Nos cinemas, histórias da Amazônia de Drauzio Varella

Luciano Cury se inspira em experiências do médico e filma Histórias do Rio Negro

Agencia Estado

07 de junho de 2012 | 03h38

Maravilhado com a beleza da Amazônia,o médico Drauzio Varella começou a coletar histórias que setransformariam em um livro, especialmente com as que ouviu naregião do Rio Negro. Em uma de suas viagens, acompanhado docineasta Luciano Cury, ele comentou sobre o projeto e Cury,também encantado com a exuberância amazônica, propôs arealização de um documentário. O resultado é Histórias do RioNegro, uma espécie de road movie aquático. São 83 minutos de boas histórias. Antes de apresentarbelezas naturais, Cury e Varella preferiram revelar o imaginárioda região por meio das vozes de seus habitantes. "Escolhemos 60bons contadores de histórias, dos quais 17 foram filmados",conta o diretor, que acabou selecionando 13 personagens. Otrabalho de pré-produção, aliás, foi útil também para testarequipamentos, uma vez que foram percorridos 1.100 km durante 20dias, entre a cidade de São Gabriel e a capital amazonense,Manaus. Um esforço recompensado. As narrativas são contadas comuma simplicidade cativante, provocando a imediata adesão doespectador. "São histórias que ainda hoje me cativam, poisrevelam um grande poder: o de não permitir separar a ficção darealidade", conta Varella, que atua como um bom entrevistador,permitindo que o foco se concentre no morador. "Conversei muitocom o Luciano para descobrirmos sempre o eixo da entrevista." Cury preferiu montar o documentário por assuntos e nãopor personagens. Assim, todos têm o que falar sobre a lenda docurupira, protetor das florestas que se vinga dos caçadoresdeixando pegadas falsas pela mata graças a seus pés invertidos.É nesse momento que se observa o ponto mais curioso dodocumentário: enquanto a maioria conta histórias variadas em quepresenciou a ação do curupira, apenas um nega a existência dafigura folclórica, justamente o índio tucano que, cético einstruído (apesar de ter aprendido português tardiamente,freqüentou a escola e fala com perfeição), nega a lenda.Dois mundos Em contrapartida, surge a figura de um seringueiro que,além de jurar ter visto um curupira, ainda se diz crente fiel deuma superstição, a de que faz mal comer comida requentada."Nosso objetivo foi mostrar como a realidade pode ser diferentedaquela imaginada pelas pessoas das grandes cidades", conta Cury que apostou ainda nos recursos de linguagem dos entrevistados."Como eles falam a verdade, a tradição oral se transforma naprincipal relíquia desse povo." Assim, além do índio civilizado e do seringueirosupersticioso, há a parteira que perdeu a conta do número decrianças que ajudou a trazer ao mundo, o ex-dono de umprostíbulo ambulante, o homem que assume a traição que sofreu damulher. Figuras que, de alguma maneira, não eram estranhas aDrauzio Varella - conhecido pelo trabalho que ainda dedica aospresidiários, ele percebe um ponto comum entre essas pessoas,privadas da liberdade, e aquelas amazonenses, que dispõem de umabsurdo espaço livre. "São dois mundos de contraste extremo, mas que convivemcom o mesmo tipo de problema", conta ele que, inicialmente,temeu participar do projeto - depois de acompanhar alguns diasde filmagem de "Carandiru", longa de Hector Babenco, inspiradoem sua obra, Varella ficou impressionado. "Parecia coisa delouco", disse ele, que logo se acalmou quando descobriu o estilotranqüilo de Cury trabalhar. "Não somos antropólogos ousociólogos, apenas nos interessamos em relatar um punhado dehistórias singelas", disse o diretor. Histórias do Rio Negro (86 min.) - Livre. Cotação: Bom

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