Nobel sul-africano lê seus escritos e decepciona fãs em Paraty

O escritor sul-africano J.M. Coetzee, prêmio Nobel de Literatura de 2003, viajou quase um dia inteiro de avião da Austrália a Paraty apenas para ler, durante uma hora, excertos de seu próximo livro, Diário de Um Ano Ruim. Nem precisava. Bastava ter recomendado a seus fiéis leitores, decepcionados com sua fria exposição, no sábado à noite, que lessem Os Irmãos Karamazov de Dostoievski. Pela amostra grátis de Diário de Um Ano Ruim, está tudo lá: do sonho do racionalista Ivã com o demônio (reciclado na primeira "opinião branda" do livro de Coetzee) ao sentimento de que o pai morto Fiodor Karamazov é mais que uma grande metáfora do escritor russo para o Pai ausente, com maiúscula. O grande Coetzee, autor de Desonra, sua obra-prima, agora deu para parodiar os grandes mestres e a si mesmo. Seu livro, ao que tudo indica, é uma grande "collage" literária de Dostoievski, Tolstoi, Beckett e de seus escritos mais antigos, entre eles o próprio Desonra.Diário de um Ano Ruim deve ser ainda mais pessimista que Desonra, seu primeiro livro pós-apartheid. Nele, o escritor revela sua suspeita de que nenhuma mudança política é capaz de acabar com a miséria humana. Talvez não seja mesmo, mas por que, então, o discurso moralista de Coetzee, que iniciou sua leitura com uma "opinião forte" sobre as diferenças entre o sofrimento corporal dos animais e dos seres humanos, culpando o mundo que consome carne por todas as desgraças do mundo? Antes que o leitor pergunte, o mundo, para Coetzee, pode ser separado entre "opiniões brandas" e "opiniões fortes". Seu livro é dividido por capítulos que misturam ficção com ensaio literário e crônica. Um produto híbrido, portanto, mais inclinado a aceitar os princípios filosóficos de Nietzsche que o pensamento cristão de Alieksei, a reserva moral do narrador da saga dos Karamazov, irmão do pessimista Ivã e mais chegado a Dostoievski do que talvez ele desejasse. E, também, por que não, parecido com Coetzee, que, humildemente, admite sua impossibilidade de escrever uma obra tão densa como Os Irmãos Karamazov.Seu livro traz reflexões não apenas sobre a literatura de Dostoievski, que reconhece como uma fronteira literária, impossível de ser ultrapassada até mesmo por um Nobel. Nele estão reunidas reflexões sobre o pensamento econômico de Adam Smith, a crise religiosa de Dostoievski, o cinismo de Jonathan Swift e o ceticismo do historiador australiano John Bradley Hirst, passando por uma pensata sobre masturbação. Diário de um Ano Ruim é uma enciclopédia filosófica. Alguns verbetes revelam argumentos frágeis, como o dedicado ao mito de Orfeu e Eurídice, em que Coetzee julga dar a palavra final sobre o tema da história, segundo ele a solidão da morte, e não a força do amor. Eurídice acredita que Orfeu a ama a ponto de salvá-la no inferno, mas no fim, diz Coetzee, o amor de Orfeu não é o forte o bastante e retorna à vida, abandonando-a. O além-túmulo, diz o escritor, é um lugar "triste e parado".Outros verbetes dessa enciclopédia meio Bouvard e Pécuchet surpreendem pelo tom confessional, como o fetiche de Coetzee por vestidos vermelhos e pés calçados com sandálias de dedo, dessas do tipo que dão a volta nos tornozelos das vítimas femininas. Sua descrição do encontro com a vizinha de vestido folgado e de seu derrière "próximo da perfeição" é tão puritana que talvez seja recomendável a Coetzee ler um pouco mais de Nabokov e deixar um pouco as preocupações metafísicas de lado.A citação anterior a Flaubert não é casual. Ao elaborar seu patchwork filosófico-existencial que fala sobre tudo, de programas de culinária à matança de bois em Port Said, passando pela devolução de terras a aborígines australianos, Coetzee embarca na mesma viagem sem volta de Bouvard e Pécuchet. O conhecimento, às vezes, não serve para nada se você não enxerga o outro. Ele, um especialista na obra de Beckett, autor que sempre tratou da interdependência e da impossibilidade de comunicação, deveria saber disso. Pelo jeito, não sabe. Sai após uma hora de leitura no palco e não voltou nem para agradecer os aplausos. Malcriado.

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