Nobel de Literatura 2006 é concedido ao turco Orhan Pamuk

O escritor turco Orhan Pamuk, cujo indiciamento por "insultar a cultura turca" levantou preocupações sobre a supressão da liberdade de expressão no país, é o ganhador do Prêmio Nobel de Literatura 2006, comunicou nesta quinta-feira a Academia Sueca da Língua. Pamuk, de 54 anos, receberá o prêmio como um escritor que "em busca da alma melancólica de sua cidade natal encontrou novos símbolos para refletir o choque e a interconexão das culturas", segundo a explicação do júri.Pamuk era um dos mais fortes candidatos ao Nobel. A decisão, que surpreendeu a poucos, foi recebida com uma curta, mas intensa, salva de aplausos. Alguns de seus romances mais conhecidos são "Meu Nome é Vermelho" (Cia das Letras, R$ 60) e "Neve" (que será lançado no Brasil neste mês - leia ao lado).Em janeiro, uma corte turca descartou acusações contra Pamuk, pondo fim a um julgamento que preocupou observadores ocidentais e levantou dúvidas sobre o comprometimento da Turquia com as liberdades individuais.Pamuk foi levado a julgamento por dizer a um jornal suíço, em entrevista publicada em fevereiro de 2005, que a Turquia tem dificuldades de lidar com dois dos episódios mais dolorosos da história recente do país: o genocídio de Armênios durante a 1ª Guerra Mundial e os recentes embates com a guerrilha curda no sudeste do país."Trinta mil curdos e 1 milhão de armênios morreram nessas terras, e ninguém ousa falar sobre isso a não ser eu", disse ele na entrevista.Ao agredecer pelo prêmio recebido nesta quinta-feira, ele comentou as divisões entre ocidente e oriente. "Lamento que a existência de dois pólos culturais, Oriente e Ocidente, tenha sido co-responsável pela morte de muitas pessoas", disse o escritor, em Nova York, revelando-se honrado com a premiação. A escolha de Pamuk acontece em um momento particularmente sensível no país de maioria muçulmana. A Turquia iniciou recentemente negociações para se tornar membro da União Européia, mas o bloco criticou o julgamento de Pamuk e de outros escritores acusados de traição por nacionalistas turcos.Segundo o presidente da academia suéca, Horace Engdahl, a situação política na Turquia não afetou a decisão. "É claro que (a decisão) poderá levar a alguma turbulência, mas nós não estamos interessados nisso", disse ele. "Ele é uma pessoa controversa em seu próprio país, mas outros vencedores do prêmio também foram."Engdahl acrescentou que Pamuk foi escolhido por ter "alargado as raízes do romance contemporâneo" através da ligação entre as culturas Ocidental e Oriental.O escritor nasceu em 1952 em uma família de classe média alta. Seu pai e seu avô eram engenheiros. Em sua juventude, sonhava em ser pintor, mas estudou arquitetura e jornalismo. O escritor viveu nos Estados Unidos de 1985 a 1988, convidado pela Universidade de Columbia de Nova York e depois da Universidade de Iowa. Outros prêmiosO Nobel de Literatura 2005 foi para o dramaturgo britânico Harold Pinter e, em 2004, foi concedido à austríaca Elfriede Jelinek.O anúncio do prêmio de Literatura é o penúltimo da "rodada dos Nobel", que será encerrada na sexta-feira com o da Paz, que será divulgado em Oslo.Os prêmios do ano em Medicina, Física, Química e Economia foram para pesquisadores americanos. Na segunda-feira da semana passada, o Nobel de Medicina foi para Andrew Z. Fire e Craig C. Mello, por seus trabalhos no campo da genética. O de Física, no dia seguinte, foi concedido aos americanos Johan C. Mather e George F. Smoot, por suas investigações sobre o eco do "Big Bang". O Nobel de Química, na quarta-feira, foi para o americano Roger D. Kornberg por seus estudos sobre a base molecular da transcrição eucariótica. O de Economia, nesta segunda-feira, foi para Edmund S. Phelps, por suas análise em política macroeconômica.O Nobel de Literatura concede 10 milhões de coroas suecas (US$ 1,4 milhões) ao ganhador e será entregue em 10 de dezembro, aniversário da morte de Alfred Nobel.Texto ampliado às 10h53

Agencia Estado,

12 de outubro de 2006 | 08h32

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