Leonardo Soares
Leonardo Soares

Nos muros de Berlim

Os polêmicos pichadores das últimas Bienais de São Paulo devem participar de mostra na Alemanha no próximo ano

Camila Molina, O Estado de S.Paulo

04 de setembro de 2011 | 00h00

"Se você for analisar, o que tem de novo, puro e verdadeiro na arte contemporânea? Só a pichação. O resto é palhaçada, só performance", diz Djan Ivson, de 27 anos. Orgulhoso por fazer parte do grupo de pichadores que "já engoliu duas Bienais de São Paulo" (as de 2008 e de 2010), ele e seu amigo Rafael "Pixobomb", encontram a reportagem do Estado no Largo do Paiçandu, no centro da cidade, para falar sobre uma novidade: estão cotados a participar da próxima Berlin Biennale, em 2012. A lista dos participantes do evento só será anunciada daqui a alguns meses, mas a curadora assistente da mostra, Joanna Warsza, esteve em São Paulo em março e fez uma grande entrevista com os pichadores brasileiros. A conversa da "reunião de quatro horas, com três tradutores" vai ser publicada no catálogo da 7.ª Bienal de Berlim. "É uma conquista do nosso movimento", diz Djan.

Em outubro de 2008, ele estava no grupo que pichou o segundo andar do pavilhão da Bienal de São Paulo, causando tumulto naquela "Bienal do Vazio" e a prisão da jovem Caroline Pivetta da Mota. No ano passado, ainda, o pichador, da gangue "Cripta", invadiu a instalação do artista Nuno Ramos na 29.ª Bienal e escreveu com spray a frase incompleta "Liberte os urubu", criando mais rebuliço. "As intervenções foram demostração de potência e eles (da Bienal) mostraram que não estão preparados para a discussão sobre arte e política. Somos subversivos, não temos apego à nossa obra", defende Djan. "Nossa pegada é mais frenética, o rock do Diabo", diz Rafael. "Pichação é uma busca existencial daquela parcela de jovens da periferia que escolheu não ficar no anonimato", continua Djan.

Além das pichações nas duas Bienais, os amigos também estiveram envolvidos em dois episódios anteriores de infração na Faculdade de Belas-Artes - na qual "Pixobomb" era aluno e foi expulso - e na galeria Choque Cultural. Se forem definitivamente confirmados para participar do evento alemão, que tem curadoria do conhecido artista e diretor polonês Artur Zmijewski, cinco "pixadores" (como são identificados por Joanna) do grupo levarão consigo apenas tinta para pichar os muros de Berlim. "O Artur disse que queria que a gente passasse a nossa mensagem para a cidade. Não vai ter nada autorizado pra gente pichar, essa bienal não tem nada de obra física, ela é conceitual. E nossa mensagem na cidade, sem babar, vai ser nas ruas", conta Djan.

Zmijewski participou da 29.ª Bienal de São Paulo, com curadoria Moacir dos Anjos e Agnaldo Farias, assim como Djan e seus colegas estavam na edição da mostra como artistas convidados para representar, de forma genérica, a "Pixação São Paulo" - e não grafite - por meio de vídeos e fotografias de suas ações na cidade. Mas Djan, com a intervenção na obra de Nuno Ramos (apagada logo em seguida), deu um passo a mais na participação do grupo na exposição. "Mesmo a gente estando incluído no evento, credenciado, isso não tirou a nossa autonomia de pichar lá."

A interlocução do grupo com os curadores da Bienal de Berlim tem sido feita pelo sociólogo Sérgio Franco. "Agora eles estão sendo levados a sério", afirma Franco, que ofereceu sua casa para a entrevista entre Joanna e os meninos. O sociólogo e consultor da Unesco, ainda, tem a carta de 16 de agosto assinada por Gabriele Horn, diretora da Berlin Biennale, na qual está o convite endereçado a Caroline Pivetta para integrar a mostra.

Atualmente, a maior preocupação de Djan, Rafael e de seus colegas é a audiência marcada para o próximo dia 15, em Brasília, na qual será decidido o destino de Caroline - ou Carol, como a chamam. Em 2009, ela foi condenada a quatro anos de prisão e a defesa espera usar a carta/convite da Berlin Biennale como argumento em seu favor. "Cuidado, cuidado com danos morais", diz Rafael "Pixobomb", referindo-se à futura ação que ele e Djan querem mover contra a Fundação Bienal de São Paulo pelas agressões que sofreram nos dias das duas pichações na instituição.

7ª Berlin Biennale

A próxima edição do evento alemão de arte contemporânea, com curadoria do artista polonês Artur Zmijewski, está marcada para ocorrer entre 27 de abril e 1º de julho de 2012

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