No tempo das diligências

É uma cena clichê de faroeste. O xerife irrompe pela porta do saloon e anuncia que os bandidos estão se aproximando da cidade. Ele tem a credibilidade de um Jimmy Stewart. Os fregueses do bar são extras escolhidos para aparentar pouca inteligência. Como o espectador pode duvidar de Jimmy Stewart? Ou Gary Cooper? Ou Burt Lancaster?

Lúcia Guimarães, O Estado de S.Paulo

06 de setembro de 2010 | 00h00

No faroeste da mídia em evolução há sempre um personagem masculino oferecendo sua testosterona e massa cinzenta para os rebanhos de sofridos atropelados pela mudança tecnológica. Noto que boa parte do que se escreve sobre o apocalipse ou a revelação da "nova" mídia é de autoria masculina. Neste final de verão do descontentamento nova-iorquino, mais um manifesto andou inspirando debates e entrevistas.

Um artigo publicado pela revista Wired bradou: "A Web Está Morta. Longa Vida para a internet". Os autores são Chris Anderson, aquele do livro Free (Grátis), já comentado por esta coluna, e Michael Wolff, um escritor e crítico de mídia da estirpe que o Paulo Roberto Pires sensatamente definiu como o dardo que se promove à custa do alvo (não há uma epidemia dessa espécie entre nós, caros leitores?)

Os autores explicam a diferença fundamental entre a Web e a internet. A Web é a lama onde usuários de browsers chafurdam em busca de informação indiscriminada. Se a Web é um browser, a internet é o encanamento, o mecanismo de distribuição do futuro. Websites, dizem eles, são uma coisa do passado.

A internet está progressivamente sob o controle de indivíduos e corporações. Assim como o número de ferrovias norte-americanas foi drasticamente reduzido quando os capitalistas entenderam a rentabilidade do negócio, a internet vai ser dominada por aplicativos, jardins para membros de seus clubes, como já ocorre entre os usuários de celulares que usam o modelo do iPhone. Neste mundo, lembra Anderson, o Google não manda.

Sabemos que o Google não é exatamente administrado por personagens sonolentos da Praça da Alegria, a julgar pelo número de anúncios recentes, inclusive na área de telefonia.

A democracia da Web produziu o cenário de qualquer um poderia ser alguém, mas a farra desta breve democracia populista está com os dias contados, segundo os dois profetas do saloon internauta. A Web não funcionou como modelo capitalista. Não conseguiu arrecadar dinheiro nem gerou modelos corporativos viáveis.

Novas corporações, como Facebook e a Netflix vão monopolizar nossa atenção e nossos bolsos. O Facebook não é a Web. O Facebook não quer que as pessoas fiquem na Web, querem que elas circulem apenas no seu território.

Os aplicativos são instrumentos de segregação porque são rentáveis. Assim a Web se torna mais marginalizada, é uma área limitada da experiência online. Em parte, dizem os autores, o Google provocou essa reação ao assumir o controle da Web. O que vemos é uma reação corporativa à primazia do Google. E a Apple, a pioneira dos aplicativos, capitaneou a revolta. Steve Jobs apostou com brilho na ideia de que a escolha indiscriminada tem atrativo limitado para o consumidor. Nós gostamos da ideia da escolha inesgotável, mas, na nossa rotina, gostamos de selecionar. E as plataformas, como Facebook e iTunes, oferecem esse conforto do filtro.

Chris Anderson declara que a Web não é a consagração da revolução digital. Ele argumenta com a previsão recente da Morgan Stanley: em cinco anos, o número de usuários que vão acessar a Net em aparelhos móveis vai ser mais alto do que os que vão acessá-la via PC. E, quando as telas encolhem, os aplicativos se tornam ainda mais úteis. Usar a Net, então, é muito diferente de usar a Web. Puxando a brasa para a nossa estimada sardinha, surfar no Estadão não é a mesma coisa do que surfar na Web.

Os ciclos capitalistas envolvem absorção de tecnologia, seguidas de tentativas de controle. Aos 20 anos, a internet, que nasceu como a grande equalizadora, inspirou suas utopias e criou caos. A visão de um mundo de mídia governado pela maioria vai dando lugar a um mundo onde a maioria quer conveniência e não um caixote de onde pode bradar vitupérios.

Os horizontes vão se estreitar? Claro. Mas, há uma oportunidade nesta corrida rumo ao Oeste. O conteúdo de mídia, relegado ao papel de prostituta de saloon, pode voltar a ser tratado como uma lady.

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