Noites de festa à beira-rio

Com grandes encontros, evento em Belém destaca Gabi Amarantos

Lauro Lisboa Garcia, O Estado de S.Paulo

15 de junho de 2010 | 00h00

Conectadas. A carioca Nina Becker e a paraense Gabi Amarantos num encontro antológico      

 

BELÉM

Diva. Essa expressão, que originalmente representa estrelas temperamentais, no Brasil virou elogio para figuras grandiosas da música popular. Aqui em Belém, uma legião de fãs (de todos os sexos e idades) têm Gabi Amarantos como sua diva. Ela adora. E teve mais uma comprovação de sua crescente popularidade no bombástico show que fez tremer o chão do Píer da Casa das Onze Janelas, no sábado. Era a atração mais esperada desta versão do festival Conexão Vivo, que pela primeira vez chegou ao Norte do País.

Enquanto 4 mil pessoas aguardavam sua entrada em cena, Gabi dedicou alguns minutos, das cerca de duas horas reservadas para se montar, para falar com alguns jornalistas. Embora aparentasse a maior tranquilidade, sempre bem-humorada, disse que estava tão nervosa quanto no Recife, quando fez o consagrador show no Rec-Beat em fevereiro. "Aquele show foi um divisor de águas na minha carreira", disse a cantora que nasceu em Jurunas, na periferia de Belém, e começou a cantar gospel na igreja. Até virar a musa do tecnobrega, e agora do tecnomelody, a "Beyoncé do Pará" participou de outras bandas.

Gabi começou a decolar fora do Pará a partir de outra edição do Conexão Vivo, no Recife, dali para o Rec-Beat e a televisão. Agora se prepara para gravar um disco produzido pelos modernos Kassin, Berna Ceppas (do Rio) e Carlos Eduardo Miranda (gaúcho radicado em São Paulo), visando ao mercado internacional. Nos shows ela brinca de fazer versões livres de hits de Beyoncé, Lady Gaga e outras, que viram outra coisa na concepção dela. É o caso de Tô Solteira. Mas sério mesmo, suas principais influências são Ella Fitzgerald, Billie Holiday e, a maior de todas, Clara Nunes. "Pretendo gravar Na Linha do Mar, de Paulinho da Viola, que é um dos sambas que mais gosto com Clara."

Usando muito brilho e várias expressões do vocabulário gay, Gabi virou musa desse público. Como disse a participativa apresentadora Adelaide Oliveira, "ela não veio ao mundo pra passar despercebida". No palco, apareceu usando um "cinturão da castidade musical", com uma estampa de fechadura prateada na genitália, "para a música do Pará nunca mais ser violada". À parte o mise-en-scène, ela tem um vozeirão, o que a diferencia da maioria do gênero que ela abraçou.

Por aqui, há quem considere o tecnobrega uma praga, como o axé na Bahia, o funk no Rio, o forró "de plástico" no Nordeste, o sertanejo no Sudeste/Centro Oeste. De fato, é repetitivo e onipresente. Mas Gabi vai além, o que comprovou na participação no show de Nina Becker no domingo, cantando Vida (do extinto grupo Obina Shock) e Pimenta Com Sal ("uma preta e uma branca de mãos dadas"). Tendo músicos da ótima banda Do Amor como acompanhantes, o show de Nina foi de uma felicidade contagiante.

O encontro com Gabi, casando duas grandes vozes de timbres diferentes, deu o real significado da conexão, do intercâmbio, que demarca a importância do evento. Foi um dos momentos antológicos do festival que começou com a psicodelia do Mini Box Lunar (do Amapá) e encerrou com a ferveção pernambucana da Banda Eddie. Com estímulos de Adelaide, um público interessante (e interessado) prestigiou até artistas menos conhecidos aqui, como o paulista Romulo Fróes, que, como Nina, tinha fãs na plateia cantando tudo.

Como disse Fábio, vocalista da Eddie, aqui se propagou "música autoral que não rola nas rádios furrecas da vida", num belo lugar às margens de um imenso rio. É a Amazônica conectada em todas as vertentes sonoras, para além dos clichês e preconceitos.

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