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Nome às coisas

Viajar nas páginas de um dicionário de palavrões não chega a ser pecado

Humberto Werneck, O Estado de S.Paulo

25 Abril 2017 | 02h00

Não pense que era só você: também eu, quando menino, volta e meia ficava a folhear avidamente o dicionário, um inocente dicionário da língua portuguesa, naquela idade em que a simples leitura de uma palavra obscena era excitante. Aquele tempo em que até mesmo a contemplação de uma esquálida perna de cadeira (admito que agora exagerei), por desvairada associação de fantasias, era capaz de acender a imaginação libidinosa de um garoto.

Passou a fase, mas não o hábito, o vício, quase, de viajar no dicionário. Já contei que mais adiante costumava garimpar ali extravagâncias verbais, do tipo “amaxofobia” (poupo a você o trabalho de ir ao Houaiss para saber que se trata do “medo mórbido de se encontrar ou viajar em qualquer veículo”), e aplicá-las na primeira ocasião, saboreando o pasmo do interlocutor. 

Ia além: com o comparsa Jaime Prado Gouvêa, que já na adolescência dava pistas do ficcionista que viria a ser, cheguei a inventar esquisitices (me lembro de “cripteriótico”, mas não do significado, se é que tinha algum), com o mesmo objetivo de embasbacar os circunstantes. 

Entre estes, pouquíssimos passavam recibo de ignorância, limitando-se a maioria a balangar bovinamente a cabeça. Não éramos os únicos, o Jaime e eu, a encenar essa modalidade de comédia bufa. Havia no meu bairro um camarada que, sem saber patavina de mecânica de automóvel, mesmo assim atropelava o papo para observar que o carro em questão estaria OK, não fosse aquele problema recorrente no extrafogador de bertrugem. Nunca ouvi alguém indagar o que vinha a ser aquilo.

Pela vida afora, venho juntando dicionários, e não só de língua portuguesa. Aquele de nomes e sobrenomes, por exemplo, de que falei na semana passada. Só por falta de espaço nas estantes me desfiz, recentemente, do meu Dicionário de Termos Náuticos, Marítimos e Portuários, de Abinael Morais Leal. Não saberia explicar como e por que tal obra veio ter nas prateleiras de alguém tão ancorado em terra firme - pode ter sido um fenômeno semelhante àquele que em 1500 desviou Cabral das Índias. Se o livro aqui esteve atracado por tanto tempo, foi pelo fascínio que me despertam, mais do que significados, sonoridades como “gávea”, “barlavento”, “cordoalha” ou “escotilha”, com a embriagadora maresia de sua sugestão poética. 

Nas páginas daquele dicionário (decidido: vou recomprar), aprendi ainda que “bolinar”, “joanete” e “malagueta” não significam apenas o que supunha a minha vasta e não especializada ignorância. Respectivamente: “Navegar próximo da direção do vento”, “vela que fica por cima da gávea” e certa peça do leme.

Não sei por que vim a ser possuidor, também, de um glossário de termos da construção civil, que igualmente já desembarquei, não sem antes me inteirar do que vêm a ser “boqueta” (“abertura em paredes para passagem de objetos”) e “bundoril” (banco de shopping ou praça) - vocábulos que, previsivelmente, me remeteram ao Dicionário do Palavrão e Termos Afins, de Mário Souto Maior. Este, sim: “único em português”, como se lê na capa, e prefaciado por Gilberto Freyre, não foi por acaso que chegou às mãos de um ex-menino afeito a caçar indecências no Caldas Aulete. 

Longe de mim sugerir que você saia usando as palavras cabeludas que Souto Maior arrebanhou em basta cabeleira (mais de 3 mil verbetes), mas não tenho dúvida de que esse dicionário é leitura tão instrutiva quanto divertida. E mais ainda se complementada com a de um livro igualmente recomendável, Com a Língua de Fora, de Luiz Costa Pereira Júnior, professor que, em seu afã pedagógico, se deu inclusive ao trabalho de contabilizar vocábulos recolhidos no Dicionário do Palavrão, em A Gíria Brasileira - Dos Marginais às Classes de Elite, de Gumercindo Saraiva, e How to Cuss in Brazilian, de Tetsuo Berozu.

Vamos ao números. Segundo apurou a calculadora do professor Luiz, a mais rebolante preferência nacional pode ser chamada de 90 maneiras - e ainda é pouco, diante dos 215 nomes do diminuto acidente geográfico corporal que nela se esconde. Por favor, não me peça exemplos, estamos num jornal de família. 

Já que baixamos a essa crucial região de nós mesmos: para o detalhe anatômico que distingue você do outro sexo, caro senhor, existem, contemplados os mais variados tamanhos, nada menos de 369 alternativas vocabulares (uma para cada dia do ano, haverão de se rejubilar portadores e usuários que não gostem de repetição). E veja até onde chega, ou onde começa, nossa onipresente misoginia: para referir-se ao distintivo feminino, o povo brasileiro não dispõe de mais do que 299 alternativas. 

Quanto ao ato de conectar um aparato ao outro, tanto faz se para fins reprodutivos ou recreativos, existe para ele uma fartura de palavras, 232, todas à disposição de quantos gêneros haja. A gramática sexual, como se vê, dá garantia: não há de ser por falta de verbo que alguém deixará de se entregar à mais deleitosa das conjunções. 

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