NOS CAMPOS DO ÓDIO Livro escancara o drama dos refugiados da Segunda Guerra

MARCOS GUTERMAN

O Estado de S.Paulo

23 Fevereiro 2013 | 02h10

Uma das imagens mais conhecidas da Segunda Guerra Mundial é o registro do beijo entre um marinheiro e uma enfermeira na Times Square, em Nova York, na festa que teve início após o anúncio de que os japoneses haviam se rendido, em agosto de 1945. A foto tornou-se o símbolo da felicidade pelo fim da maior conflagração já testemunhada pela humanidade, mas ela conta somente uma parte da história. A outra, que o historiador britânico Ben Shephard resolveu resgatar, é bem menos doce: ao inferno da guerra seguiu-se o purgatório dos refugiados e das pessoas deslocadas (PD, na fria linguagem oficial), milhões de pessoas arrancadas de suas casas, separadas de suas famílias, destituídas de sua condição humana e frequentemente negligenciadas pela história. São eles os personagens do chocante A Longa Estrada para Casa, livro publicado no Brasil pela Paz e Terra.

A massa formada por esses miseráveis chegava a 11,4 milhões de pessoas, para as quais a guerra não havia terminado. Ao contrário: uma parte considerável delas seria objeto de tensão entre as potências vencedoras. Muitas PDs não queriam voltar para a União Soviética ou para os territórios controlados por Moscou, por conta da repressão stalinista. Mas os Aliados ocidentais não tinham intenção de irritar o Kremlin, que queria seus súditos de volta - em muitos casos para acertar contas com eles.

O trabalho de Shephard tem o grande mérito de contornar a habitual narrativa romântica sobre os refugiados de guerra e sobre o esforço para socorrê-los, revelando o lado obscuro e muitas vezes constrangedor desse drama. Conforme mostram os documentos trazidos à luz pelo autor, os Aliados ocidentais se interessaram pela ajuda humanitária em primeiro lugar porque, de acordo com seus cálculos políticos, essa mobilização criaria um sistema de cooperação internacional ao qual a URSS seria obrigada a aderir, freando suas pretensões na Europa. Era uma visão instrumental do socorro aos refugiados, e não tardaria para que esse vício de origem se revelasse desastroso. Embora ainda estivesse fresca na memória a tragédia dos civis na Primeira Guerra, que não eram prioridade para nenhum governo, os diplomatas aliados consideravam o tema dos refugiados simplesmente enfadonho. Pela primeira vez, porém, ficou claro que não bastava distribuir sopa; era preciso ajudar as PDs a reconstruírem sua vida.

O sistema erigido para esse fim se mostrou ineficiente e extremamente corrupto. Shephard relata que na Itália, por exemplo, os campos de refugiados se degeneraram em meio à prostituição, atividades mafiosas e fome. Os refugiados russos, por sua vez, afogavam-se em toneis de vinho e vagavam pela Alemanha saqueando e aterrorizando a população. Nos acampamentos que abrigavam pessoas de diversas nacionalidades, as PDs sofriam de "complexo de libertação", uma soma de fome e desejo de vingança, tornando-se irascíveis e indispostas a colaborar com os administradores locais. O mundo idealizado da liberdade se chocava violentamente com a realidade de uma gente que havia visitado o inferno e estava à beira de um ataque de nervos. As PDs se consolavam por meio de sexo, bebida e violência. A situação era a tal ponto incontrolável que o marechal britânico Bernard Montgomery sugeriu que se abrisse fogo para interromper "os saques, estupros e assassinatos realizados por PDs".

Os sobreviventes dos campos de extermínio, sobretudo os judeus, foram descritos pelos seus libertadores como "animais", com feições de "criminosos". Os militares aliados não tinham nenhum traquejo para lidar com aqueles farrapos e não souberam ajudá-los a reconstruir o tecido social do qual foram arrancados. Shephard mostra que, por outro lado, vários judeus libertados do campo de Bergen-Belsen insistiram em lá permanecer, recusando-se a tirar seus uniformes listrados de prisioneiros, para salientar seu drama e reforçar a causa sionista.

E havia os alemães expulsos do Leste. Os milhões de súditos do finado Terceiro Reich formaram, no dizer de Shephard, uma "onda de miséria humana" que enfrentou toda sorte de vinganças pelo caminho, numa desgraça alemã sem paralelo desde a Idade Média. Havia a declarada intenção de deixar os alemães à própria sorte, para que soubessem o que padeceram as vítimas de Hitler. Eles foram assaltados e violentados por poloneses e russos em Berlim; na Checoslováquia, houve uma "orgia de violência"; na Polônia, soldados russos e poloneses revistavam até a vagina de PDs alemãs em busca de joias escondidas. Um general inglês defendeu que se deixasse os alemães passarem fome para que compreendessem "as consequências de uma guerra que eles causaram".

A história de Shephard descreve é, portanto, uma história de drama incalculável, mas também de imenso cinismo.

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