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Normais & nem tanto

Tínhamos lá uns malucos de carteirinha - além daqueles que dispensavam documentação

Humberto Werneck, O Estado de S. Paulo

10 de março de 2020 | 03h00

Muito espaço se gastou aqui, nas últimas semanas, numa falação a respeito da fauna que povoava a remota infância do cronista. Faltou falar também da espécie a que ele e você pertencem, a dos chamados bípedes implumes, sobre os quais, eventualmente, seria o caso de dizer cobras & lagartos. Personagens que, tanto tempo passado, ainda hoje o assombram, e sobretudo divertem.

Aquela criatura, por exemplo, sorridente e conversadeira, com quem topávamos nas ruas do bairro, notável pelo costume que tinha de usar uma fartura de meias ao mesmo tempo, cinco, seis, sete, sabe-se lá quantas, numa superposição de algodão e lã que lhe engordava os pés, dando a impressão de que a moça usava botas, cada qual de uma cor. Um pouco mais e pareceria um caso de elefantíase. Nunca soubemos o nome da portadora daquele tipo talvez único de maluquice benigna, que perdia instantaneamente a calma se a gente a chamasse de “Das Meias”.

Não chegava a tanto a Sônia, mulher jovem com ar de freira à paisana, num tempo em que as irmãs de caridade não dispensavam o uso de pesados hábitos. Sua doidice era outra, e consistia em jamais tocar no que quer que fosse sem antes envolver a mão num lenço.

Preparadíssima, sem o saber, para estes dias de coronavírus. De pé no ônibus em movimento, ela pererecava, com o risco de cair, enquanto catava na bolsa o seu quadrado de pano (ainda não havia lenços de papel). E se encolhia toda, como em presença de uma cascavel, se algum cavalheiro desinformado a cutucasse para oferecer assento. Embora educada, jamais aceitava um aperto de mão, que substituía por mesura à moda antiga. Para a implacável molecada, ficou sendo a “Sônia Sabonete”. A brincadeira dos capetas, claro, era pegar na criatura, que reagia como quem tomasse choque elétrico.

Também não escaparam de apelidos cruéis a “Estopa”, com cabelos ensebados nos quais até se viam bichos residentes a passear; o “Carrapicho”, com a carapinha imunda, a esgoelar “Muié Rendêra”, sua imutável trilha sonora; a “Muda”, de quem se murmurava ser ninfomaníaca, das mais requisitadas; o “Fabá”, que se gabava de ter comido uma barata em troca de uns cruzeiros. Mais elevado na escala socioeconômica, havia o “Seu Foguinho”, assim apelidado pelo hábito que tinha, dia sim outro também, de tocar fogo no lixo no terreno baldio ao lado de sua casa. Como a nossa ficava bem em frente à dele, era para lá que o vento soprava a fumaceira. Se os vizinhos reclamavam, “Seu Foguinho” dava trégua - mas não tardava a acionar de novo a caixa de fósforos na qual parecia viciado.

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É espantoso que não tenha sido carimbado com algum apelido o padre Eymard, vigário da paróquia de Santa Rita, cuja brutalidade era piedosamente posta na conta de uma neurose de guerra, adquirida no período em que foi capelão da Força Expedicionária Brasileira, na campanha da Itália. Mandou fazer e afixou na entrada da igreja uma enorme placa em que se lia: “Homens sem paletó, crianças que choram e cachorros, nesta igreja, NÃO!”. Chegou a baixar a hóstia, interrompendo a Consagração, para apanhar um porrete atrás do altar e pôr para correr um vira-lata que não lera a placa. Dependendo do humor do dia, e quase sempre era péssimo, o padre Eymard respondia nestes termos aos fiéis que lhe perguntavam pelo horário da missa: “Antes do almoço”. Nos horários mais inconvenientes, fazia soar à toda o alto-falante da igreja, numa estridência mais compatível com o Inferno - até o dia em que um (in)fiel, exasperado, o silenciou com um tiro de espingarda. 

Lá em casa, meus pais decidiram que a família passaria a frequentar outra igreja, a do Carmo, no dia em que o neurótico de guerra interrompeu a missa e, vociferante, passou uma carraspana na meninada - nós e primos nossos - que cochichava no primeiro banco. Mas foi lá que se rezou, décadas depois, a missa comemorativa das bodas de ouro do casal, num clima de animação que por certo teria provocado nova bronca do padre Eymard, se a longa mão do Senhor já não o houvesse recolhido. 

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O time dos “normais”, se assim se pode rotular quem não tivesse algum tipo de maluquice explícita, como os acima citados, incluía o doutor, finíssimo, que por telefone - um orelhão, ainda por cima - pôs fim a um casamento de décadas, aparentemente exemplar, tão logo o cardiologista lhe comunicou que viveria um pouco mais se evitasse aborrecimentos. Ou aquele, conhecido como “o Alemão”, que assim se desculpou com meu pai por não ter ido, como a unanimidade dos vizinhos, ao velório de minha avó, em nossa casa: “Eu até vi sair um caixão, dr. Hugo, mas achei que era um dos meninos...”.

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Quanto aos moleques do bairro, vale menção à turma de um bloco de carnaval, os Bacharéis do Samba, que, segundo se dizia, sacrificava gatos para garantir o couro de seus tamborins. Não se pode afirmar que foram eles que pintaram com tinta fosforescente o pelo de um felino, cujo inusitado brilho foi por um tempo a sensação das noites nas vizinhanças. Também não se pode atribuir ao pessoal do bloco o sadismo de engessar um gato, com o requinte de fazer de seu rabo um alvacento mastro empinado. 

Avesso a tal tipo de barbaridade, de minha parte limitei-me a criar com dois comparsas uma efêmera Rede Terrorista, cujas atividades consistiram, num primeiro momento, em pichar num muro, com letras graúdas, o anúncio da candidatura de um amigo nosso ao cargo de Governador do Estado de Coma. Fomos surpreendidos em plena função, de pincel em punho, quando mal tínhamos escrito o apelido do candidato, que lá pôde ser lido durante anos. 

Numa segunda etapa, o trio dedicou-se a postar, toda semana, uma caixa contendo um pão de 250 gramas, endereçada a um ilustre e venerando historiador que morava em nosso bairro. “Objetos em pedra-sabão”, declarávamos no balcão dos Correios, se nos pediam para esclarecer o conteúdo do pacote. Sem desconfiarem de que estavam em presença de terroristas, os netos do destinatário, seriamente preocupados, nos davam notícia dos misteriosos despachos que o avô passara a receber. Eu daria tudo para ter visto, como viu um camarada nosso, o velho sair de sua toca, de pijama, num final de tarde, a rosnar impropérios, e arremessar na rua o pão murcho em cuja casca se podia ler, em letras grandes, o nome e o logotipo da temível Rede Terrorista do Pão. 

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