Noll e a solidão que fustiga os jovens

Em Anjo das Ondas, escritor retrata as angústias do amadurecimento

Ubiratan Brasil, O Estado de S.Paulo

29 de julho de 2010 | 00h00

Os mistérios da alma humana alimentam a obra do escritor João Gilberto Noll - mesmo em livros dirigidos aos jovens, quando se espera uma profusão de aventuras, ele prefere tratar de questões fundamentais, como as angústias do amadurecimento. Esse é um dos temas de Anjo das Ondas (Editora Scipione), que segue na mesma linha dos juvenis Sou Eu! e O Nervo da Noite, livros que também mostram a adolescência como a fase em que dúvidas profundas convivem com certezas absolutas.

Noll lança o livro hoje, na Livraria da Vila da Alameda Lorena, onde conversa com Marcelino Freire. Uma ótima oportunidade para se conhecer (ou aprofundar) a escrita de um autor singular, uma experiência linguística extremada, em que o limite entre prosa e poesia é quebradiço. Em Anjo das Ondas, ele narra a história de Gustavo, garoto de 15 anos que, depois de residir na Inglaterra, retorna ao Brasil para passar um tempo com seu pai e acaba vivendo uma apaixonante aventura em busca da identidade. No Rio, ele encontra o seu duplo, na figura de um surfista que foi seu colega no colégio, alguns anos antes. Ponto de partida para o escritor abordar assuntos delicados que muito lhe interessam, como comenta na seguinte entrevista.

O livro aborda descobertas em geral e também as dúvidas que esses momentos provocam. A busca do caminho próprio seria, portanto, o tema principal?

Comecei a escrever o livro pensando no público juvenil. Mas no processo de criar o fluxo narrativo fui percebendo que eu estava escrevendo uma ficção sem buscar nenhum segmento específico de leitores. Era como os meus livros anteriores. Um trabalho fundamentalmente de linguagem, com um sempre vivo apelo sensual. De juvenil tem apenas a idade do protagonista, pois se trata de um adolescente. Eu diria que o protagonista é o mesmo de alguns livros meus, só que agora entre a nascente juventude e a inserção no mundo adulto. Voltando à sua pergunta, acredito, sim, que se trata de um personagem à cata de si mesmo, rumo às descobertas que farão dele o que chamam de alguém. A sua descoberta mais vital na fase que ele encarna é o da sexualidade e isso é feito na completa escuridão para que ele possa como um cego se preparar contando apenas com a ardência do tato e a respiração ofegante. Para que ele possa ir se preparando para então se lançar ao encontro do outro corpo que já vem vindo, sim.

A solidão leva Gustavo a ver no amigo um pedaço de si mesmo.

Gustavo tem o lado de dentro mais dilatado do que o seu relacionamento com o lado de fora. Dentro de si ele ainda brinca como uma criança. Seu imaginário é superpovoado, hipertrofiado, eu diria, quem sabe levemente "esquizo". Pois o que chamam de loucura é essa hiperatividade do universo interior, deixando pouco espaço para uma interlocução real, efetiva e duradoura. É a adolescência vivida em alto grau de solidão. Ele convive a duras penas com o pai e com a mãe. Almeja uma aventura que não encontra lugar no confinamento do lar. Aí ele parece, sim, com outros personagens meus que já atuam em estágios maduros da vida. Sentem uma aversão à domesticidade. A pessoa chegada com que ele se identifica é a avó, uma cantora lírica que vive em Londres e a qual ele espia durante a troca de roupa nos camarins. É apaixonado por ela. Ele vive estadas em Londres em completa ociosidade, em pura exaltação interior. É quando ultrapassa a sua solidão. Nem com a namorada ele conheceu tais situações.

A descoberta de que a realidade do mundo adulto é menos interessante que o universo infantil é um inevitável contraste com a ânsia de amadurecer que normalmente marca os jovens?

Esse contraste é o que move a narrativa. Às vezes ele quer avançar, vivenciar a completa autonomia. Em outros momentos ele tem vontade de recuar, de ir ao reencontro de uma fase penumbrosa, na qual retomará contato com as coisas indistintas, condenadas à força dos outros, quase uma semimorte, quase uma ultraprecocidade para o fim. Sem dúvida, acho que sem qualquer pedagogia, o que vence ao final da narrativa é a aspereza da pele que por segundos alcança um laivo de fusão. Quando Gustavo pergunta: "É esse o meu lugar?"

Os mistérios da alma humana ainda o inspiram?

É a sondagem desses mistérios que fazem de mim um escritor. Talvez para o bem e para o mal. Não sei... Se um dia eu abandonar essa característica tentando ser um romancista de cunho sociológico ou histórico ou puramente político, você pode escrever, estarei me suicidando literariamente. E não faltou na formação da minha geração a crença numa obra mais engajada em questões exteriores à linguagem (e não falo aqui, por favor, numa visão abastardada, formalista, de incensar o reino do significante, etc.). Não faltou a crença exclusivista em uma obra enfim de conteúdo explicitamente social. Hoje acredito antes de tudo na liberdade do escritor. Que cada escritor vai soprar no espaço em branco o seu próprio carma, a sua sabedoria cavada no atordoamento causado pelo tanto de mistério que nos constitui e humaniza.

TRECHO

"Agora, depois de uma aurora exuberante, uma garoa começava a cair. Ele viera viver no Rio, morava com uma tia...

...na Raul Pompeia.

Nos afastamos do abraço, nos inspecionando para verificar a quantas andava o corpo de cada um, ainda em formação na nossa idade...

Ele estampava ser bem mais forte, já tinha o físico de um homem verdadeiro. Temi que estivesse pensando que, infelizmente, eu ainda era o mesmo das fuzarcas em recreios escolares. Infelizmente para quem?, me perguntei. Pra mim ou pra ele?"

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