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Nos estúdios com Sinatra

Três programas de TV mostram que Frank Sinatra era mais do que um grande artista dos palcos

João Marcos Coelho, O Estado de S.Paulo

23 Abril 2011 | 00h00

ESPECIAL PARA O ESTADO

Um violino que virou violoncelo. Assim, Sammy Cahn definiu a voz de Sinatra entre os anos 40 e 50. Ele sabia do que falava. Cahn é o letrista de Three Coins in the Fountain, música lançada pelo cantor em 1954 que ganhou Oscar de melhor canção pelo filme de igual título. A emissão cristalina dos agudos, o refinamento até então inédito na interpretação da música popular na parceria com Tommy Dorsey, a construção de cada frase musical, a afinação impecável e a capacidade de transmitir o significado de cada verso da letra - estes eram os atributos do violino que encorpou, abaixou seu timbre e tessitura nos anos 50, depois do turbulento casamento com a diva do cinema Ava Gardner. Nos anos 50, explorou melhor os graves, compensando os agudos que não mais atingia, e carregou ainda mais na expressão dos sentimentos. Se nos anos 40 promovera a alforria dos crooners, na década seguinte foi o primeiro a olhar para as grandes canções do passado, construindo "the great american songbook" com gemas de Cole Porter, Rodgers and Hart, Gershwin e Jerome Kern, entre outros.

O DVD Sinatra - A Man and His Music - Trilogy, com três shows de 50 minutos cada para a televisão norte-americana de 1965-67, não é inédito. Mas recebeu um banho de loja geral - o vídeo foi restaurado e o áudio remasterizado. Constitui, portanto, o melhor raio X audiovisual do cantor. Na casa dos 50 anos, ainda possuía intactas suas principais qualidades vocais e tinha controle absoluto de tudo o que fazia.

E que qualidades são essas? Assista, por exemplo, ao clássico Ol" Man River, do musical Show Boat, de Jerome Kern, no terceiro DVD. Antes de cantar, ele explica. "Há canções que permanecem no tempo; nós as chamamos standards; mas há as que transcendem esta condição; a estas, chamamos clássicos." Sua interpretação, só com piano, é antológica. Um arco emocional como o de uma Billie Holiday; dicção impecável, onde cada sílaba é ouvida na plenitude. E a "respiração circular", técnica dificílima que poucos músicos de sopro conseguem fazer e Tommy Dorsey aplicava em seu trombone: consiste em aspirar pelo nariz e expirar o ar pela boca, construindo assim frases longas, sem quebra da respiração.

O pesquisador Will Friedwald, autor do único livro que se debruça basicamente sobre sua voz e sua arte, e não sobre sua turbulenta vida pessoal (Sinatra - The Song Is You, 1997), diz que Sinatra surgiu "The Singer" dos anos 40 virou "The Swinger" na década seguinte, quando resgatou o "american songbook" e trouxe para junto de si big bands como as de Count Basie e Duke Ellington. Mas seu preferido foi o arranjador Nelson Riddle que participa dos três DVDs.

O primeiro é o mais elaborado. Em Come Fly With Me, uma sequência de falhadas e cômicas tentativas do homem de voar, precede a entrada do cantor. O segundo derrapa feio com a horrível participação de sua filha Nancy. E o terceiro DVD é o mais emocionante. E não só pela irretocável e elegante participação de Tom Jobim que conhecemos bem (eles tinham acabado de gravar Francis Albert Sinatra and Antonio Carlos Jobim).

Seu set bem mais extenso com Ella Fitzgerald (com exatos 50 anos naqueles idos de 1967) é daquelas coisas pra se guardar na memória por muitos anos. Se duvidar, ouça Ella esculpindo o standard Body and Soul, de 1930; ou o divertido pot-pourri dessa dupla genial, que também brinca com Stompin" at the Savoy (de 1934). É um toma-lá-dá-cá de tirar o fôlego.

É extraordinário compartilhar com The Voice alguns de seus melhores momentos. O violino que virou cello parece uísque não de 18, mas de uns 200 anos, tamanha a carga emocional de sua voz. Wilfrid Sheed, escritor apaixonado pela canção popular, escreveu que àquela altura ele já sabia "segurar uma nota, o licor e guardar rancor".

Tamanho refinamento da canção é coisa rara. Acontece de século em século. Por isso, sempre que se decepcionar com bagulhos modernosos, retorne a este DVD. É a prova de que existe vida inteligente na música popular.

A MAN AND HIS MUSIC

Artista: Frank Sinatra

Gravadora: Universal

Preço: R$ 45 (em média)

POR PARTES

Cenas do DVD que revelam o estilo sinatriano

1. Aos 13 minutos e 13 segundos da primeira parte, Sinatra conta o que William Holden lhe disse: "Você tem que gravar isso". E cantarola Love Is a Many Splendored Thing. Sinatra responde: "Bill, é a pior coisa que já ouvi".

2. O segundo programa mostra que Frank Sinatra cede à moda do órgão Hammond funky para gravar You"re Nobody" till Somebody Loves You. Mas não dispensa a dúzia de violinos nem a big band completa.

3.A terceira parte revela a importância da tríade Irvin Berlin-Cole Porter-Tom Jobim, em três gemas encadeadas: Change Partners, I Concentrate on You e The Girl from Ipanema.

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