Noemi Jaffe lança 'O Que Os Cegos Estão Sonhando?'

A pergunta ronda o livro "O Que Os Cegos Estão Sonhando?", assim como toda a literatura dos sobreviventes do Holocausto: é possível julgar quem atravessou o inferno e voltou de lá para contar? É obviamente uma questão sem resposta, pois essas pessoas, naquela condição, já não estavam sob o domínio da moral do mundo para além das cercas eletrificadas; ao contrário, a moral dos campos de extermínio e dos guetos não era humana: o conjunto ético resumia-se à selvageria da "lei do mais forte". Cada dia passado nessas circunstâncias era um degrau abaixo na civilização. Ainda assim, algo puramente humano resistiu, e isso está dito não nos depoimentos repetitivos dos sobreviventes, sempre escorados no tripé fome-crueldade-morte, e sim no que não está expresso, na memória trancada no cofre da resiliência silenciosa, a memória indizível. É essa memória que a escritora Noemi Jaffe parece perseguir ao expor o relato que sua mãe, Lili, escreveu quando deixou o campo de extermínio de Auschwitz. "O Que Os Cegos Estão Sonhando?" (Editora 34), que será lançado nesta terça junto com outro livro de Noemi, "A Verdadeira História do Alfabeto" (Companhia das Letras), é um mergulho emocionante na natureza humana.

AE, Agência Estado

13 de novembro de 2012 | 10h28

Lili, que então tinha 19 anos, foi salva em abril de 1945, após 11 meses como prisioneira dos nazistas, e a Cruz Vermelha a levou para a Suécia. Lá, ela decidiu pôr no papel o que estava fresco em suas lembranças sobre a tragédia pela qual acabara de passar. Lili escreveu em forma de diário, como se estivesse vivendo a experiência naquele momento, mas logo as primeiras linhas traem sua condição de narradora do passado: "Todos à minha volta, assim como eu, estamos tristes. Sabemos o que está acontecendo e também o que acontecerá". Poucos sabiam de fato "o que está acontecendo e também o que acontecerá", e muito provavelmente Lili não tinha, no dia em que foi capturada, a menor ideia sobre a terrível realidade dos campos de extermínio, porque os nazistas mentiam aos judeus sobre o que os aguardava. Quando escreveu o diário, porém, Lili sabia perfeitamente sobre o que falava - e o que ela viu não cabe nas palavras existentes.

"Carregavam mulheres vivas, em carroças e caminhões, para o crematório. (...) Eram gritos de lamentações desde a manhã até a noite", escreveu Lili. As referências à fome e ao frio constantes são o fio narrativo. "Chorávamos de frio e de dor. (...) Dormíamos como sardinha em lata. (...) Havia muitos ratos. De noite, depois de termos comido, sentávamos juntas e tentávamos matá-los. Era assim todos os dias e hoje tampouco é diferente."

A fome é onipresente, de tal modo que, na narrativa de Lili sobre os dias posteriores à libertação, há sempre alguma menção à farta alimentação que ela e as primas puderam ter na Suécia. "Admiravam-se do quanto éramos capazes de comer. Depois do almoço ainda tínhamos fome." É notável o choque entre a privação absoluta e a abundância, e Lili não deixa de registrar poeticamente seu regresso ao mundo civilizado: "Aos poucos, vou tomando a forma de um ser humano. Agora as coisas não estão diante de mim como num sonho. Sinto a liberdade e a natureza".

Milhões de mortos depois, Lili precisa acreditar no destino, e Noemi atribui essa crença a uma tentativa de "expiar a culpa de ter sobrevivido". E sobreviver, nesse contexto, significa esquecer. "Que possamos deixar a morte lá, sozinha, no lugar que ela ocupou. Que a morte não venha do passado para assustar a vida de agora", pede Noemi no livro.

De fato, como Noemi mesma diz, há muitos relatos sobre o Holocausto, a maioria dos quais com as mesmas referências, já que os nazistas tentaram destruir até mesmo a possibilidade de que seus prisioneiros tivessem experiências individuais. O livro de Noemi e de sua mãe, porém, não é apenas mais um relato doloroso; é a conclusão de que não há respostas para o que aconteceu. Mas há uma certeza: "É preciso esquecer, é preciso esquecer". Eis a chave para superar um passado tão infinitamente mau. Então, Noemi transforma o relato em um mosaico de perguntas - é, desse modo, uma obra infinita. Embora elabore continuamente sobre a memória, ou seja, sobre as referências do passado, ela não se ancora em nada. Navega ao sabor das percepções contraditórias sobre a grande tragédia da existência. A memória de quem atravessou o mais absoluto inferno é, por isso, "uma caixa preta que caiu no mar". As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.

NOEMI JAFFE

Amoreira (Rua dos Macunis, 510, Alto de Pinheiros). Tel. 3032-5346.

Terça, 19h30 (lançamentos) e 20h30 (sessão de leituras).

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