NEWTON MENEZES/FUTURA PRESS
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Nós, jurua

São Paulo tem duas comunidades guarani: Terra Indígena Jaraguá e Tenondé Porã

Marcelo Rubens Paiva, ESPECIAL PARA O ESTADO

02 de janeiro de 2022 | 05h00

São Paulo foi a aldeia Inhapuambuçu. São Paulo foi tupiniquim. Foi Piratininga. Tem tupi-guarani em placas de ruas, parques, praças. Não os têm como donos.

A cidade que se anuncia como capital da diversidade tem duas comunidades guarani: Terra Indígena Jaraguá e Tenondé Porã, áreas reconhecidas no Plano Diretor desde 2015. Reconhecemos o guarani mbyá como idioma cooficial do município. 

A aprovação do Projeto de Lei do Cinturão Verde Guarani (181/2016) pode mudar a dívida histórica. A política municipal para fortalecimento ambiental, cultural e social de Terras Indígenas passou por unanimidade na primeira votação na Câmara Municipal. 

Em Jaraguá, reflorestam cambuci, pitanga, araucária, palmito, plantam 50 tipos de batata doce (jety), 16 de milho (avaxi), 14 de mandioca (mandi’o), 10 de feijão (kumandi), 11 de abóbora (andaí) e criam abelhas nativas sem ferrão (borá, jataí, tubuna).

No passado, suas aldeias costumavam ter seis casas com 400 almas. Eram pequenas e duravam quatro anos, até fim da caça ou desgaste do solo. O chefe escolheria a nova aldeia. Ele ainda hoje é nomeado pela oratória. É o guardião do que foi estabelecido no passado. 

Além dos chefes ou pajés, há outros líderes: caraíbas são videntes ambulantes, que percorrem aldeias com mensagens proféticas; xamãs analisam sonhos e doenças. Numa guerra, o chefe preparava os guerreiros, os xamãs determinam a data, os caraíbas exaltavam o ideal. 

A guerra preservava a memória do grupo, o futuro, e fortalecia a unidade. Não eram para conquistar territórios ou bens. Era vingança. Portugueses e franceses perceberam a birra entre tupiniquins e tupinambás. Foi a desgraça. São Paulo foi construída sobre ossos, sangue e ruínas de civilizações milenares. Guerras, escravidão, sarampo e varíola os exterminaram. 

Em 1560, São Paulo virou vila. Os jesuítas do Colégio São Paulo serviam de intermediários na contratação de mão de obra indígena. Missionários tiravam indígenas de suas terras para serem ocupadas por colonos. Desestruturaram sua cultura. 

Tibiriçá foi o primeiro grande líder a fazer alianças, ser batizado e cair no conto do jurua, o homem europeu. Os portugueses de caraíba viraram peró (amargos). A proposta civilizatória cristã virou projeto de morte.

Entraram os Bandeirantes para trazê-los à força para fazendas e ocupações. Não estavam à procura de pedras preciosas e ouro. A escravidão indígena moldou a economia paulista. No Pátio do Colégio, símbolo da fundação da cidade, a solução final foi iniciada. Nossa história precisa ser revisada. 

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