Nora Ephron

Na noite em que Nora Ephron morreu, encontrei minha mulher chorando na cama. "Por que está assim?", perguntei, delicadamente. Fui conhecido de Nora por cerca de uma década, mas nunca fomos próximos, e minha mulher só a tinha encontrado uma vez, brevemente. "Os filmes dela pertenciam a mim", disse ela, simplesmente. "Estão ligados à minha vida." Eu sabia exatamente o que ela queria dizer.

LEE SIEGEL, O Estado de S.Paulo

01 de julho de 2012 | 03h08

Quando Nora sucumbiu na semana passada a uma pneumonia, complicação da leucemia contra a qual lutava já havia anos, pareceu que uma parte da cultura se foi com ela. Ao conversar com Nora e o marido, Nick Pileggi, em várias festas no decorrer dos anos, era fácil perceber que estávamos falando com pessoas que, entre si, eram responsáveis por moldar cerca de metade da consciência americana. Os filmes que Nora escreveu - e aqueles escritos em parceria com a irmã, Delia - não eram apenas peças de entretenimento. Eles se tornaram adições à realidade que comentavam ou satirizavam de maneira tão penetrante. A Difícil Arte de Amar, Harry e Sally - Feitos um Para o Outro, Sintonia de Amor, Mens@gem Para Você - esses filmes imortais de Nora chegaram de fato a influenciar a maneira com a qual as pessoas conversavam e se relacionavam umas com as outras. Bastava levar uma mulher para um encontro e, antes que pudéssemos perceber, os dois começariam a interpretar Billy Crystal e Meg Ryan em Harry e Sally. Ao ter uma briga com a mulher ou com a namorada (ou, para os mais azarados, uma briga com a primeira a respeito da segunda), subitamente nos víamos como o mesquinho e furioso Jack Nicholson de A Difícil Arte de Amar.

Os homens foram particularmente influenciados pelos filmes de Nick Pileggi: Os Bons Companheiros, Cassino, City Hall - Conspiração no Alto Escalão. No fundo do ego ferido de cada homem há o atraente abismo do frenesi violento de Joe Pesci em Os Bons Companheiros, ao passo que no primeiro plano da fantasia ideal de cada homem americano está o sangue frio e a compostura do durão Robert De Niro de Cassino. Nick era a incandescente alma gêmea de Nora.

Aprendemos na escola que os três grandes responsáveis por moldar a civilização moderna foram Freud, Darwin e Marx. Bobagem. Desde a invenção da câmera cinematográfica, nossas vidas vêm sendo moldadas pelas histórias registradas em celuloide. Imagino que, da mesma forma, o habitante médio da Grécia antiga tenha sido influenciado mais pelas fábulas de Homero do que pelas ideias de Platão. E o próprio Platão sabia da superioridade das fábulas em relação aos conceitos. Foi por isso que ele apresentou seu conceito mais importante sob a forma de uma parábola.

É claro que nem todas as histórias cinematográficas são dignas de afetar a maneira com a qual as pessoas enxergam a si mesmas e o mundo ao seu redor. Uma das coisas que eu mais gostava em Nora era o fato de ela ser uma espécie de anti-Woody Allen. Ambos são autores judeus que abordam o mesmo território da América moderna e urbana: os relacionamentos românticos complicados pelo ego; todas as conveniências modernas que, mais cedo ou mais tarde, se enquadram na categoria dos obstáculos atemporais à felicidade. Mas, enquanto os personagens de Allen eram - ou poderiam perfeitamente ter sido - todos moradores da mesma parte do Upper East Side, Nora expandiu seu universo ficcional para incluir outros mundos americanos. E naquilo que os personagens de Nora eram idiossincráticos, os de Allen foram - e ainda são - apenas neuróticos. Os personagens de Allen poderiam tomar um remédio para modificar seu comportamento. Os personagens de Nora são permanentemente eles mesmos, assim como ocorre com todos nós.

Por fim, havia a questão do sexo. Como típico homem judeu, seria de se esperar que eu me identificasse com os personagens masculinos e judeus de Allen em sua infinita e cômica busca pela alegria carnal. Em vez disso, com exceção de um período de hiperatividade hormonal entre os 13 e os 19 anos, sempre senti repulsa diante deles. Allen pertence a uma geração de intelectuais e autores judeus - da qual Philip Roth é um dos principais nomes - que escreve a respeito do sexo como Crise, Dilema ou Enigma. Mas, para os maiores artistas, o sexo nada mais é do que uma das tantas experiências de um continuum. Sou muito mais interessado num Don Giovanni do que nos eternos adolescentes de obsessão fálica criados por Allen e Roth. Nos melhores filmes de Nora, o sexo assume seu lugar ao lado das demais experiências elementares da vida. Diferentemente de Allen, Nora consegue até escrever sobre o amor como uma experiência distinta do sexo. Afinal, toda a ideia por trás da simulação pública de orgasmo de Meg Ryan em Harry e Sally, de uma comicidade sublime, é a de que o sexo nunca envolve apenas o sexo.

A própria Nora, até onde pude conhecê-la, era uma pessoa humana, cheia de alegria, invariavelmente adequada sem ser jamais rígida nem proibitiva. É celebrada por ter sido uma amiga extremamente leal, coisa que sem dúvida ela era, aproveitando também os frutos das relações harmônicas com tantas pessoas diferentes quanto Nora conseguia encaixar em sua vida. Na última vez que a vi, em mais uma daquelas festas, conversamos a respeito da nova filha que tive com minha mulher, e ela começou a falar afetuosamente sobre seu próprio pai, comentando com corrosiva delicadeza a natureza do ego masculino. Poderia ser uma referência sutil ao fato de, enquanto crítico, eu ter escrito de maneira corrosiva, sem nenhuma delicadeza, a respeito de um dos amigos famosos dela. Devolvi uma espécie de tentativa de pedido oblíquo de desculpas, discorrendo sobre quanto me faltava a inibição necessária para ser considerado um intelectual de verdade. Os olhos dela brilharam, mas Nora conservou um silêncio cuidadoso, quase empático, que era em si uma forma de perdão. Posso apenas imaginar o que ela poderia ter dito ou como teria respondido, mas esta é uma história que somente Nora poderia contar bem.

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