Nelson Antoine/AP
Nelson Antoine/AP

No último show, faltou entrega

Quando quer, ela mostra talento, mas deixa a desejar em sua estreia paulista

Jotabê Medeiros, O Estado de S.Paulo

17 de janeiro de 2011 | 00h00

As pessoas parecem ir até Amy Winehouse com dois tipos de atitude preventiva: a primeira, a de fazer sua defesa incondicional, irrestrita, e acusando seus detratores de caretice, de querer o aniquilamento de Amy por "inveja"; a segunda, é a atitude de chegar com uma opinião premeditada, com a intenção de destroçar o hype, a idolatria, reduzir tudo a uma condição mais terrena.

Há também os que mantém uma perene desconfiança: o coté "pé na jaca" de Amy é falsificado ou é de verdade? E se for falsificado? Diminui a importância dela? Se ela morresse no palco seria mais divertido?

Ao finalmente se apresentar para os paulistas, no palco do Anhembi, fungando e limpando o nariz sistematicamente, Amy manteve o mistério: nenhuma das atitudes acima teve sucesso após 1h12 de show.

Suas tatuagens parecem grafites em muros demolidos, mas as corridinhas pelo palco com as pernas bambas e a doçura com os músicos mostravam um "monstrinho" comportado, uma personalidade leal por trás do mito. Afora umas blagues com o baixista e o vocalista Zalon, miss Winehouse foi toda simpatia e correção. A voz é que é um mistério - quando ela quer, ela mostra potência, cantando a 50 cm do microfone com competência. Mas aí há as falhas e a imprecisão e ela "atravessa" algumas vezes também. Poderíamos defendê-la dizendo que Amy, como Billie ou Nina Simone, incorpora a "sujeira" no canto, mas Cat Power também (e sua voz não desaparece nem esquece as letras).

Muitos leem as entrevistas de Amy freneticamente, sempre esperando que a diva diga algo inteligente, mas ela nunca pareceu ter a mínima ideia do porque canta o que canta da forma que canta - tal qual um Garrincha do pop. Desde que surgiu, o fenômeno Amy embute uma questão fashion, outra questão comportamental, outra questão estética.

A questão fashion, a salada retrô, já tem mais de 5 anos de existência e parece ter se exaurido. O topetão cansou e não se reciclou. Já a questão comportamental segue forte: Amy sugere, em especial às garotas, que é sempre possível endurecer sem perder a ternura (You Know I"m No Good), que é possível ser feliz vivendo com intensidade. "Nunca é seguro para nós, nem mesmo de noite, porque eu tenho andado bebendo", diz o verso da canção que abriu o show, Just Friends.

Já esteticamente, o estilo é mais uma reverência britânica ao som roots norte-americano de dor de cotovelo de Etta James (e, claro, aos grupos de garotas negras dos anos 1950/60). Usa bem beats clássicos de R&B, como os dos Specials, e envenena baladas com uma ética moderna.

Amy é também uma estratégia de antiglamour que bebe na fonte do glamour. Ao encampar em seu repertório canções como o tango Boulevard of Broken Dreams, de 1934 (composta para o espetáculo Moulin Rouge, célebre como Gigolo e Gigolette e pinçada do repertório de Tony Bennett), ou o rock"n"roll Stagger Lee (de Lloyd Price, dos anos 50), Amy embaralha os tempos, as referências. Daí ela vem com a versão underground para o glamour - é o que acontece, por exemplo, em I"m on the Outside Looking In, de Little Anthony and the Imperials.

O show de Amy no Anhembi não foi bom, sejamos francos. Não é por ser em arena, em espaço amplo - há três anos, ela fazia esses shows com entrega e visceralidade. Anteontem, ela cumpriu a agenda, demonstrando não estar nem um pouco interessada no sentido dos versos que cantava. De vez em quando, era apenas gasguita em sua indolência. Talvez volte a ser o que já foi, mas não foi dessa vez.

SEM REABILITAÇÃO

SERVIÇO MÉDICO

Absurdo total: ambulatório ficou na área VIP. Garota desmaiou e seguranças não queriam deixar entrar. Outra garota foi agredida ao tentar atendimento.

CERVEJA DE MENOS

Suprimento de cerveja acabou no meio do show de Janelle e quando voltou, voltou quente

TELÃO SUMIU

No show mais aguardado dos últimos 5 anos, o telão falha. Pode, Arnaldo?

ÁREA VIP INCHADA

Espécie de praga do show biz nacional, o cercadinho VIP já chegou até às casas fechadas, como a Via Funchal. E está se expandindo.

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