, simbolizada pela filial de titânio de Frank Gehry em Bilbao, foi levada ao extremo da caricatura do McMuseu, com o Rio de Janeiro aderindo ao projeto de franquia internacional do Guggenheim, desde o México até a Lituânia.

 

A noção de que o museu deveria acolher um espectro de "expressão artística" mais amplo inspirou sucessos de bilheteria como A "Arte" da Motocicleta (as aspas são nossas), quando o interior do edifício de Nova York foi revestido de metal, em 1998, e abrigou a incongruência de imobilizar o símbolo da velocidade em cavaletes.

 

Expowsição da Arte da Motocicleta  

 

Krens fazia a rotunda branca coincidir com fontes extraordinárias de patrocínio. Em 2000, a espiral foi coberta de tela diáfana para receber Giorgio Armani, sim, o designer de roupas. É o mesmo espaço hoje ocupado por Vasily Kandinsky, o artista russo intimamente ligado à criação do Guggenheim e cuja retrospectiva marca a celebração dos 50 anos. (Notou a diferença?)

 

Em 2001, o Guggenheim se cobriu de preto num ataque de nervos intitulado Brazil, Body and Soul, descrito pelo crítico Jerry Saltz como "a mais feia e confusa exposição já montada por um museu nova-iorquino".

 

Krens foi deposto em 2008 e neutralizado com o cargo de assessor sênior para assuntos internacionais. No seu regime, o Guggenheim não deixou de exibir o trabalho de curadores talentosos e fez bom uso de sua coleção, que começou sob a moldura de Museu de Pintura Não Objetiva. O museu original, financiado pelo colecionador e milionário Solomon R. Guggenheim, foi fundado por Hilla Rebay, a pintora alemã e sua amante, em 1939. Rebay dirigiu a instituição até 1952 e a sede encomendada a FLW rebatizou o museu quando de sua inauguração, em 1959.

 

O cinquentenário do primeiro museu moderno reconhecido por sua formas promete uma nova fase. Um clima de maturidade criativa desliza, elegante, por suas rampas. À frente dele, Armstrong confirma a imagem de despretensioso numa cidade de poseurs competitivos. Dispensa mordomias e seu gabinete de trabalho não exibe uma só peça do acervo sob sua guarda. Ao comentar o desafio de viver sob a mira da mídia mais impiedosa do país, não altera a modulação macia da fala. "Nós vivemos numa cultura em que todos gritam", diz, resignado. "Não é bom para a cultura nem para as nossas convicções, só é bom para vender coisas."

 

Cheguei ao encontro esperando respostas políticas e estudadas, calejada por anos de entrevistas com seus pares. Encontrei uma franqueza que, de alguma forma, resistiu à longa viagem de Kansas City.

 

 
O diretor do Guggenheim de Bilbao, Juan Ignacio Vidarte, que comanda as estratégias globais da instituição, anunciou na semana passada que os planos para um museu com essa grife em Guadalajara e no Rio estão, definitivamente, cancelados. O Guggenheim de Abu Dabi seria o único projeto internacional a ser mantido. 

Não houve um anúncio oficial em relação ao Rio. A única novidade é não seguir adiante com Guadalajara. Não é um bom momento para eles, nem mesmo um bom momento para nós. Então, foi uma decisão mútua. Quanto ao Brasil: se nós olhamos para o país objetivamente, vemos que vocês estão no limiar de fazer coisas dentro de seus próprios imperativos. Então, o que temos a ganhar se, no próprio país, há o amadurecimento da cultura visual de forma tão interessante? O que quer que aconteça no Brasil, deve partir de lá.

 

O que o museu aprendeu com a experiência de negociar com o Rio?

Eu não tenho muita familiaridade com o que ocorreu, mas antes de propor casamento, é bom ter outras experiências de namoro antes... (Risos.)

 

Thomas Krens, deu uma entrevista recente exaltando o Guggenheim de Abu Dabi como o melhor projeto, um avanço sobre o conceito de Bilbao.

O que está havendo é a busca por um equilíbrio mais pleno entre a alta cultura da região com informação de fora. A tarefa difícil é reconhecer que o projeto não se destina a glorificar a nossa interpretação sobre o que aconteceu desde 1950. O que pretendemos é ajudar as pessoas corajosas que já estavam lá a avançar com sua própria causa. E isso está sendo profundo em Abu Dabi porque há um comprometimento gigante dos artistas contemporâneos da região com o museu.

 

 

Como o senhor vê as reservas levantadas nos EUA em relação à potencial censura de conteúdo das mostras e à prática dos Emirados Árabes de negar vistos a cidadãos de Israel?

Isso não é mais verdade. Acredite, nós não estaríamos cooperando com eles se fosse esse o caso. Quanto à censura, viajei com o grupo que toma decisões sobre exposições. Em nenhum momento se diz "isto é bom" ou "isto é mau". E eles já mostraram lá uma grande exposição de obras de Picasso, incluindo nus. Ele foi um artista erótico? Eu acho que não, mas há quem ache que sim. E mesmo assim não tivemos problema.

 

O museu teve uma audiência recorde de mais de 33 mil pessoas na semana do cinquentenário, perto do fim de outubro. Como o crash de setembro de 2008 afetou os planos da comemoração?

Não influenciou o que fizemos. No entanto, houve grande redução do patrocínio corporativo, cerca de 65%. A redução entre doadores privados foi em torno de 24%. Então, valeu a pena ser corajoso.

 

Quando o senhor conversa com seus colegas de outros grandes museus de Nova York, trocam preocupações sobre...

De jeito nenhum.

 

Mas vocês têm doadores que sofreram perdas enormes...

Sim, mas historicamente certas pessoas têm certa conexão com certas instituições - e aparece gente nova toda semana. Novas corporações, possibilidades. E ainda temos a vantagem de poder dizer: "Quando você nos apoia, apoia uma apresentação global, a exposição pode ser vista também em Veneza ou Bilbao; é outra dimensão."

 

Isso globaliza a fonte de doadores?

Exatamente. Então, se houve um impacto forte em pouco tempo, a longo prazo acho que não vamos ter problemas. E o modelo americano de patrocínio se tornou mais generoso nos últimos 30 anos. E no Brasil também, não é?

 

Logo que assumiu a direção do Guggenheim, o senhor disse que a presença do museu deveria ser sentida ao norte da Quinta Avenida, numa referência ao Harlem e ao Bronx.

E levei uma bronca dos meus colegas ao norte da Quinta Avenida! Eles disseram, ei, já estamos aqui (alusão a instituições como o Museu del Barrio e ao Museu do Bronx). Mas o que eu queria dizer era: "Precisamos atrair o público jovem de todas as vizinhanças da cidade." Precisamos ser mais eficazes nos programas de educação. Precisamos ser bilíngues. Não dá para atingir uma parte do público se não falamos sua língua - literal ou metaforicamente.

 

Outro comentário seu foi sobre a visão de mostras que dariam mais contexto histórico, que provocariam discussão de ideias. Quer dizer então que o museu privilegiará coletivas em vez de individuais?

É uma conclusão justa. Vamos tratar mais de contexto e menos de conquista individual. Você vai ver já na primavera, quando examinarmos como o cinema, o vídeo e a performance evoluíram a partir da pop art, depois de Andy Warhol e Robert Rauschenberg. É uma grande coletiva que vai se chamar Haunted. Teremos mais projetos dessa magnitude.Vamos tentar situar a cultura contemporânea como continuidade, desdobramento - quer dizer, não pela lente de uma só conquista, mas de várias. E pretendemos não ficar tão orientados para a arte americana. E, no segundo semestre de 2010, examinaremos como a arte mudou na Europa depois da 1ª Guerra, como avançou em direção à 2ª Guerra e ainda nos deteremos sobre o momento crucial em que Picasso se torna um clássico, em 1920, e o que isso representou. E como tudo está ligado ao que historicamente chamamos de "retorno à ordem", a era pré-fascista. A mostra vai se chamar Caos e Classicismo.

 

Numa fase em que o museu quer aumentar seu público, essa atitude não representa um desafio maior, quero dizer, chamar a atenção para mostras sem o nome de artista famoso?

Acho que estamos descobrindo a resposta à sua pergunta nos números de frequência. Chegamos ao ponto em que as pessoas vêm porque nós as convidamos. Acho que o público já confia no nosso conteúdo e por isso vimos os recordes recentes. Acho que dá para dizer: "Isto é algo que vocês não conhecem bem, mas garantimos que vão achar interessante."

 

Então é justo concluir que não vamos nos deparar com roupas de Giorgio Armani por um bom tempo?

Quem? Armani? (Armstrong abre um sorriso maroto.) As grandes conquistas de Armani já foram celebradas apropriadamente.

 

E o senhor compartilha das críticas feitas à mostra de Armani, em 2000?

Acho que fui um dos críticos. Mas quero me dirigir aos críticos. Depois de decisões como aquela, de exibir Armani, a nossa frequência disparou e a instituição passou a ocupar a consciência popular. Sem isso, talvez hoje tivéssemos um público menor. Foi uma lição aprendida. Não é uma lição que me agrade. Contudo tem que se estar aberto para o fato. A administração anterior entendeu a importância de dar status de ícone para a instituição. Não há substituto para o fato de as pessoas conhecerem a fachada do museu e apreciarem sua beleza. É por isso que alguns museus nova-iorquinos não são frequentados como deviam ser. É porque não foram apresentados como uma atração em si mesmos. O prédio projetado por Frank Lloyd Wright é uma atração incrível.

 

Então, se a decisão fosse sua hoje, ia considerar a exposição de nove anos atrás "conflito de interesses", já que Armani doara uma quantia estimada em US$ 15 milhões para o museu?

Tenho certeza que sim, de maneira geral. Estamos vivendo num universo ligeiramente diferente hoje. (Armstrong faz uma pausa.) Mas eu não me inteirei em detalhes daquele período porque fui um dos que quiseram se desligar. E agora sou um dos que querem ficar ligados!

 

Então, está concluindo que terá mais liberdade intelectual e arriscará mais por causa da fama do museu que herdou?

Sim, é atraente ter até 35% do seu orçamento vindo da contribuição dos frequentadores do museu. É um grande voto de confiança. Entretanto, noto também que, como resultado da ambição da administração anterior, o museu reconhece os desafios e as oportunidades de ser global. Você começa a olhar a cultura como um todo e o diálogo se transforma.

 

A exposição Brazil Body and Soul foi criticada como o exemplo do que não se deve fazer com a arte de outro país. Quando o senhor diz que vai se preocupar em fazer o museu menos norte-americano, o que tem em mente?

Quero dizer que devemos ser mais globais. Não precisamos ser "menos" nada; podemos lidar bem com a América do Norte.

 

E como se consegue fazer isso?

Com uma equipe bem informada e a habilidade de fazer intercâmbios. O Brasil, por exemplo, não sofre de nenhum subdesenvolvimento intelectual. O seu país tem alguns dos maiores curadores em atividade no mundo: Adriano Pedrosa, Ivo Mesquita, Paulo Herkenhoff. Há pouca gente que se compare a eles. E eles entendem a vastidão do mundo. Então, o importante é atrair gente desse calibre para o diálogo e utilizá-los como parte de uma rede.

 

Se o atual prefeito do Rio lhe dissesse "Não queremos mais um Guggenheim", mas pedisse sua opinião sobre como aumentar a visibilidade cultural da cidade, o que aconselharia?

Simples. Perguntaria ao prefeito: "O senhor conhece o Paulo Herkenhoff? Ele é um gênio. Sabe tudo sobre o passado colonial que é tão importante para entender o Brasil." Eu daria todo o dinheiro para o Paulo. E se ele falhasse, mandava matá-lo! (Risos.) Não iria falhar, aposto. É o herói mal reconhecido. Às vezes, de fora, parece que o produto dele é muito intelectual. Mas é porque ele não está interessado em popularizar o que faz. Tem enorme integridade intelectual. Precisa de assessoria para torná-lo mais "vulgar".

 

O senhor é o diretor do Guggenheim e dá um conselho desses?

(Mais risos.) Não é bem assim. Mas eu vivo em outra situação. A mídia de Nova York é tão faminta... Estamos num estágio diferente. Vocês ainda lutam para a cultura ser mais central no senso de autoidentidade.

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