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Nos passos da arte de Leonilson

Marcos Sobrinho dialoga com obras do artista, em exposição no Itaú Cultural

Helena Katz, O Estado de S.Paulo

04 de maio de 2011 | 00h00

Diálogo entre linguagens artísticas é sempre delicado. A tarefa de fazer duas materialidades diferentes entrarem em alguma forma de sintonia não é muito simples. Como se traduz o que está em tela e tinta na forma de som? Ou o que está em palavras no mármore de uma escultura? Quando, de um lado, está a dança e, do outro, as artes visuais, a questão do movimento é a que primeiro aparece, como fica claro no bom exercício que acaba de ser realizado entre três trabalhos de dança e a exposição Sob o Peso dos Meus Amores, que reúne cerca de 300 obras de Leonilson (1957-1993).

Dos três espetáculos apresentados, dois foram criados por Marcos Sobrinho, sergipano que vive em São Paulo desde 1998: El Puerto (2006), que nasceu do conto Lázaro, de Hilda Hilst (1930- 2004), e acabou como uma "reação criativa" (diz o programa) à última instalação de Leonilson na Capela do Morumbi, em 1993, remontada em março deste ano; e Dedicate (2010), obra que põe Leonilson para conversar com Arthur Bispo do Rosário (1909 ou 1911-1989). O terceiro, O Tempo da Paixão ou o Desejo É um Lago Azul, vem de Fortaleza, com a Cia de Arte Andanças.

El Puerto e Dedicate fazem parte da trilogia que Marcos Sobrinho criou em torno da arte de Leonilson, e que inclui O Ilha (2007). O interesse básico de Sobrinho é a exploração do que chama de "palavras-imagens". Seu percurso tem sido pautado pela exploração de uma possível articulação entre dança, literatura, música, vídeo, poesia e artes visuais. Seu El Puerto serve bem para indicar que o corpo faz o papel de conector das linguagens. A qualidade da sua movimentação não é explorada como o item principal, mas como um dentre outros elementos necessários para compor uma cena de pluralidades. Esse estado de equivalência com que trata tudo o que convoca para suas obras parece ser um canal de sintonia fina com a obra de Leonilson - ele também um artista colecionador de diferentes formas de dizer.

Esse sombrio El Puerto tem uma rarefação que vai desfazendo aquilo que utiliza, como se fosse desfiando até a transparência a música, a cenografia, o figurino e a iluminação, reduzindo tudo a rastros bem ralos, pelos quais não se refaz um caminho de volta. Um tipo de porto do qual só se parte, nunca se chega. Um jeito curioso de fazer pensar sobre a morte - o tema que ronda a trilogia de Marcos Sobrinho.

Na obra homônima de Leonilson estão bordadas, uma abaixo da outra, em tecido de listras verdes claras emolduradas em um laranja solar, as seguintes informações: Leo (nome), 35 (idade), 60 (peso) 179 (altura) e as palavras El Puerto. Além de bordadas, cada qual está "cercada" por um alinhavo, que ao mesmo tempo que delimita cada uma delas em um espaço exclusivo, as liga nessa mesma forma de circunscrevê-las. O que separa, também junta. Talvez seja essa a maneira de se entender que as traduções entre linguagens reduzem-se às possibilidades de um juntar que separa/um separar que junta.

O contraponto de tudo isso está no que Andréa Bardawil e a Cia. de Arte Andanças realizaram em O Tempo da Paixão ou o Desejo É Um Lago Azul. Nesse caso, o que move não é especificamente Leonilson e sua obra, mas um desejo de celebrar a intensidade da vida nascido da impressão deixada por sua obra. Ambientada no espaço expositivo concebido com muita sensibilidade por Valdy Lopes Jr., que "costurou" com maestria uma "pele" de madeira no ambiente, essa dança lá se instalou sem justificar artisticamente a sua inserção.

A iniciativa de apresentar essas três criações é louvável, pois não somente estende o alcance da própria exposição, como comunica ao público que as contaminações entre as artes é tão inevitável quanto desejável.

SOB O PESO DOS MEUS AMORES

Itaú Cultural. Av. Paulista, 149, tel. 2168-1776. 9 h/20 h (sáb. e dom., 11 h/20 h). Grátis. Até 29/5.

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