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Nos detalhes, German Lorca evoca a São Paulo em construção

Livro 'A São Paulo de German Lorca' traz registros de uma metrópole em construção

Simonetta Persichetti - Especial para o Estado, O Estado de S. Paulo

18 Setembro 2013 | 21h05

É uma São Paulo desconhecida para muitos, uma cidade que se desvela nas sombras, nos personagens, no cotidiano. É a São Paulo modernista de German Lorca. Uma cidade que ele começou a fotografar em 1947 e não parou até hoje. É uma São Paulo particular. Parte dessas imagens foram reunidas em 232 páginas no livro A São Paulo de German Lorca, que a Imprensa Oficial e a Casa da Imagem lançam amanhã, a partir das 17h30, na Biblioteca Mario de Andrade. Um ensaio fotográfico que vai de 1947 a algumas imagens de 2005.

Fotografar as cidades que se formam à nossa frente sempre foi fascinante para a maior parte dos fotógrafos desde o século 19. Podemos lembrar dos registros de Militão Augusto de Azevedo, ou Guilherme Gaensly no século retrasado, mas também de Carlos Moreira e Cristiano Mascaro na atualidade. São vilas, aldeias que aos poucos iam sendo construídas trazendo cheiros, barulhos, vida. A cidade como um cenário que se constrói à frente de quem a recria em uma fotografia.

Apesar de toda a efervescência que rodeava a vida urbana, são nos detalhes que as imagens de German Lorca se revelam. Como escreve o sociólogo José de Souza Martins, colunista do Estado, no prefácio do livro: “German Lorca nos põe diante da São Paulo da impaciência e da espera, num Congonhas surpreendentemente vazio, de quando muitos ali iam esperar, mas iam também apenas ver”.

A trajetória de Lorca é longa na fotografia. Iniciou no Foto Cine Clube Bandeirante, conhecido por trazer a modernidade para a fotografia, que até a metade dos anos 1940 permanecia presa a um academicismo pictórico. Foi lá que nomes como Thomaz Farkas, Marcel Giró e Geraldo de Barros iniciaram o experimentalismo, a quebrar fronteiras e trazer uma imagem que brincava o tempo todo com as vanguardas europeias, com o surrealismo, com as técnicas mais atuais. Não foi diferente com German Lorca, que traz para sua obra o contraluz, a cidade, a geometria que brinca com a metáfora, com as solarizações, com espelhos e com reflexos. Com o tempo, encaminhou-se para a publicidade e, até hoje, aos 91 anos, mantém o Estúdio Lorca, criado na década de 1950.

Seu olhar é atento e curioso. Coincidentemente, seu livro abre com uma manifestação popular em 1947, com populares incendiando um bonde contra o aumento de tarifas, ou de pessoas encostadas num muro lendo jornais em busca de emprego.

Foi o fotógrafo oficial do IV Centenário da cidade de São Paulo, em 1954, e, como tal, fez reportagens oficiais da cerimônia e da inauguração da Catedral da Sé. Lembra-nos ainda José de Souza Martins: “Lorca fotografou cada participante que subia a escadaria de acesso ao templo. Nas fotos que ali se vê, o oposto da foto do bonde incendiado no Brás. Da metade para baixo da praça imensa, o povo ordeiramente se alinha para ver aquilo que era de fato uma assembleia dos poderes da República”.

Divertido e irreverente, no mesmo ano o artista, por ocasião da inauguração do Parque Ibirapuera, fotografa uma bisavó que leva seu neto pela mão em direção à Oca. O caminho de barro parece uma viagem para o futuro.

É o mesmo olhar que o leva a registrar a São Paulo que cresce diante da janela do seu estúdio ou as vistas aéreas de uma cidade que começa a se apinhar de gente.

Em suas fotografias, a estética modernista onde brincadeiras estéticas, jogos de olhares e experimentações faziam parte do conceito fotográfico. Imagens de uma cidade que já se perdeu, ou pelo menos é difícil de achar.

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