Noite de sonho com Kirchschlager

Foi uma noite de sonho. Na plenitude de seus 45 anos, a mezzo-soprano Angelika Kirchschlager levou o público a pouco menos de uma hora de nirvana. É uma mezzo autêntica, com belíssimos graves naturais, capaz das nuances mais refinadas e de fortíssimos sem nenhum esforço. A viagem de sonho já começou com três árias de Haendel. Difícil imaginar interpretação mais sutil de Cara Speme, de Giulio Cesare, com quatro violinos e violoncelo.

João Marcos Coelho, O Estado de S.Paulo

04 de agosto de 2011 | 00h00

O melhor veio na segunda parte. Sete lieder de Schubert, em arranjos levíssimos finamente executados pela Camerata Bern (igualmente competente num concerto "ripieno" de Vivaldi e no quarteto nº 2 de Mendelssohn em versão para cordas).

A doçura de timbre nos versos de Goethe que cantam as rosas dos campos em Heidenröslein; a veemência ambígua da agitação do amor em Rastlose Liebe; a teatralidade justa, sem excessos nem falta, de Erlkönig, rei dos elfos, que Schubert compôs aos 17 anos; e o atrevimento de encerrar com Ellens Gesang III, a popularíssima Ave-Maria - é incrível, mas ela me fez esquecer todos os clichês desta música. Em entrevista ao Estado, Angelika disse que canta por puro prazer, só o que quer. Um prazer de fazer música que se espraiou por toda a Sala São Paulo - infelizmente não lotada nesta noite excepcional.

Mas atenção: música vocal precisa dar ao público a chance de ter os textos em português. Como curtir os deliciosos versos de Goethe e outros poetas sem tradução? Os aplausos após o primeiro movimento do quarteto de Mendelssohn comprovam que boa parte do público era pouco habituado às salas de concerto. Com certeza muita gente se apaixonaria pelos lieder se soubesse que ali pulsam, como nas melhores canções populares de hoje em dia, o amor, o medo, o pânico e o êxtase. Isso é formação de público (nem o texto do programa impresso continha as traduções dos versos).

Adorei o raro extra, o romance A Lua Cheia Brilha, de Rosamunde; mas fiquei esperando em vão, no segundo extra, minha canção preferida, An die Musik. Angelika personificou esta paixão: "Ó arte graciosa que nas horas mais sombrias/ quando a vida me maltratava, me ajudou./ Você preencheu meu coração com o amor mais caloroso,/me levou a um mundo melhor" (versos de Schubert).

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.