Nós em praga, pela arte popular

Brasil divulga o que deverá mostrar no evento de 'design espacial' em 2011

Maria Eugênia de Menezes, O Estado de S.Paulo

06 de julho de 2010 | 00h00

Figurinos radicais. Peça apresentada na Quadrienal de Praga reproduz engrenagens de relógio

 

Funciona quase como uma Copa do Mundo. Acontece a cada quatro anos. Reúne delegações de mais de 40 países na disputa pelo posto de campeã. A diferença aqui é o alvo da competição, que passa longe dos gramados, e recai sobre o teatro. Trata-se da Quadrienal de Praga, a mais importante mostra internacional de cenários, figurinos e tecnologia para as artes cênicas.

A próxima edição está marcada para junho de 2011 e o Brasil divulga agora os temas de suas exibições na capital da República Checa. A "brasilidade" e as representações da cultura popular devem ser objeto da mostra nacional, revela o curador da seção brasileira, o ator Antonio Grassi, que enviou a proposta para a Quadrienal no último dia 30. "Optamos por uma temática mais aberta, que se volte para a expressão do homem brasileiro e de nosso imaginário popular.Algo que encontramos presente na obra de certos autores, como Ariano Suassuna e Newton Moreno", diz Grassi, que também assinou a curadoria em 2007, quando os nomes de Nelson Rodrigues e Oscar Niemeyer foram selecionados para balizar as nossas exposições.

Além da seleção de cenografia de cada um dos países, o evento reúne tradicionalmente outros dois segmentos: uma mostra de escolas e outra dedicada à arquitetura teatral. No segmento arquitetônico, as atenções vão se dividir entre dois marcos da cena paulistana: a sede do Oficina e as intervenções do Teatro da Vertigem.

Recentemente tombado como patrimônio histórico pelo Iphan, o projeto do teatro de Lina Bo Bardi deve ser mostrado em sua capacidade de interferir e modificar o seu entorno, no bairro da Bela Vista.

Conhecido por suas montagens em espaços pouco convencionais, o Vertigem vai revelar as ocupações que já fez em um presídio (Apocalipse 1,11), em um hospital (O Livro de Jó) e em um barco no rio Tietê (BR3). "Aparentemente, Vertigem e Oficina seguem em caminhos opostos, mas ambos conseguem atuar diretamente na cidade e no planejamento urbano", analisa Grassi.

Um dado novo é a forma de participação do País nesta edição. Toda a representação brasileira sempre foi organizada diretamente pelo governo. Desta vez, no entanto, o Brasil entra como parte integrante de uma cooperativa de artistas, a Oistat (Organização Internacional de Cenógrafos, Técnicos e Arquitetos Teatrais). "Existe uma coincidência meio trágica que é o fato de a Quadrienal coincidir sempre com o primeiro ano de um novo governo", explica Grassi. "Então, a participação do Brasil via uma entidade não-governamental cria uma política que independe do Ministério e garante certa estabilidade."

nPara a mostra de 2011 também está prevista uma nova modalidade, dedicada a Figurinos Radicais. "A intenção é valorizar o uso de diferentes materiais e mostrar peças ousadas, provocativas", sugere Rosane Muniz, que coordenou o projeto.

Um edital recebeu a inscrição de 97 propostas de todo o País, e escolheu cinco para enviar a Praga. Os figurinos selecionados foram confeccionados a partir de elementos pouco usuais, como metais, garrafas plásticas, papéis e até gelo. "Recebemos muitas sugestões boas. Tanto que, algumas das que não foram escolhidas, ainda devem ser aproveitadas na mostra nacional", diz ela.

A Quadrienal tem uma ligação estreita com o Brasil. Nasceu há mais de 50 anos sob influência da Bienal de Artes de São Paulo, Quando foi criada, em 1957, a grande mostra paulistana tinha um espaço dedicado à cenografia teatral e foi o sucesso dos cenógrafos checos por aqui - nomes como Josef Svoboda -, o que motivou o estabelecimento da mostra competitiva de Praga.

Em sua 12.ª edição, o evento chega com algumas novidades e adaptações. Pela primeira vez, a organização resolveu abrir o escopo da mostra, aproximando de forma contundente as questões da cenografia das artes visuais e da performance.

Na esteira desse movimento, a Quadrienal mudou de nome e deixa de ser Exibição de Cenografia e Arquitetura Teatral para se chamar Quadrienal de Espaço e Design Cênico.

Outro dado que deve dar feições diferentes à mostra foi o incêndio do Palácio Industrial, espaço onde tradicionalmente as delegações dos países eram exibidas. Com a destruição da área, as exposições agora serão pulverizadas e devem ocupar várias galerias e prédios históricos espalhados pela cidade.

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