Noite de festa latina faz Teatro Castro Alves dançar

Bastou que a orquestra fizesse soar os primeiros acordes do Mambo, de Leonard Bernstein, para que o Teatro Castro Alves viesse abaixo. Composta em boa parte por jovens músicos, brasileiros e venezuelanos, a plateia acompanhou com palmas e gritos de bravo cada compasso da execução, que encerrou na noite de quarta-feira o primeiro concerto da Sinfônica Simón Bolívar no Brasil.

João Luiz Sampaio, O Estado de S.Paulo

17 Junho 2011 | 00h00

O repertório apresentado em Salvador reúne duas obras-chave da música da primeira metade do século 20, Daphnis et Chloé, de Ravel, e O Pássaro de Fogo, de Stravinski, ao lado de duas peças de autores latino-americanos - Santa Cruz de Pacairigua, de Evencio Castellanos, e a Sinfonia Índia, de Carlos Chavez. É um programa feito sob medida para exibir a sonoridade da orquestra - e a musicalidade e o carismo de seu regente, o venezuelano Gustavo Dudamel -, ainda que, em alguns momentos, o faça mais com fogos de artifício do que com desafios musicais.

A sonoridade opulenta e a expressividade das cordas chamam atenção logo de cara no Ravel. A interpretação, no entanto, fala língua diferente da do compositor francês. Dudamel carrega na emoção, constrói efeitos bonitos de dinâmica, mas sacrifica, com uma orquestra muito grande, boa parte das transparências e sobreposições de texturas que marcam a obra do autor - e, com isso, a leitura perde organicidade.

Há elementos semelhantes nas obras de Castellanos e Chavez - ambos trabalham, por exemplo, a riqueza de timbres da orquestra, explorando técnicas de orquestração, e apostam em jogos rítmicos. A escrita de Chavez, porém, é mais sofisticada e, ao contrário de Castellanos, o compositor constrói momentos delicados, quase camerísticos, que sugerem um clima etéreo ao recuperar o imaginário sonoro, ainda que transmutado pela linguagem da música europeia, da cultura indígena. Isso ofereceu aos músicos da orquestra, em especial ao violista Ismel Campos e à flautista Katherine Rivas, a possibilidade de demonstrar seus talentos individuais, em um dos momentos mais tocantes e musicalmente convincentes da noite.

O melhor, no entanto, ficou para o final, com um Stravinski digno da melhor orquestra latino-americana da atualidade. Dudamel fez, com esses músicos, para o prestigiado selo Deutsche Grammophon uma elogiada gravação da Sagração da Primavera e parece bastante à vontade no idioma do compositor russo. O Pássaro de Fogo é anterior à Sagração. Mais curta, leva a desafios diferentes, como a criação, em espaço menor, de diversas imagens musicais distintas. E é isso justamente o que há de mais interessante na regência de Dudamel, que oferece uma leitura repleta de contrastes, que vai do lirismo às passagens quase ritualísticas, sem perder o senso de conjunto. Assim como em Chavez, destaque para os solistas da orquestra, em especial o trompista Rafael Payare, em seu melancólico solo nas seções finais da peça.

No fim, dois extras. Primeiro, a quase brejeira Dança n.º 2, do pouco executado compositor mexicano Arturo Marques. E, então, o Mambo, que fez todo o Teatro Castro Alves dançar. O mesmo programa será apresentado em São Paulo, na terça-feira. Nas demais apresentações, a orquestra interpreta a Sinfonia n.º 7, de Gustav Mahler, uma das especialidades do maestro - e teste para os talentos dos músicos de sua orquestra.

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.