Autumin de Wilde/Divulgação
Autumin de Wilde/Divulgação

Norah e o chamado livre do underground

Cantora vem ao País e lança aqui com exclusividade seu disco de parcerias

Jotabê Medeiros, O Estado de S.Paulo

10 de outubro de 2010 | 00h00

Norah Jones completou 31 anos em março. A filha de Ravi Shankar, morena jambo de olhar desconfiado que espantou o mundo com sua pose de diva precoce, mudou. Ainda é a mesma voz bluesy que surgiu envolvendo a onipresente balada Come Away With Me, em 2002. Mas não faz mais questão de carregar o título honorário de "doçura do jazz". Recentemente, foi vista berrando no palco ao lado de um grupo punk, em Nova York. Suas músicas saíram do nicho da classe média classuda e caíram nas graças do hip-hop dos Beastie Boys e do neotropicalista Beck (que fizeram remixes de seus hits).

"Acho que cresci", explica candidamente a cantora, macia voz preguiçosa, falando por telefone ao Estado, de Nova York. "Estou mais confiante, sem me importar com o que as pessoas dizem de mim. Faço o que quero. Não gasto mais tanta energia tentando agradar a todo mundo." Mudança radical para a cantora que se achava "uma velha num corpo de 24 anos" quando surgiu, no início dos anos 00.

Norah chega ao Brasil em novembro e o show em São Paulo será gratuito, dia 14, no Parque da Independência. Ela vem a bordo não de um, mas de dois novos discos: The Fall, só com composições originais, e o inédito ...Featuring, uma adorável coleção de 18 parcerias que ela cultivou ao longo de dez anos de carreira (Ray Charles, Herbie Hancock, Outkast, Q-Tip, Belle and Sebastian, Foo Fighters, entre outros), em sucessos eternos de Elvis, Johnny Cash, Joni Mitchell, Roy Orbison. "O fato é que eu tive muita sorte de poder viver daquilo que me dá prazer. Sim, é fato que há muito trabalho envolvido nisso, muita coisa maçante, mas é uma das melhores coisas da existência poder viver daquilo que se gosta", afirmou a cantora.

Falando sobre a ainda coletânea ...Featuring Norah Jones, que o Estado ouviu com exclusividade (leia abaixo), Norah confessa que a ideia de uma retrospectiva não foi sua. "Na verdade, foi uma sugestão da gravadora. Eu ouvi atentamente e pensei: faz sentido. E aí está", conta. O disco sai no Brasil e na América do Sul no início de novembro - antes do restante do mundo, que o lançarão em apenas no dia 16 de novembro. É um regalo especial para coroar a agenda de shows sul-americanos da cantora.

"Ray Charles e Herbie Hancock são meus heróis, essas duas gravações são especiais. Para mim, é uma linda emoção ter tido a chance de fazer essa parceria com eles", disse. A "surpresa" do disco é a gravação recente de More Than This, do grupo Roxy Music, encabeçado por Brian Ferry, sucesso dos anos 1980. "Confesso que eu mesma não conhecia essa música na época que a gravei. Tive de aprender a cantar, e só então comecei a ver que é muito interessante. Não tem essa coisa de som yuppie, música não tem essas compartimentações."

A cantora incluiu na inédita coletânea duas músicas que gravou com seus projetos paralelos, as bandas The Little Willies e El Madmo. "Trabalhar em grupos ou em bandas não é algo que eu esteja sentindo falta, no momento, mas também não é algo que eu descarto. Sempre pode pintar vontade", conta. Outro dado interessante é que, das 18 músicas, 5 são canções country, o que mostra o predomínio do lado "caipira" da cantora em seu repertório. "Minha mãe era de Oklahoma, costumava tocar músicas country ao piano, ouvia muito esses discos. De certa forma, são as raízes."

Furor. Pianista formada pela University of North Texas, Norah também mudou a forma de compor. Sempre vista como uma diva à moda antiga, com o piano como instrumento-chave, diz agora que é na guitarra que tudo começa. Norah viu o sucesso engolfá-la de forma inapelável, mas diz que não o considera uma armadilha. Em 10 anos, vendeu 40 milhões de discos e ganhou 9 prêmios Grammy. Depois, foi requisitada pelo cinema. Fez furor com o beijaço no ator Jude Law no filme Um Beijo Roubado (My Burberry Nights, dirigido por Kar Wai Wong em 2007). "Foi bacana, uma experiência muito legal, mas não tenho planos atualmente de voltar aos sets de filmagem. Afinal, tenho dois discos novos, é trabalho duro pela frente."

O disco de carreira atual é The Fall, lançado em meados deste ano pela cantora em Nova York. O produtor é Jacquire King, e a ficha técnica traz os bateristas Joey Waronker (R.E.M.) e James Gadson (Bill Withers), o tecladista James Poyser (Erykah Badu, Al Green) e os guitarristas Marc Ribot (Tom Waits, Elvis Costello) e Smokey Hormel (Johnny Cash, Joe Strummer). E também Ryan Adams e Will Sheff, do grupo Okkervil River.

Além de São Paulo, Norah vai a Curitiba, Rio e Porto Alegre. O cantor e guitarrista Jesse Harris, autor do hit Dont Know Why? (que lhe deu o Grammy de melhor música), faz todos os shows de abertura.

VOLTA AO MUNDO EM 18 PARCERIAS

Love Me

Com seu grupo Little Willies, se apresenta nesse country de um jeito maroto, estilo que tem parentesco com a old school do gênero, como June Carter (mulher de Johnny Cash).

Virginia Moon

Ao lado do grupo pós-grunge Foo Fighters, banda de Dave Grohl, ela torna a canção uma espécie de bossa nova, um acepipe acústico de grande suavidade.

Turn Them

Incrível como Norah pode tornar uma canção quase caipira em um petardo ao estilo Wilco, com um delirante duelo vocal com Sean Bones, um dos bons duetos do disco.

Baby, It"s Cold Outside

A faixa que a gravadora quer que puxe o carro nas rádios. Ironicamente, embora ladeada por Willie Nelson, lenda country, é um jazz tradicional delicioso.

Bull Rider

Mais uma parceria memorável, o embate entre duas vozes femininas diferentes (Norah e Sasha Dobson) é o segredo dessa faixa, clássico do cancioneiro americano.

Ruler of My Heart

Aqui ela vai a New Orleans, a bordo do grupo Dirty Dozen, e mostra que sabe o caminho das raízes sulistas; o teste de cantar numa brass band é definitivo.

The Best Part

Norah se faz acompanhar do teatral grupo El Madmo, um dos seus projetos paralelos, usados como válvulas de escape de sua condição de intocável do neoblues.

Take Off Your Cool

Acústica, moderna, aguça os sentidos, conclama ao balanço, tem o peso da fase mais brilhante do Outkast. Norah e Andre 3000, é mole? Melhor do CD.

Life Is Better

Funky, com o condimento típico do R&B old school de Q-Tip, é também um grande encontro entre a precisão vocal de Norah e o nervosismo típico dos novos gêneros urbanoides.

Soon the New Day

Aqui, Norah vai de hip-hop, com Talib Kweli, e se o hip-hop não a ajuda, ela faz muito bem ao gênero, colaborando para arredondá-lo irremediavelmente.

Little Lou,Ugly Jack, Prophet John

A mais curiosa parceria, talvez, do álbum. Norah faz dueto com o grupo escocês

Belle and Sebastian, cult no Brasil des-

de os anos 1990.

Here We Go Again

Gospel ao lado de Ray Charles, precisa dizer mais? Fé, espiritualidade, piano, voz que nunca mais haverá igual; faixa

é testamento de

um gênio da música.

Loretta

A cantora se acompanha aqui dos astros folk Gillian Welch e David Rawlings. A cantora Gillian Welsh é uma revelação do gênero, e seu encontro com Norah é encantador.

Dear John

Com o cantor e guitarrista Ryan Adams, ídolo do garage rock que tem um pé no country (foi criado ao som de Loretta Lynn, George Jones, Merle Haggard), Norah se esbaldá.

Creepin" In

A country grandma Dolly Parton não precisa de apresentações: risos e o jeitão despachado dão o tom da faixa, na qual Norah se deixa arrastar para uma festa no celeiro.

Court & Spark

Piano quente de Herbie Hancock, numa performance realmente excepcional do velho vanguardista. Norah Jones, que estudou piano na universidade, é grande fã dele.

More Than This

Com o guitarrista Charlie Hunter, em 2001, ela regravou uma música que fazia um punk passar mal nos anos 1980. Bryan Ferry a cantava, mas aqui ela foi reinventada.

Blue Bayou

Poderia perfeitamente ser uma canção de Tom Waits, dada a crueza e a aspereza dos vocais; o parceiro é M. Ward, e o clima é de bluegrass, nas cercanias do Mississippi.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.