Zé Takahashi
Zé Takahashi

Noite no Museu: À La Garçonne mostra seu streetwear de luxo no Masp

Estilista da marca, Herchcovitch mistura clubbers, darks, fetiche e personagens de terror no desfile que acontece nesta segunda, 13

Sergio Amaral, O Estado de S.Paulo

12 Agosto 2018 | 06h00

Frankenstein estará presente. Sua noiva, a Múmia e Drácula também. Assim como clubbers, darks, góticos e ravers, personagens noturnos que embalam o mix de referências da nova coleção da À La Garçonne, que desfila no mezanino do Masp na manhã desta segunda, 13.

É a coleção 02-2018 da marca, que tem Alexandre Herchcovitch como estilista e diretor de novos negócios ao lado do marido Fábio Souza no papel de diretor criativo - eles aboliram a tradicional separação por estações (primavera/verão e outono/inverno) da sua estratégia. “É nossa coleção mais elaborada”, diz Alexandre. “É mais pensada e mais madura”, completa Fábio. Isso deve aparecer no estilo e no design das roupas, boa parte delas desenvolvidas em parceria com marcas líderes em seus respectivos segmentos, como a grife de workwear Dickies, por exemplo. “Entramos um pouco mais fundo nas customizações, desfizemos costuras, abrimos a modelagem, recortamos e montamos outras roupas”, explica Alexandre. “Parece que ela foi feita do zero, mas ela é remontada.”

Serão apresentados 70 looks, parte deles trazendo vampiros, múmias e outros monstros de filmes de terror dos anos 20 do acervo da Universal, apresentados por muitos não modelos, escalados por Fábio de diferentes lugares do Brasil. “Queria explorar outros tipos de beleza, busquei pessoas com muita personalidade, é um casting colorido, com figuras fora do padrão”, conta ele.

É a diversidade das ruas embalando o streetwear de luxo da grife, um segmento em voga na moda de todo o mundo (especialmente nas marcas sensação, como Off-White, Vetements e Supreme). Em termos de estilo, isso se traduz em jeans, camisetas e moletons em tiragem limitada, peças vintage pintadas à mão, peças de alfaiataria modernizadas, muitos tênis e, agora, Melissas.

Num pit-stop para o almoço entre uma prova de roupa e outra, Alexandre e Fábio contam mais de sua moda, suas aspirações e da grife ao Estado.

É o segundo desfile da marca no Masp...

Alexandre. Nossa ideia era ter feito uma trilogia, mas eles não tinham espaço. Quando tem exposição por lá, a gente não consegue encaixar desfile. Dessa vez deu.

Tem um tema essa coleção?

Alexandre. Tem uma inspiração bastante noturna.

Clubber?

Alexandre. Tem também. Alguém te falou?

Não! (risos)

Fábio.  É um misto de coisas. Tem vários monstros...

Alexandre.  Tem todo tipo de underwear e lingerie, desde uma underwear branca de algodão, aquelas cuecas que a gente usa, até uma lingerie noite, fetiche. E tem movimentos de noite: dark, punk, gótico, raver, clubber... Entraram todos, é bem misturadão.

E os monstros?

Alexandre. Eles dão um arremate nessa coisa de noite. Seguindo o trabalho que estamos fazendo com a Universal, desta vez teremos todos os monstros dos anos 1920 do cinema. O primeiro Drácula, Múmia, Frankenstein, A Noiva do Frankenstein e outros filmes dos anos 1920.

No que essa coleção difere das últimas?

Alexandre.  É mais elaborada...

Fábio.  Mais pensada e mais madura.

Em termos de design?

Alexandre.  Design, acabamento… A gente tem Dickies com mais visibilidade, por exemplo. Entramos mais fundo nas customizações, não só nas pinturas. Desfizemos as costuras todas, abrimos a modelagem, sobraram pedaços de tecido, a gente recortou, montou outras roupas. Parece feita do zero, nem dá para perceber que aquela roupa foi remontada.

Fábio.  Essa coleção é mais pensada porque a gente tem surpresas para antes do final do ano. Nosso foco é exportação, mas com essa novidade é ficar no mercado interno…

Você quer crescer o negócio?

Fábio. O atacado não é meu foco, a À La Garçonne não quer ser gigante.

Alexandre. A gente não consegue pela dificuldade de fazer a roupa. Mesmo as que são fáceis de fabricar, não têm muito. Na loja, temos uma variedade grande e um estoque pequeno de cada peça para manter a exclusividade para quem compra. É outro raciocínio.

É uma lógica desse novo streetwear, de luxo.  

Alexandre.  Que eu adoro fazer. Sempre gostei e acho que dá para exercer bem na À La Garçonne, isso fica cada vez mais evidente. E é bom porque estamos numa época de consumo disso, o que acho ótimo, libertador, com matérias primas que não são de luxo mas viram luxo, como moletons e coisas do gênero.

Como são as Melissas que vocês vão lançar na apresentação?

Alexandre.  Tem um chinelo e uma sandália com as cordas [marca registrada da grife], e uma réplica de um modelo creeper [um sapato com solado pesado]. Vamos fazer com numeração estendida até o 44.

A escalação de modelos para este desfile é diferente. Foi você quem cuidou, né, Fábio?

Fábio.  Sempre fico de olho, em busca de outras belezas. Desta vez tem muitas pessoas que não são modelos. O rosto da coleção, as pessoas com maior visibilidade, não foram vistas ainda. A que abre o desfile por exemplo chama Mallu (Damasceno). Ela é minha cliente. Trouxe um menino do interior do Piauí, que é professor particular de crianças.

Que tipo de perfil exatamente você buscava?

Fábio.  Não são belezas óbvias, são pessoas com muita personalidade, interessantes .

São estilos bastante diversos...

Fábio.  Tem um pouco dessas figuras “fora do padrão”. Sempre temos transgêneros, meninos ou meninas que não se identificam com o próprio sexo, mas que também não querem trocar. É um  casting colorido. É importante representar as pessoas como elas querem ser vistas. Às vezes você não é aceito nem na sua casa… Há duas coleções eu abri o desfile com uma modelo que havia sido expulsa de casa porque era homossexual. Ela passou de uma modelo do meio para abrir o desfile. É uma bandeira que eu sempre levanto.  

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