Nordeste vê Rodin pela primeira vez

Rodin está de volta ao Brasil. Uma seleção de 27 esculturas de sua autoria pode ser vista desde sábado no Museu de Arte Moderna Aloísio Magalhães, do Recife. A mostra, montada em meio à intensa programação desenvolvida pelo museu Rodin, é conseqüência de uma política ativa para ampliar o circuito de exposições, incluindo o Nordeste na rota dos grandes eventos (depois do Recife a mostra segue para Fortaleza e o Museu de Arte Moderna de Salvador está tentando conseguir que a exposição também passe por lá antes de chegar a São Paulo).É também desejo de Emanoel Araújo comemorar com o escultor francês os sucessos obtidos pela Pinacoteca do Estado nos últimos anos. Em 1995, quando se formavam filas gigantescas na frente da Pinacoteca do Estado para ver suas esculturas, foi o início de um período de grandes transformações para o museu da Avenida Tiradentes. Após uma cuidadosa gestão e uma premiada reforma, a instituição vive sua fase áurea.Conseguindo ao mesmo tempo realizar eventos de interesse do público e colocar à disposição dos visitantes um grande número de obras da coleção - que, aliás, registrou uma forte expansão -, Araújo arrumou uma maneira exótica de comemorar, trazendo o "convidado" mais ilustre já recebido pela casa para "ver de perto" as transformações por que passaram o museu. A intensa programação em torno de Rodin (1840-1917), cujas obras estão comprometidas com várias exposições ao redor do mundo, impede que a mostra fique por muito tempo. Alguns trabalhos seguem para a Espanha e a Itália (onde está sendo preparada uma grande mostra Rodin e Michelangelo).A bem da verdade, não se pode dizer que Rodin tenha deixado a Pinacoteca, já que daquela megaexposição ficaram na coleção oito obras do artista, doadas pelo Banco Safra, pelo Shopping Iguatemi e pelo povo de São Paulo e que também viajaram para o Recife. Também pertencem à Pinacoteca a coleção de 60 fac-símiles fotográficos que representam a coleção pessoal do artista, que utilizava a foto como um importante recurso de criação e chegou a reunir um acervo de 7 mil imagens.Da França veio um conjunto de 20 esculturas, seis delas inéditas no País. Mas apenas 19 delas viajaram para o Nordeste, por causa da impossibilidade de transportar O Homem Que Anda sobre a Coluna. Essa escultura mede 3,54 metros de altura, será exibida exclusivamente em São Paulo - a abertura da mostra está prevista para o dia 8 de janeiro - e veio diretamente de Nova York, onde participou da mostra 1900 (ano em que foi exposta pela primeira vez).Como escreve Antoinette Le Normand-Romain, no site oficial do Museu Rodin, a peça é um exemplo claro do processo de síntese de sua obra. Ele tende a "suprimir sempre o que lhe parece supérfluo ou o que dá à obra um sentido muito evidente", afirma. O Homem Que Anda é também das experiências de assemblage de diferentes esculturas desenvolvida pelo artista já maduro. A figura inacabada, isolada no topo dessa coluna, provavelmente nasceu da associação de um estudo de pernas para São João Batista com um outro torso modelado por ele.Destaques - Entre as outras peças emprestadas pelo Museu Rodin (escolhidas pessoalmente pelo diretor da instituição francesa, Jacques Vilain, que responde pela curadoria da mostra) estão as obras-primas mais conhecidas do autor como O Pensador, O Beijo, Os Burgueses de Calais e Balzac. Apesar de serem apenas a ponta do iceberg de uma longa e profícua produção, essas obras antológicas são as principais responsáveis por seu reconhecimento como um dos maiores escultores de todos os tempos. ReproduçãoO escultor Rodin (1840-1917), cujas obras estão comprometidas com várias exposições ao redor do mundoDentre elas se destaca, sem dúvida, O Pensador, que se tornou um ícone da cultura ocidental. A peça foi originalmente modelada entre 1880 e 1882, com pouco mais de 70 centímetros de altura, para compor A Porta do Inferno e foi exposta pela primeira vez em 1888. O próprio Rodin criou a versão aumentada, que viria a tornar-se a primeira obra pública do artista a ser erigida em Paris, em 1906.A representação do amor proibido, tema comum no século passado, que ganhou forma com O Beijo também foi concebida para A Porta do Inferno (cuja maquete, em sua terceira edição, também está na exposição) e mostra a relação de Rodin com a arte renascentista italiana. Inicialmente, a bela composição intitulava-se Paolo e Francesca, personagens reais que viveram na Itália no século 13 e que representam o pecado da carne no inferno de Dante.Aliás, é graças à versão cinematográfica de seu romance com a também escultora Camille Claudel que a vida de Rodin ganhou notoriedade entre o grande público. Interpretado por Gérard Depardieu no filme de Bruno Nuytten, o escultor é retratado como um gênio, mas um gênio um pouco sem caráter. O próprio Rodin considerava O Beijo uma escultura tradicional, apesar de muito bonita. "É um tema tratado de acordo com a tradição escolar: um assunto que se encerra em si mesmo."A grande revolução promovida por Rodin - que vai além das inovações técnicas como o abandono da base e a absoluta despreocupação com o acabamento da peça para ressaltar sua carga emocional - fica mais evidente em obras profundamente intensas e dramáticas, como Eva. O escultor conta que a teve de modificar várias vezes as linhas da obra - modelada em 1881 - para adaptar-se às mudanças no corpo da modelo. "Um dia soube que ela estava grávida e entendi tudo."A escultura reflete de maneira impressionante "a atitude de vergonha e remorso de Eva que, segundo a tradição cristã, é responsável pelos sofrimentos da humanidade", escreve Jeanine Durand-Révillon no catálogo da mostra. "Rodin elimina todas as alusões supérfluas e cria uma escultura que, além de religiosa, atinge toda a universalidade", acrescenta ela, numa conclusão que parece resumir sua genialidade.

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