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Lúcia Guimarães
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Noite na América

Hoje começa uma convenção partidária numa mítica Gotham City, a da versão mais assustadora da trilogia do Batman, dirigida na década passada por Christopher Nolan. Nesta república descrita, na semana passada, na convenção republicana em Cleveland, negros, muçulmanos e latinos vagueiam por uma Gotham de território continental espalhando terror e morte. Notem que o verbo escolhido por Donald Trump para falar do cenário Mad Max foi roam (vaguear) – também usado para gado.

Lúcia Guimarães, O Estado de S.Paulo

25 Julho 2016 | 02h00

Como disse o editor da página de opinião mais conservadora da grande imprensa norte-americana, a consagração de Donald Trump parecia um sketch do Monthy Python sobre o julgamento em Nuremberg.

A convenção democrata que começa hoje na Filadélfia é a primeira em que a candidata e provável primeira mulher presidente dos Estados Unidos figura em camisetas e cartazes de propaganda da oposição com dizeres impublicáveis para este jornal. Uma camiseta best-seller foi “Trump that bitch.”

Hillary Clinton é a primeira possível presidente da era moderna que enfrentou, no horário nobre da cobertura da convenção republicana, não argumentos ideológicos, mas gritos guturais de “lock her up!” (vamos trancafiá-la) e que merece, segundo um delegado oficial de Donald Trump, ser executada por um pelotão de fuzilamento.

Em 1984, a campanha de reeleição de Ronald Reagan alistou um time de talentos da publicidade que, entre outras peças, criou o hoje lendário comercial de campanha Manhã na América. Era um apelo ensolarado que ajudou a enterrar a campanha do cinzento democrata Walter Mondale.

O festival de mentiras contido no discurso de 75 minutos de Donald Trump, como a falsa estatística do aumento de crime, o falso peso de latinos em índice de homicídios foi emoldurado por evocações fascistas até no detalhe do famoso muxoxo que Mussolini fazia de seu balcão.

Um dos mais astutos observadores de campanhas eleitorais norte-americanas comentou, ao final do discurso: “Agora, Hillary só precisa aparentar sanidade.” Ela mostrou que compreende isto anunciando, no dia seguinte, um vice que não podia produzir mais contraste com a chapa Donald Trump-Mike Pence.

O ex-governador e atual senador por Virgínia Tim Kaine é um centrista fadado a desagradar os eleitores de Bernie Sanders. Eles queriam uma chapa feminina com a Senadora Elizabeth Warren como vice. Warren é uma grande aliada do consumidor e inimiga feroz dos abusos da indústria financeira. É um alívio ter uma lutadora como ela no Senado. Mas a vice-presidência não é o ‘Samba de Uma Nota Só’ e Hillary sabia que precisava de um político de temperamento menos panfletário e mais cosmopolita. Kaine morou no exterior e parece falar espanhol melhor do que Dilma fala português. Não é muito, mas é um aspecto simbólico que cativa a população latina criminalizada pelo megafone de cabeleireira laranja que habita a cobertura da Quinta Avenida.

Enquanto o concurso de miss que parecia pertencer a uma novela distópica de Cormac McCarthy se desenrolava em Cleveland, em Nova York, o CEO do terceiro maior conglomerado de mídia do mundo bloqueou a entrada do mais poderoso executivo da TV americana em quarenta anos. Rupert Murdoch demitiu Roger Ailes da presidência da Fox News que ele ajudou a fundar em 1996 e que mudou a paisagem política dos Estados Unidos. Ailes foi acusado de assédio sexual por inúmeras jornalistas da Fox. Mas sua demissão nada tem a ver com um súbito ataque de virtude e sim com interesses corporativos.

Roger Ailes fez seu nome reinventando Richard Nixon para a TV. É desolador notar que a queda de Ailes ocorre quando seu perfeito Frankenstein e amigo Donald Trump sobe ao pódio da vitória. Ailes inventou o que o comediante Stephen Colbert chamava de “verdadice”, uma verdade customizada e descolada de fatos. A Fox News é pioneira no jornalismo antijornalista. Seus âncoras conclamam, no ar: Não acreditem na imprensa, repórteres não cobrem fatos, fazem propaganda. O modelo emplacou em todo espectro ideológico, como bem sabem os leitores cujos impostos, na última década, sustentaram “verdadistas” a soldo do PT.

A linguagem de gângster empregada hoje por republicanos que defendem Donald Trump foi aperfeiçoada por Roger Ailes contra Bill Clinton. Desde a posse de Clinton, em 1993, o Partido Republicano vende com sucesso a ideia de que não há oposição legítima. Bill e Hillary Clinton e Barack Obama são radicais fora da lei. A violência verbal misógina tolerada contra Hillary hoje é continuação da violência verbal racista contra Obama, desde 2008. Ailes caiu mas sua rede de cabo está de pé, intacta e vitaminada pelo fenômeno Trump. Se ele chegar à Casa Branca, o partido de Abraão Lincoln ficará mais parecido com a distopia da Fox.

 

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