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Normalizando a exceção

A eleição foi um repúdio ao jornalismo e campanhas de intimidação estão em curso

Lúcia Guimarães, O Estado de S. Paulo

14 de novembro de 2016 | 03h00

NOVA YORK - Não foram casos isolados. Foram milhares, somente nas primeiras 24 horas. E o mais extremista homem a vencer uma eleição presidencial nos Estados Unidos continuava em silêncio, cinco dias depois, sem denunciar atos de violência contra gays, mulheres e minorias raciais impensáveis por sua escala, há uma semana. Mas interrompeu o silêncio para se queixar, via Twitter, definindo os protestos como obra de profissionais remunerados, segundo ele, “injustos”. Não adiantou o apelo feito por Kzir Khan, pai do soldado muçulmano morto no Afeganistão, insultado pelo homem que levou o Colégio Eleitoral, mas não o voto popular. Khan, que anda com a Constituição norte-americana no bolso, sugeriu sua leitura, mas seria pedir demais que o eleito chegasse à Primeira Emenda, que garante a liberdade de expressão. Algum assecla que deve ter lido o documento fundador da república o convenceu a voltar atrás e tuitar que era OK protestar.

Os ataques à imprensa continuaram pelo Twitter, numa estratégia de intimidação que, pode-se prever, tem potencial de sucesso maior do que a da era Nixon porque a eleição foi também um repúdio ao jornalismo. O combativo Washington Post de 2016 não tem a credibilidade ou o alcance do jornal que revelou o escândalo Watergate. Em poucos dias, os sinais da onda autoritária vão além de tweets, aparecem na equipe de transição e nos planos em curso. Jornalistas que sofreram violentas campanhas de intimidação antes do voto, já começaram a ser ameaçados por trolls que publicam seus endereços residenciais nas redes.

É importante nos desabusar da ideia de que os manifestantes nas ruas são elitistas fazendo birra contra o resultado de um ritual seguido desde 1788. As urnas produziram exceção. As urnas serão respeitadas, mas normalizar a exceção é o perigo no momento, não protestar pacificamente. A neutralidade é a maior aliada do autoritário.

Há muito o que escrever sobre o fracasso da mídia, a responsabilidade da mídia neste retrocesso, mas não se trata do esforço aqui. Jornalismo é ouvir e a extinção do jornalismo local eliminou os pares de ouvidos que teriam relatado o rancor e a falta de esperança de trabalhadores que a recuperação econômica dos EUA excluiu.

Mas a surdez da mídia não produz os atos de violência diária que assistimos. Há crianças latinas nascidas nos EUA desaparecendo das salas de aula porque seus pais, imigrantes sem documentos, têm medo de ser separados dos filhos. Paranoia? Na sexta-feira, uma escola pública de Los Angeles flagrou um professor da sexta série se divertindo em assustar alunos latinos, prometendo que seus pais seriam deportados. Há negros tendo seus carros pichados, sendo seguidos por supremacistas brancos. No feriado dos veteranos, um soldado negro foi acossado e expulso do restaurante da cadeia Chili’s, onde o gerente lhe tomou a refeição grátis que a cadeia serve para veteranos em seu dia. Um casal gay birracial na Luisiana encontrou uma arma pontada para eles enquanto caminhava. Jovens muçulmanas estão descobrindo a cabeça para não ser atacadas. Universitários estrangeiros não brancos têm que ser escoltados por colegas para assistir à aula e encontram suásticas pintadas em seus dormitórios. E o silêncio dos novos líderes, os que vão controlar as duas casas do Congresso e a Casa Branca continua ensurdecedor.

Os agressores votaram contra o establishment. Em dois dias, a equipe de transição estava lotada de lobistas, a praga de Washington que o candidato prometera combater. O que vão fazer os que acreditaram em mudança quando descobrirem que um presidente não tem poder de ressuscitar o carvão como fonte de energia ou devolver prosperidade à força a indústrias em extinção? 

O editor da revista New Yorker, David Remnick, fazendo o inventário dos últimos dias, perguntou, será que estou tendo uma alucinação? Acordar é preciso.

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