Jorge Mesquita/Divulgação
Jorge Mesquita/Divulgação

No tempo das Big Bands

New York New York, que estreia hoje, mostra o declínio das grandes orquestras

Ubiratan Brasil, O Estado de S.Paulo

14 Abril 2011 | 00h00

Parecia brincadeira e por pouco o escritor americano Earl Mac Rauch não deletou um e-mail recebido há três anos em que um produtor brasileiro apresentava um projeto de transformar a principal obra de Rauch, New York New York, em um musical. "Depois da versão para o cinema feita por Martin Scorsese em 1977, não acreditei que alguém voltasse a se interessar pela história", conta Rauch que, passada a desconfiança, aceitou o desafio proposto pelo maestro Fábio Gomes de Oliveira. O resultado poderá ser visto a partir de hoje, no teatro Bradesco, onde New York New York inicia temporada.

O ponto de partida é o mesmo do longa de Scorsese: logo depois de encerrada a 2.ª Guerra Mundial, a cantora Francine Evans (Alessandra Maestrini) conhece o saxofonista Johnny Boyle (Juan Alba), iniciando uma turbulenta relação. "Basicamente, termina aí a semelhança com o filme", comenta o diretor José Possi Neto. "Afinal, enquanto no cinema a trama é mais dramática e um tanto violenta (como gosta o Scorsese), nossa produção é mais leve e repleta de alegria e bom humor."

Na verdade, o musical teria apenas dois personagens se se reduzisse à história de amor entre Johnny e Francine - o próprio diretor notou esse detalhe e, a fim de aproveitar o potencial do elenco de 29 atores, bailarinos e cantores, decidiu criar números musicais para unir as cenas. "Com isso, tanto permite que os atores principais troquem o figurino como possibilita que o restante do elenco mostre seu talento."

O resultado é um belo panorama pelo melhor da canção americana entre as décadas de 1940 e 1960. Ou seja, ao mesmo tempo em que o espectador acompanha a instável relação do casal central, observa também o fim da era das big bands, relembradas pelos sucessos de Tommy Dorsey, Benny Goodman, Glenn Miller, entre outros grandes bandleaders. O mote é um convite para a execução de um maravilhoso repertório, executado por uma banda de 25 músicos, que inclui An American in Paris, Blue Moon, My Way, Bebop, The Man I Love, Mr. Sandman e, claro, New York New York.

A seleção até inclui um momento brasileiro, quando Carmen Miranda canta Let"s Do the Copacabana. O papel é um desafio para Juliane Daud - com formação no canto clássico, ela precisou se adaptar ao popular. "Pedi para que ela não copiasse a Carmen, o que não seria difícil", comenta Possi. "O que eu queria era uma versão dela da Bombshell." O resultado é divertido, em que Carmen surge no palco sem grande histrionismo mas com vivacidade.

Em seu desafio de costurar a história com números musicais, Possi oferece um dos melhores momentos do musical a Simone Gutierrez, atriz, dançarina e cantora que, apesar de longa carreira, se tornou um furacão graças à sua interpretação no musical Hairspray, em que combinou elasticidade com bom humor.

Em New York New York, Simone compensa seu fraco papel (a gerente de um hotel que persegue Francine e Boyle a fim de cobrar uma conta de hospedagem) com momentos de humor e, especialmente, com o número Fever, em que esbanja sedução em meio a um grupo de bailarinos.

A coreografia, aliás, é um dos grandes trunfos do musical - criada por Anselmo Zola, traz exemplos de grandes momentos exibidos no cinema, especialmente os que exigem grande vigor e habilidade física, um verdadeiro tour de force dos dançarinos. "Meu objetivo era, de fato, trazer algo mais contemporâneo, mas sem se esquecer do clássico sapateado", conta Possi que, como ele próprio diz, comanda um transatlântico com mais de cem pessoas, entre artistas e técnicos.

No cinema

A versão dirigida por Martin Scorsese em 1977 trouxe Liza Minnelli e Robert De Niro nos papéis principais e ficou realmente famosa por popularizar a música tema, na voz da atriz/cantora.

NEW YORK NEW YORK

Teatro Bradesco. Rua Turiassu, 2.100, 4003-1212. 5ª, 21 h; 6ª, 21h30; sáb., 17 h e 21 h; dom.,

19 h. R$ 20/ R$ 170. Até 3/7.

PRESTE ATENÇÃO

1. No cenário criado por J. C. Serroni, formado por estruturas móveis que reproduzem tanto um trem como um edifício.

2. No solo de Christiane Matallo - ela dança, sapateia e, ao mesmo tempo, toca New York New York no saxofone.

3. Na citação de grandes momentos do cinema, como a cena dos marinheiros em Um Dia em Nova York.

4. Na coreografia criada por Anselmo Zola, que exige verdadeiros prodígios físicos dos bailarinos.

5. Na sexy e divertida apresentação de Simone Gutierrez cantando Fever.

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