No trabalho atual, diretores retomam a vertente da amizade

O longa anterior dos irmãos Pretti e dos primos Parente era conceitual. Estrada para Ythaca seguia seus personagens na estrada para marcar presença em relação a temas e conceitos fundamentais do cinema. Num determinado momento, os protagonistas, os próprios diretores, reproduziam a célebre cena de Vento do Leste, de Jean-Luc Godard, em que Glauber Rocha apresenta duas vias para o cinema.

Luiz Carlos Merten, O Estado de S.Paulo

16 de setembro de 2011 | 00h00

O caminho é agora inverso em Os Monstros. Se antes o quarteto se jogava na estrada, aqui dá marcha à ré. Todos os caminhos levam à cidade, embora os conflitos básicos - amizade, afeto, identidade - permaneçam basicamente os mesmos. O método acompanha a mudança. "No Estrada, éramos só nós no carro, os quatro que faziam tudo. Aqui, conseguimos agregar mais gente. Como tínhamos um set, mais gente colaborou. E nós tivemos diretores de fotografia para cenas pontuais. No Estrada, éramos só nós na fita."

Os Monstros retoma a vertente da amizade. São de novo quatro amigos e suas necessidades e frustrações. O conceito é básico - "Nenhum homem pode ser considerado um fracasso, se tem amigos." Refletindo sobre o próprio trabalho, Ricardo Pretti analisa o que há de mais interessante no filme. "Acho que dá para perceber claramente uma evolução nossa, enquanto realizadores. Existe precariedade, e ela faz parte do nosso trabalho, mas este é um filme bem mais acabado. Eu, pelo menos, sinto nossa evolução."

Muitas cenas foram extremamente pensadas e executadas para atingir um efeito estético. A mais emblemática envolve um complicado movimento de câmera, com reflexo de espelho, enquanto um dos personagens toca. Não se trata de mero virtuosismo. O clima da cenas faz parte da interiorização do relato. Estrada realizava um movimento para fora. Aqui, o movimento é para dentro. A mulher participa de forma mais intensa do que no primeiro filme. A dor dos personagens é mais genuína.

Por seu duplo aspecto, estético e econômico, o cinema dos irmãos Pretti e dos primos Parente talvez seja a grande novidade do cinema brasileiro atual. E eles já começam a ganhar o exterior. "Ainda não fomos para os grandes festivais, mas estamos fazendo um circuito muito bacana e o público reage às nossas propostas. Fazer cinema está sendo uma festa."

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