Nos passos de Bach

Paixão pelo compositor alemão une seis coreógrafos e o violoncelista grego Dimos Goudaroulis

HELENA KATZ , ESPECIAL PARA O ESTADO, O Estado de S.Paulo

01 de maio de 2012 | 03h07

A paixão pelo violoncelo reuniu Luis Fernando D'Ávila e Dimos Goudaroulis e dela nasceu Logos-Diálogos, que estreia hoje, às 21h, no Teatro Alfa. Trata-se do encontro das Seis Suítes para Violoncelo Solo, que Johan Sebastian Bach escreveu entre 1720 e 1723, em Köthen, na Alemanha, com a dança de Jorge Garcia, Luis Arrieta, Henrique Rodovalho, Tíndaro Silvano, Ismael Ivo e Deborah Colker.

O projeto marca um percurso que o violoncelista grego Dimos Goudaroulis, radicado no Brasil desde 1996, iniciou aos 13 anos, em Tessalonica, sua cidade natal, quando começou a estudar as famosas Suítes. "Nunca mais parei e a cada dia fui descobrindo um jeito poético de falar delas porque não há como comprovar o que Bach pensava enquanto as escrevia, mas é possível descobrir as dicas que nos deixou na sofisticada numerologia que as estrutura", diz um Dimos quase devoto, de olhos brilhando de entusiasmo, 28 anos depois, na apresentação de Logos-Diálogos, realizada no Estúdio Anacã, na cidade de São Paulo.

Felipe D'Ávila chamou a atenção para o fato de que essas suítes surgem em um período muito particular na vida de Bach. "É nesse tempo que passa no principado de Köthel que ele sai do mundo religioso pela primeira vez e escreve as seis suítes, feitas de danças de corte, nas quais o violoncelo deixa de ser um instrumento de acompanhamento, marcando a história desse instrumento."

Em julho do ano passado, Dimos lançou a integral da sua 'bíblia', tocada da forma mais próxima dos manuscritos de Anna Magdalena Bach, a copista e segunda mulher de Bach, uma vez que as partituras originais se perderam. Usou um violoncelo barroco do século 18 para as cinco primeiras e um violoncelo piccolo de cinco cordas, construído em 2007 por Saulo Dantas, luthier de São Paulo, para a última. E fez nascer os sons com um arco de tripa. "Elas me levam a reverenciar a época e a visão histórica, e, ao mesmo tempo, a colocá-las em diálogo com a atualidade. Seus arcos parecem que não se fecham, pois quando imaginei estar finalizando um ciclo com o lançamento da gravação integral, surgiu o projeto que agora vamos estrear", destaca ele.

Dimos compartilhou o seu fascínio pela numerologia e pelo misticismo que encontra nas seis Suítes: "Elas estão divididas em duas trilogias, que vamos apresentar sem fechar as cortinas, mantendo um continuum, e o número três é o regente de tudo. Cada suíte tem seis movimentos, e há um paralelismo entre elas, que agrupa por tonalidades complementares a primeira com a quarta, a segunda com a quinta e a terceira com a sexta (repare que a diferença é sempre de 3 entre os números reunidos). Sabe-se que o número 3 é forte na simbologia cristã e que as suítes se distribuem em um plano horizontal e noutro, vertical, ou seja, em uma estrutura que reproduz o traçado da cruz."

Até a quantidade dos bailarinos está atada a essa concepção combinatória em torno do número 3: Jorge Garcia compôs para seis bailarinos da sua companhia, Luís Arrieta dança com Ana Botafogo, Henrique Rodovalho usa um elenco com nove, Tíndaro Silvano também coreografou para nove membros do Grupo Vórtice, Ismael Ivo faz um solo e Deborah Colker convidou seis profissionais.

A passagem de uma suíte para a seguinte será conduzida pela iluminação de Joyce Drummond, e pelos figurinos e cenografia de Fábio Namatame. "Havia uma preocupação muito grande para que não fosse um desfile de coreógrafos e que o espetáculo precisava falar algo para além do encontro entre a música e dança, precisava ir em direção a outras camadas, aquelas não aparentes, as que falam da unidade na multiplicidade - daí o conceito de Logos, que se associa à razão de ter sido trazido para o título do projeto", continua Dimos.

A todo tempo, agradecia publicamente o acolhimento por parte de cada um dos coreógrafos escolhidos. "A tarefa do músico é celibatária com o seu instrumento e, de repente, me vi mergulhado, trabalhando com uma equipe de 60 pessoas, que me fez descobrir que o que nos trouxe até aqui foi o afeto. Imaginem que a primeira frase que Ismael me disse foi: 'Bach é Deus.'"

Quem quiser completar o ciclo, precisará ir duas vezes ao Teatro Alfa, sempre às 21 h, pois hoje e amanhã serão apresentadas as três primeiras suítes, e nos dias 8 e 9, as três outras. Ou seja, mais um exercício em torno da numerologia do 3.

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