Nos extremos da miséria moral

Em Educação Siberiana, Nicolai Lilin faz relato sobre uma comunidade da Moldávia baseado em experiência própria

Boris Schnaiderman, O Estado de S.Paulo

08 de maio de 2010 | 00h00

O livro Educação Siberiana, de Nicolai Lilin, nos põe em contato com um escritor vigoroso e um mundo que nos é completamente estranho. Esta autobiografia foi escrita evidentemente em russo e, depois, passada para o italiano, de onde Eliana Aguiar a traduziu para o português. Os poucos anos em que o autor reside na Itália não teriam bastado, é claro, para que ele dominasse a língua do país a ponto de escrever este livro.

Aliás, em algumas passagens, sobraram marcas destas peregrinações do texto. Por exemplo, em alguns nomes próprios, aparece um "E" com trema, que em russo corresponde ao som "ió", mas não quer dizer nada, tanto em italiano como em português. Isso, porém, não prejudica a leitura, e o vigor do texto se mantém depois dessas múltiplas andanças.

O livro narra as peripécias na vida de um jovem da comunidade dos urcas que, no regime stalinista, foi transferida à força para a região da Sinístria e, depois de uma guerra feroz, atualmente faz parte da República da Moldávia. Ali, sua família ficou residindo na cidade de Bender.

Desde o início, o leitor se defronta com uma situação completamente paradoxal. Os urcas, que são apresentados como delinquentes e realmente praticam atos que só podemos designar como delitos, têm ao mesmo tempo um código de comportamento muito rigoroso, suscitando estranheza nas populações em volta. E eles por sua vez estranham o modo de ser de seus vizinhos.

Profundamente religiosos, respeitam com rigor as normas da Igreja russa, menos no que diz respeito ao comportamento delinquencial. No entanto, não parecem ver nisso nenhuma contradição e são muito cônscios de tudo o que se liga às tradições.

A situação chega a extremos surpreendentes. Assim, um criminoso que matou muitos policiais colecionava os distintivos destes e afixava-os "em cima de uma cômoda, sob os ícones".

Certos fatos narrados no livro parecem muito estranhos, do ponto de vista de nossa escala de valores, caso também de expressões como: "criminoso honesto", "um homem bom, criminoso", "uma vida criminal honesta e digna" e outras que tais.

Muito apegados à vida familiar, eles viam com profunda repulsa as práticas homossexuais. Assim, quando o jovem Nicolai é preso, o comportamento de seus companheiros lhe causa grande mal-estar. Aliás, a descrição da vida nas prisões soviéticas traz para o livro um toque sinistro, os extremos de miséria moral a que os presos eram submetidos chegavam a proporções dantescas.

Uma parte considerável do volume é dedicada pelo autor a seu convívio com os doentes mentais, pelos quais expressa profundo respeito e carinho. Aliás, na tradição dos urcas eles eram vistos como mensageiros de Deus. "Queridos por Deus" era a designação que lhes davam.

Em Bender, os urcas eram cercados por essas criaturas porque, a partir de meados da década de 1950, o governo soviético proibiu que os doentes mentais vivessem com suas famílias, e estas muitas vezes procuravam se estabelecer em territórios onde o controle não era muito rigoroso, certamente o caso daquela região.

O convívio do autor com esta situação resultou numa das passagens mais tocantes do livro, o capítulo Bóris, o Maquinista. Tinha esta alcunha porque passava horas encarapitado numa locomotiva desativada, executando os movimentos de um maquinista. Aliás, os maquinistas da estrada gostavam dele e deram-lhe de presente um verdadeiro chapéu daquela profissão, com o emblema da ferrovia, e que ele envergava com orgulho.

No entanto, em 1992, após o esfacelamento da União Soviética, a região viveu um período confuso, ocupada ora pelos russos, ora pelos ucranianos ou pelos moldavos. E o jovem "maquinista" acabou levando um tiro pelas costas.

Outra parte importante do livro é dedicada à relação de amizade do narrador com Ksiucha, também retardada mental, muito bonita e com feições tipicamente russas. Há um toque lírico forte na descrição da jovem, "com seu passo um pouco tímido e, ao mesmo tempo, forte e decidido", como o de um animal selvagem percorrendo o bosque.

Nicolai e demais jovens da mesma idade e daquele meio criminal tinham por Ksiucha um sentimento bom e evitavam tocá-la quando entrava no estado de alheamento típico dos autistas. No entanto, os de fora daquela comunidade não tinham o mesmo cuidado, e um dia Ksiucha apareceu completamente transtornada, pois alguém a violentara. Nicolai e seus amigos não sossegaram enquanto não se vingaram cruelmente do ofensor e de seus companheiros. Aliás, os mais velhos tudo fizeram para ajudá-los nesta empreitada, e parece surpreendente a facilidade com que apareceram milhares de dólares para a efetivação da vingança, que, segundo parece, não teve maiores consequências.

Antes de se transferir para a Itália, o autor ainda lutou na Chechênia, e aparecem então cenas de extrema ferocidade.

Todos estes acontecimentos não se narram numa sequência cronológica linear, há lapsos consideráveis, mas Nicolai conduz a narrativa com toda a segurança e nos dá um relato intenso daquele período terrível.

BORIS SCHNAIDERMAN, PROFESSOR EMÉRITO DA USP, É TRADUTOR DE TOLSTOI E DOSTOIEVSKI, ENTRE OUTROS AUTORES RUSSOS

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