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Nobel Alice Munro dedica-se à vida minúscula em dois livros

Comparada a Chekhov, canadense foi premiada por sua maestria no conto

Antonio Gonçalves Filho, O Estado de S. Paulo

20 de dezembro de 2013 | 20h26

Dois livros da ganhadora do Nobel deste ano, Alice Munro, de 82 anos, chegam às livrarias a tempo de conquistar novos leitores às vésperas do Natal. Ambos merecem ser presenteados a amigos, pois reúnem alguns dos melhores contos da escritora canadense, justamente premiada por sua maestria no gênero. Delicada como Chekhov, a quem foi comparada por Cynthia Ozick, e incisiva como Flannery O’Connor, Alice Munro faz no mais recente, Vida Querida (de 2012), um balanço da própria vida, oferecendo ao leitor as quatro únicas narrativas autobiográficas publicadas por ela. Já em Ódio, Amizade, Namoro, Amor, Casamento (2001), uma de suas coletâneas antológicas, em segunda edição, estão reunidos alguns conhecidos contos, como O Urso Atravessou a Montanha, que deu origem ao comovente filme Longe Dela, com Julie Christie no papel de uma senhora com mal de Alzheimer que não mais reconhece o marido e se envolve com um paciente na clínica onde está internada.

Além desse conto se destacam no livro três outros: o que dá título à coletânea, Ponte Flutuante e Mobília de Família. Todos evitam a progressão temporal óbvia para jogar o leitor num redemoinho disjuntivo. O mais vertiginoso, Ponte Flutuante, tem como figura central uma mulher de meia-idade que, sofrendo de câncer e no fim do tratamento quimioterápico, recebe do médico a notícia da remissão da doença. Já Mobília de Família antecipa alguns temas presentes nos últimos quatro textos autobiográficos do outro livro, Vida Querida. Munro coloca-se numa posição um tanto perigosa, ao assumir a persona de uma narradora fria que conta a história de sua excêntrica tia Alfrida, mulher liberada que trabalha para um pequeno jornal e se relaciona com homens casados.

A vida provinciana é o foco narrativo da escritora, que ambienta suas histórias no sudoeste de Ontário, onde nasceu e publicou seu primeiro conto, As Dimensões de uma Sombra, em 1951. Há sempre algo de surpreendente nesses contos sobre o cotidiano de vidas ordinárias, minúsculas, que podem se transformar graças ao verbo, caso da mulher que descobre sua vocação de escritora no citado conto Mobília de Família.

No livro mais recente, Vida Querida, Munro transfere-se para outro território sem abandonar os provincianos. A diferença é que nos contos mais recentes a reviravolta na vida dos personagens é radical, movida por uma força superior muitas vezes anunciada por premonições, fazendo suspeitar que a autora oscila em sua fase madura entre um chamado religioso e a razão secular. Há mais violência em Vida Querida, o que reforça o parentesco literário com Flannery O’Connor. Há também mais solidão. A doença impera em muitos desses 14 contos, jogando ao desespero personagens como o do policial viúvo de Deixando Maverley, que perde a mulher e termina o conto seguindo os próprios passos, numa trajetória bergsoniana em que o tempo passa a não importar depois de uma perda irreparável.

O segundo conto de Vida Querida, Amundsen, é um exemplo clássico das reviravoltas provocadas pelas elipses e o desprezo pela sequência linear dos acontecimentos – marca da escritora canadense. Como de costume, há sempre alguém de olhar perdido sentado numa estação de trem ou de ônibus nesses contos – e Amundsen não é exceção. Munro brincou certa vez, dizendo que um conto não é uma estrada pela qual se segue, mas um casa desconhecida onde se entra e se descobre quartos e corredores, quase um labirinto em que o narrador busca o sentido do núcleo familiar. Vivien, a professora a caminho do trabalho, uma casa de saúde para tratamento de crianças tuberculosas, é um desses corações solitários. Ela reencontra um (im)possível amor para o perder para sempre. Desolador.

VIDA QUERIDA

Autora: Alice Munro

Tradução: Caetano W. Galindo

Editora: Companhia das Letras (316 págs., R$ 37)

ÓDIO, AMIZADE, NAMORO, AMOR, CASAMENTO

Autora: Alice Munro

Trad: Cássio de Arantes Leite

Editora: Globo (360 págs. R$ 44,90)

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