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Nós e a estagiária

Um longo ensaio escrito em primeira pessoa consome o público nos EUA há uma semana. A autora é Monica Lewinsky, a ex-estagiária de Bill Clinton. Seu caso com o político mais querido dos norte-americanos hoje levou ao segundo processo de impeachment da história do país, em 1998.

Lúcia Guimarães, O Estado de S.Paulo

12 de maio de 2014 | 02h08

Depois de uma década de silêncio, incapaz de conseguir emprego ou namorar, ela resolveu forçar uma conversa pública sobre o significado do episódio que protagonizou. Um episódio que revela mais sobre a hipocrisia da sociedade norte-americana do que sobre a insensatez da jovem que tinha 23 anos quando se atirou a uma ligação romântica e sexual com o presidente de 51. Não é preciso ter a menor simpatia por esta mulher de 40 anos, congelada no tempo, para sentir uma perturbação profunda pela violação de sua privacidade.

Nas 4.300 palavras publicadas pela revista Vanity Fair, Monica trata de sua infâmia, revisita a juventude e a relação íntima com o então homem mais poderoso do mundo. Reflete também sobre o tratamento que recebeu nas mãos do promotor Ken Starr, do governo e da mídia. "Sim, com certeza meu chefe se aproveitou de mim", lembra a ex-estagiária, mas deixa claro que foi uma relação consensual. "O abuso que eu sofri veio depois", escreve. "Quando virei bode expiatório para proteger sua posição no poder."

Monica Lewinsky foi interrogada pelo FBI, teve detalhes de seu desabafos de garota apaixonada gravados secretamente por uma amiga e foi tratada com um escárnio que se tornaria rotina com o advento da mídia social. Lembra que sua mãe não saía de perto dela, temendo que a depressão e a vergonha acabassem em tragédia, como hoje é comum entre vítimas de bullying.

No começo do ano, uma carta de Hillary Clinton à sua melhor amiga, já morta, foi tornada pública. A ex-secretária de Estado, que dá todos os sinais de uma candidatura a primeira mulher presidente dos Estados Unidos, se atribui na carta parte da culpa pelo caso de Bill e Monica. Escreve que não deu atenção o bastante ao marido e define Monica como uma "narcisista biruta".

Em seu artigo, Monica reage com lucidez. Entende a indignação de uma mulher com a amante de seu marido. "Mas acho o impulso de culpar 'A Mulher' - não só eu, como ela mesma - preocupante", dispara. À medida que o artigo de Monica circulou - em 1998, o ano do escândalo, ainda não se falava em conteúdo viral - algo curioso se passou na mídia norte-americana. Jornalistas, escritores, políticos, artistas e comediantes começaram uma fascinante dança de remorso público.

O afiado e impiedoso comediante Bill Maher, cujo programa é exibido no Brasil pela HBO, disse no ar, na sexta-feira: "Eu fiquei emocionado. Tenho de confessar, eu me senti literalmente culpado". Maher, como seus colegas de profissão no final da década de 1990, desfrutaram de uma fartura de material para piadas sobre vestidos manchados de esperma, sexo oral e charutos. E, como seus colegas, ele costuma aplicar a mesma artilharia cômica a outros personagens que caem na malha do ridículo público. Mas, desta vez, foi forçado ao confronto com o resultado.

Mônica Lewinsky ofereceu aos americanos um momento de acareação arqueológica: olhem para mim aos 40 anos; eu sou o produto de um ataque em todas as frentes, no nascimento da era digital; o que eu fiz, milhões de jovens fazem com homens mais velhos, casados e poderosos, mas não com um presidente; elas não têm a vida degradada por um momento de estupidez e ingenuidade; quando o mundo define alguém na juventude não há como comparar a imagem pública a um senso de identidade privada ainda frágil.

O que Monica não parece compreender é que sua escolha profissional, depois de cursar a London School of Economics, a tornou radiativa para empregadores potenciais. Não há surpresa no fato de que tentou e não conseguiu arranjar trabalho na área de branding, que requer contato com a mídia para promover marcas.

A ex-editora da Newsweek e do site The Daily Beast Tina Brown, uma mulher que entende de sensacionalismo com verniz de cultura, bem lembrou aquele momento de inocência em 1998. Fatos que nos provocavam asco então, as gravações ilegais das conversas de Monica, o blog sórdido de Matt Drudge e o vexame sexual em escala planetária iam se tornar pilares da mídia em pouco anos.

A colunista do New York Times Maureen Dowd, inicialmente crítica da Casa Branca por seus ataques à estagiária, ganhou um Prêmio Pulitzer pelo ano em que se divertiu ridicularizando Monica Lewinsky, de seu privilegiado posto na página de opinião do jornal. Dowd decretou que Monica era rechonchuda demais para ser enturmada na escola do segundo grau. Depois de chamá-la de burra ("privada de cérebro"), a colunista resolveu que a estagiária era a predadora, como a personagem de Glenn Close no filme Atração Fatal.

Monica Lewinsky tenta escapar de sua vitrine, imobilizada como o espécime da coleção de insetos de um museu de história natural. Mas não foi apenas o promotor fanático, a amiga traidora ou a tropa de choque dos Clinton que a aprisionou. Nós, a mídia, fomos cúmplices da sua sentença

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