Noite memorável com o Quarteto Penderecki

O teatro do Sesc Vila Mariana recebeu os dois melhores concertos de quartetos de cordas deste ano. Entrei na sala na sexta-feira passada, ainda me lembrando da memorável apresentação do Arditti Quartet em julho. A rara magia de seis meses atrás repetiu-se quando o quarteto de cordas canadense Penderecki atacou o primeiro tema do derradeiro quarteto de Haydn, o inventor do gênero no século 18. Estilisticamente perfeitos, sobretudo o primeiro violino Jeremy Bell e o violoncelista Jacob Braum, mostraram o momento em que Haydn passava o bastão: ele o compôs em 1800/02, quando Beethoven compunha seu opus 18.

Crítica: João Marcos Coelho, O Estado de S.Paulo

20 de dezembro de 2010 | 00h00

O salto de 250 anos quase não foi sentido, porque na sequência tocaram Lament of the Trampled Garden, ou lamento do jardim pisoteado, do esloveno naturalizado canadense Marjan Mozetich, de 62 anos. Pós-moderno, não deixa de ser um clone de Philip Glass, mas tem talento melódico.

O melhor estava por vir: execuções entusiasmantes e precisas de obras dificílimas do século 20: o quarteto no. 4 de Bela Bartók, obra-prima de 1928, marcada por violência e dissonâncias, incluindo o incrível pizzicato percussivo do Allegretto, quarto movimento.

O fecho foi um tributo ao compositor polonês que dá nome ao grupo. O segundo quarteto de Penderecki foi escrito em 1968, no momento da invasão soviética em Praga. A partitura compõe-se de gráficos e emprega variado cardápio de técnicas expandidas. Em entrevista no Recife, onde o quarteto tocou antes de vir a São Paulo, Jeremy Bell contou que seus manuscritos foram tomados pelos russos como planos militares quando Penderecki tentou enviá-los por correio para o exterior. Nada disso está presente na filipeta-programa, que sequer lista os movimentos das obras. É falha grave não dar informações mínimas ao público num repertório como este.

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