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lustração de Cecília Esteves/Divulgação
lustração de Cecília Esteves/Divulgação

Nos infantis, diálogo herança-invenção

Ana Maria Machado é uma escritora que cruza a cena da literatura brasileira contemporânea iluminando nosso sistema literário. O conceito de sistema vem de Antonio Candido: literatura não se faz nem de inspirados indivíduos favorecidos pelas musas, nem de textos inéditos, desprovidos de leitores. Literatura é fruto de um complexo sistema que reúne autores, obras e leitores.

Marisa Lajolo,

04 de maio de 2012 | 22h49

Essa concepção de literatura como uma certa prática social permite uma visão mais integrada da polifônica obra de Ana.

Estreando nas letras infantis na revista Recreio (1969) e em livros na década de 1970, a obra de Ana vem incorporando, ao longo dos mais de 30 anos de sua produção, marcas de notável excelência.

Os primeiros livros chamavam a atenção de seus leitores e da crítica pelo diálogo rigoroso com a época de sua publicação: os pesados dias em que se procurava reconstruir no Brasil a democracia dissolvida pelos anos de ditadura militar. De Olho nas Penas e Bisa Bia Bisabel são histórias com este recorte. 

Este compromisso com a dignidade do cidadão e da pessoa atravessa toda a obra da autora. Seu último romance, Infâmia, é um magnífico painel da vida brasileira contemporânea. Mas ao longo do tempo, a voz da escritora adquire novas inflexões. Uma destas é o mergulho inventivo na herança literária. 

Retomando a noção de sistema literário de Antonio Candido, um componente que o crítico aponta como fecundando o circuito de autores, obras e públicos é a tradição literária. Na sutilíssima dialética entre o herdado e o inventado, equilibra-se o balanço entre a tradição e a ruptura.

É nesse veio que as obras infantis mais recentes de Ana se inscrevem. A simplicidade da denominação reconto, que na literatura infantil nomeia coleções e categoriza prêmios, retoma um tipo de livro que está nas origens da literatura infantil do Ocidente: as fábulas de Esopo reescritas por La Fontaine, os contos populares recontados primeiro por Perrault e depois pelos irmão Grimm, as aventuras de Telêmaco que Fenelon vai buscar na Odisseia.

 É nessa rica linhagem que se inscrevem alguns dos últimos livros de Ana: Histórias Greco-Romanas e Histórias Árabes (FTD) e, pela mesma editora, a história natalina que recebe o singelo nome Uma Noite Sem Igual, na qual a carga confessional do tema se dissolve na dicção infantil do pastorzinho protagonista.

Também reescreve para leitores de hoje uma história ancestral no recente lançamento A Nau Catarineta (Editora Moderna), que já inspirou reescrituras a Almeida Garrett e Ariano Suassuna.

Ao misturar prosa e poesia, a versão de Ana, acompanhada das belas ilustrações de Igor Machado e Meton Joffily, orquestra o tão necessário diálogo entre nós - habitantes do século 21 - e os que nos precederam, no longínquo século 16, tempo da viagem de Jorge de Albuquerque Coelho, que, dizem alguns pesquisadores, teria inspirado a história/lenda do capitão de uma nau colhida por terrível calmaria. 

Esse livro de Ana reconta a história, fazendo dialogar os referenciais clássicos de versões mais antigas com os de nossos dias. Inscrito numa coleção sugestivamente intitulada Sete Mares, põe em evidência a presença de paisagens marinhas na obra da escritora, presença que se manifesta com toda beleza e força em seu (único) livro de poemas, Sinais do Mar (Cosac Naify).

Nos 19 poemas do livro, publicado em 2009 - muitos, como A Nau Catarineta, em diálogo com a melhor poesia em língua portuguesa -, os leitores navegam pelo universo de corais, estrelas e espuma dos mares que banham todas as páginas, ao longo das quais a leitura se transforma em descoberta, veleiros, mar sem fim.

* MARISA LAJOLO É PROFESSORA DE LITERATURA DA UNICAMP E UNIVERSIDADE MACKENZIE

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