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Roberto DaMatta
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Noblesse oblige (2)

Como outras senhoras da vizinhança, minha avó tinha os "seus pobres" e, numa pesquisa que fiz num bairro paulistano que se definia como "pobre", eu ouvi que a pobreza era uma prova para a riqueza. Quem esquece o outro lado: a dimensão trivial que a legitima porque interliga, torna-se um prisioneiro da sua condição. Aí está a fonte da desigualdade que suprime a diversidade.

Roberto Damatta, O Estado de S.Paulo

03 Dezembro 2014 | 02h05

Naquele tempo, alguns pobres ganhavam um "prato de comida", certos de que o recebido deveria ser dado com consciência e as parcimônias da virtude burguesa. Os que não podiam sequer demandar ou exigir e, envergonhados, pediam um "de comer", recebiam a dádiva pois seus doadores - quem sabe? - podiam virar pedintes. Os pobres comiam sentados, mas eu - um menino com a cabeça de velho; hoje eu sou um velho tentando não perder a cabeça de menino - os via ajoelhados.

O "noblesse oblige" ocorre quando o poderoso se sente no dever de produzir o "dom" que fertiliza e traz o palco da vida à sua totalidade - os seus extremos. A sociedade na qual ele nasceu em "berço de ouro", ao lado do sistema que, por isso mesmo, produziu os que nascem entre sangue, fezes e urina. Parece frescura, mas o "noblesse oblige" é cobrado justamente dos que graças à sua inteligência, perseverança, e a sua ambição honesta ou canalha chegaram aos mais altos cargos da nação. Esse cacofônico "da-nação" inconsciente e significativamente remete às jaulas que, muitas vezes, destroem quem trai esses cargos.

Muitos milionários e famosos tendem - pensem em Howard Hughes ou Greta Garbo - a se fechar em copas e no labirinto de suas personas perdem contato com esses "outros". Com os admiradores que os tratam como deuses. E em deuses eles realmente se transformam porque suas vidas exemplificam as fissuras pelas quais conseguiram passar para chegar a esse reino dos bem-aventurados. Dos supostamente livres de problemas como grana, doença e sofrimento. Dos que demonstram que se pode sair da extrema pobreza para algo ainda maior do que a riqueza, porque eles são o testemunho vivo de que a fortuna, a sorte e a ascensão social existem e têm legitimidade num mundo que diz que somos todos iguais, em certas circunstâncias. Algo difícil de confiar para muita gente - inclusive para quem escreve essas linhas.

Suas biografias enfatizam o acaso e o senso de oportunidade. E, quando o nível da fama chega ao máximo, eles fazem com que os seus admiradores chorem pelo milagre de os encontrarem em carne e osso - porque eles não acreditam que estão diante dos seus ídolos. Nesse ponto, os famosos viram divindades e são expulsos do mundo rotineiro. Não podem mais comprar um jornal ou assistir a um filme. O "noblesse oblige" próprio das divindades obriga ao sorriso e aos autógrafos, produz paciência ao assédio e - eis o paradoxo - faz com que os ídolos sintam saudade dos velhos tempos, quando eram humanos como nós, pois agora - devidamente enjaulados pela celebrização - eles fingem serem pessoas comuns para poderem viver neste nosso mundo de carências e mediocridades do qual escaparam.

Diante dos fãs que fanaticamente os construíram, eles muitas vezes se autodevoram e se destroem nas fantasias do sexo, da comida, das drogas ou no "mero álcool" que não é assim tão trivial, como canta a famosa balada de Cole Porter, I Get a Kick Out Of You. Tal foi o caso trágico de Richard Burton, o galês filho de um mineiro que, no seu diário, pensa com pesadas dúvidas se realmente era o maior, o mais rico e o melhor ator do mundo ou um recitador bobalhão e magistral de frases alheias, elevado ao cume por uma brutal ambição e por um casamento com uma outra celebridade. Ter demais é tão penoso quanto ter de menos; e o pior é que uma coisa sempre leva a outra.

Os poderosos recebem o direito de "governar", mas, em democracias, governar não é possuir e trapacear, mas administrar a chamada "coisa pública" com "noblesse oblige". Com um máximo de honestidade e consciência de bem servir e não de ser servido. Coisa difícil porque os "políticos"têm dois lados. À direita pertencem à cidade, ao estado e, acima de tudo, ao país a quem devem a difícil e assassinada "noblesse oblige"; e, à esquerda, ligam-se aos seus redutos ideológicos e partidários. No caso brasileiro, ao seu desejo de fama e sobretudo de grana - de muita, muita grana, porque o seu modelo de vida é absolutamente aristocrático e oposto a um austero e, estou convencido, a um impossível republicanismo.

Em meio a essas correntes antagônicas e dependendo de seus lacaios, eles podem passar de representantes dignos (filhos de Deus) a triviais e vergonhosos ladrões do povo ou f.d.p! Como afirmava Herbert Block, um notável chargista americano - um Chico e Paulo Caruso deles -, repetindo o fundador da sociologia moderna, Émile Durkheim: "Aceitar a corrupção é uma forma de corrupção". Ou como proferia o mestre francês: quando um mal a ser evitado é procurado e vira um valor ou um ideal a ser seguido, como ocorre no Brasil, hoje dono de uma jamais vista ladroagem, então amigos, não é mais a nobreza que obriga, é a corrupção. Ou estou enganado?

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