'Nós, artistas e ativistas'

Käthe Kollwitz fala sobre o trabalho do coletivo Guerrilla Girls no mundo

Camila Molina, O Estado de S.Paulo

11 de novembro de 2010 | 00h00

Para vir ao Brasil, as integrantes do coletivo Guerrilla Girls fazem uma pausa em seus novos projetos, como o filme feminista no qual elas visitarão escritórios de diretores de museus e de membros de seus conselhos "para lhes dizer uma coisa ou outra", como conta a guerrilheira Käthe Kollwitz. Ansiosa quanto à reação do público brasileiro às ações das artistas no Rio e em São Paulo, ela concedeu a seguinte entrevista ao Estado.

Vocês acreditam que haja um espaço real para discutir hoje o feminismo? Poderia comparar o ativismo feminista hoje e mais de duas décadas atrás, quando foi criado o grupo Guerrilla Girls?

Essa é uma ótima questão. Vamos nos lembrar que o conceito de direito das mulheres tem apenas 150 anos. Sempre foi dois passos para frente e um para trás, mas o feminismo está mudando a vida das mulheres no mundo - muito, muito devagar na maioria dos lugares e, significantemente, em outros. O feminismo está também mudando no campo dos estudos, com pesquisas que englobam toda a sociedade. A propósito, consideramos ridículo que muitas pessoas que acreditam nas doutrinas feministas (pagamento equalitário para o trabalho, liberdade sexual, direitos humanos para as mulheres em todo o mundo, incluindo o direito à educação) têm sofrido uma lavagem cerebral por causa de estereótipos negativos na mídia e na sociedade e se recusam a se chamar, eles mesmos, de feministas. E homens, isso significa vocês também. É hora de intensificar, seja você mulher ou homem, trans, etc., e falar pelas mulheres. Os direitos femininos, os direitos civis, os direitos dos gays são os maiores direitos humanos, o movimento de nosso tempo.

Por que usar pseudônimos (obviamente, de importantes artistas mulheres)? Poderia falar sobre a escolha deles?

Ficar no anonimato tem suas desvantagens, como trabalhar sua vida inteira e não ganhar crédito por isso. Mas tem muitas vantagens também. Possibilita colocar o foco nas questões, não nas nossas personalidades. O mistério sobre quem somos atrai a atenção das pessoas. E você não pode acreditar sobre o que sai de nossas bocas quando estamos com as máscaras de gorilas. Cada uma de nós usa como pseudônimo o nome de uma artista mulher que já morreu e cada Guerrilla Girl tem um motivo para escolher seu nome. Eu escolhi Käthe Kollwitz, uma grande artista alemã que viveu entre 1867 e 1945, porque ela era uma ativista assim como era artista.

Vocês consideram o Guerrilla Girls um grupo underground ou já do estrelato? Radical ou não? Como pode analisar a participação que fizeram na Bienal de Veneza de 2005, a mostra mais tradicional do mundo?

Recentemente, nós - as agitadoras outsiders - acabamos dentro dos museus que criticamos, como o MoMA de Nova York, a Tate Modern, em Londres. Mas continuamos fazendo projetos de rua ao redor do mundo, como em Roterdã, Cidade do México, Belfast, Bilbao, Istambul, Atenas, Xangai e Montreal, onde colocamos nossos pôsteres sobre os discursos agressivos contra mulheres de todas as idades. Nós decidimos participar de exposições e apresentações em museus porque queremos que nossa mensagem chegue ao público mais amplo possível e acreditamos que é ótimo criticar uma instituição em suas próprias paredes. Na Bienal de Veneza, exibimos seis grandes banners sobre a histórica discriminação da própria Bienal e dos museus de Veneza. Mais de 1 milhão de pessoas visitaram a nossa exposição atual no Centre Pompidou, em Paris. Sempre que nosso trabalho aparece em uma instituição como essa, recebemos toneladas de e-mails de pessoas falando que nosso trabalho lhes mostrou algo que elas nunca souberam sobre arte e cultura, e que nós as inspiramos a realizar o seu próprio, louco e criativo ativismo.

Pôsteres, performances, escritos são meios mais eficientes para o grupo do que outras linguagens da arte? Guerrilla Girls é um grupo de arte ou mais do que isso, afinal?

Arte política, poster art e arte de rua SÃO linguagens tradicionais da arte - existem há séculos. Nós, definitivamente, nos consideramos artistas. E também nos consideramos ativistas.

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