Nocaute do cisne

Se o espaço para a informação e o debate aumentou com a multiplicação da mídia, aumentou em proporção bem maior para o palpite e o preconceito. Nos assuntos culturais, em especial, desconfio sempre de quem faz distinções nítidas entre amador e profissional, até porque às vezes o profissional tem um olhar tão viciado e pedante que se afasta do espírito da obra de arte; mas interpretá-la sem esforço de compreensão e sem fundamento na opinião só nos vai deixar menos livres. Mesmo a resenha que tem certo número de linhas anda parecida demais com as estrelinhas dadas nos guias, os achismos lançados em twitters, o "curti" ou "não curti" das redes sociais. O crítico precisa conhecer técnica e história para primeiro entender o que o artista quis fazer e depois dizer se gostou ou não (se não disser se gostou ou não, vai se render à mentira de que houve total imparcialidade naquela leitura).

DANIEL PIZA, O Estado de S.Paulo

13 de fevereiro de 2011 | 00h00

Dou como exemplos dois filmes de que não gostei muito, mas que dizem coisas que os críticos que li mal mencionaram: O Vencedor e Cisne Negro, dois candidatos ao Oscar. A começar pelas aproximações entre ambos. Tanto a bailarina que precisa desvendar seu lado obscuro e recalcado quanto o boxeador que precisa enfrentar a influência do irmão talentoso e invejoso são criados por mães repressivas, sufocantes, e apanham literalmente na carne para atingir seu objetivo maior. Freud detestava os EUA e os americanos foram rápidos em contestá-lo, mas a cultura americana continua freudiana em muitos aspectos... Nos dois filmes, trata-se de lidar com a própria formação (ou deformação) para manter a concentração e aprimorar a técnica. Ironicamente, se o boxeador tenta o caminho da conciliação, a bailarina não vê senão o da autodestruição. E você achava que boxeadores fossem agressivos e bailarinas, delicadas.

Cisne Negro é dirigido por Darren Aronofsky, o mesmo de O Lutador, com Mickey Rourke, e partilha com ele o gosto grandguignolesco por cortes profundos, dores lancinantes, choques carnais. Mas é muito diferente, porque ali se trata de um sujeito ciente de sua decadência. A bailarina, não; ela se vê como a boneca que sua mãe, frustrada na carreira, quer que ela se veja, até que o coreógrafo (Vincent Cassel) a pressiona para que saiba ser também o cisne negro. Natalie Portman faz muito bem essa figura de porcelana, virginal, prestes a se espatifar, e estranhamente alguns críticos reclamaram dessa pose hierática. Mila Kunis é sua Nêmesis, a concorrente sedutora e relaxada, e aprofunda a confusão em seus sentimentos a respeito da mãe, da "ídola" (Winona Ryder) e de sua sexualidade (em relação ao coreógrafo e à própria colega). Portman faz essa passagem como só podia ser: súbita e descontrolada.

Estamos claramente em terreno romântico, em que sexualidade e mortalidade se confundem, extremos se atraem e se repelem, alucinações revelam desejos ocultos e ingovernáveis. Mais uma vez, o diretor foi criticado por isso, mas não é esse o terreno do Lago dos Cisnes, de Tchaikovski? O foco é outro: o motivo e o modo de replicar uma visão de mundo de 200 anos atrás. Aronofsky poderia alegar que a atualizou ao usar características contemporâneas, como essa tendência à violência kitsch, maneirista. Acontece que justamente ela tira do romantismo seu traço mais moderno, a ironia, o distanciamento em relação à própria narrativa; nem tudo era "over" assim, tão literal e linear. O roteiro entrega o desfecho logo no começo, pela boca do coreógrafo, e a partir da metade se converte a um gênero só, o terror, como que satisfeito em impactar os sentidos e não a mente, os reflexos e não a reflexão.

O Vencedor, de David O. Russell, tem o mérito de não se comprazer nos closes sanguinolentos. Não deixa de ser um filme sobre boxe, com todos os clichês de filmagem do gênero (a câmera lenta na boca que leva o soco e lança fluidos, etc.), mas não é apenas isso, assim como Cisne Negro não é um filme sobre balé. Se a bailarina tem técnica e não paixão, o boxeador (Mark Wahlberg) tem um repertório curto e uma resistência ampla. Seu irmão mais velho (Christian Bale), que tenta retornar aos ringues, era melhor que ele, pela variedade e agilidade, mas sem autocrítica para combater os próprios defeitos, a tal ponto que vive da lenda de que levou Sugar Ray Leonard à lona (e que, numa das grandes cenas do filme, educadamente o deixa em plano patético). Está entregue ao crack, aos 40 anos, mas continua divertido, extrovertido e, também por isso, o filho perfeito da mamãe e o irmão mimado das irmãs bruacas. O caçula é tímido, honesto, pontual - o antípoda apolíneo do primogênito. Para completar, arranja uma namorada bonita e saudavelmente atrevida (Amy Adams).

Por ironia (olhe aí de novo), a diferença entre os personagens é ampliada pela diferença entre os atores. Wahlberg exagera na sem-gracice; Bale dá um show com olhos rútilos e gestos inquietos e não pode ser culpado por isso. No entanto, o filme, já esquemático no argumento, assim fica ainda mais. A tensão da situação é que sustenta nosso interesse. O irmão mais novo passa a ver o que há de nocivo na interferência do mais velho, mas, no primeiro momento em que o contesta, é quando se dá conta de como precisa do conhecimento dele. Bem, acho que sua opção não era apenas binária, tê-lo como treinador ou partir (o "barraco" tinha ido além de qualquer conta, e há muita gente que entende de boxe), mas ao menos queria enxergar melhor esse movimento de sua psique provinciana. O filme esfria e marcha para o óbvio - como o título brasileiro escancara - e antes de Micky Ward ter suas lutas mais memoráveis.

Os dois filmes falam sobre a superação dos obstáculos mais difíceis, os interiores, e não conseguem ir a fundo, bastando-se em superfícies distintas. É fato que o corpo expressa os conflitos da mente, seja na irrupção de sentimentos que a bailarina desconhecia em si mesma (competitividade, erotismo, revolta), seja na linguagem dos movimentos do rosto, dos braços, dos modos de caminhar de cada boxeador (que se manifesta também nas estratégias de luta). E é fato que trabalhamos com dicotomias, com polarizações, com as quais às vezes rompemos sem volta, às vezes com volta. Mas muitas obras de arte já fizeram isso, de forma mais rica, ambivalente. Senti, pensei e não me encantei.

Zapping. Por falar em "barracos", o que é essa novela das nove? Não passa um bloco sem as pessoas gritarem, chorarem, xingarem e baterem. Romance é detalhe e o humor, nenhum. Até no Big Bobo Brasil tem mais paz.

Por que não me ufano (1). O governo de Dilma Rousseff, por mais que ela já seja bajulada por seu perfil supostamente "técnico", até aqui parece mais interessado em fazer movimentos que esvaziem a desconfiança nos números da economia. A inflação está em alta e as contas públicas em péssimo estado, por isso o ministro Mantega anunciou cortes que seriam de R$ 50 bilhões nas despesas. Mas a maior parte é de emendas parlamentares que compunham o aumento do orçamento em relação ao ano anterior; ou seja, são gastos do futuro, não do passado ou do presente. Tudo indica que o anúncio visava a criar um clima de credibilidade. O efeito foi o contrário.

Ainda assim, é curioso como ninguém se dá ao trabalho de notar que esse descontrole nos gastos veio das medidas tomadas por Lula durante a crise de 2008, quando Dilma era sua "primeira ministra", medidas que o mercado aplaudiu porque injetaram dinheiro em setores que geram mais emprego e consumo. Acontece que o movimento inverso, de aliviar o setor produtivo de modo amplo e duradouro com corte de impostos e burocracias, continua inédito na história do Brasil. Em 2010, ciente de que o PIB de 7% dava belo cartaz eleitoral, o governo continuou gastando a rodo. Pseudokeynesianos juram que aumentar gastos públicos não gera inflação, mas eis o fantasma de volta.

Outro tema quase ausente é o do custo de vida, que os índices de inflação nem sempre medem direito. Em cidades como São Paulo, está em níveis absurdos. Tudo, absolutamente tudo, aumentou acima da inflação do ano passado para este. Ônibus, metrô, IPVA, IPTU, escolas particulares, carne, livro, táxi, restaurantes, médicos - todos os itens subiram mais que os 6% do IPCA do período. Já o salário, como diria Chico Anysio, ó... Vivemos numa sociedade em que o governo nos leva quase 40% do que ganhamos e nos obriga a gastar mais 40%, no mínimo, em serviços que, considerando tal carga tributária, deveria prover - ao menos para a grande maioria da população - muito mais e melhor, como saúde, justiça, educação e segurança.

Por que não me ufano (2). E o que dizer dos serviços, públicos ou privados, de que dispomos? Tenho relatado algumas agruras recentes, porque sei que o leitor também é submetido a elas quase todo dia. E dizem muito sobre o estado da sociedade, de seus valores. Há um mês, por exemplo, um carro bateu na traseira do meu. Por uma semana, precisei ligar para o motorista para que informasse o sinistro à sua seguradora, Liberty, e fui obrigado a ouvir que a culpa "também" foi minha, porque teria freado bruscamente, e a sugestão de que os gastos fossem divididos ao meio... Depois, passei mais uma semana até conseguir agendar a vistoria em meu carro e mais outra até ele ser informado de que deveria fazer no seu também. Uma semana se passou desde então e, apesar de meus telefonemas diários, a liberação do reparo não veio.

Liberdade não existe sem respeito aos direitos de cada um. Dizem que o Brasil é um país único pela "capacidade de abraçar as diferenças". Vai ver, abraça tanto que asfixia uma a uma...

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