No show de 'realidade', vence a ficção

No show de 'realidade', vence a ficção

Vencedor do BBB 10 era mais personagem do que real

Patrícia Villalba, O Estado de S.Paulo

01 de abril de 2010 | 00h00

Análise:

Desde que foi lançada, há oito anos, a versão brasileira do reality show Big Brother já provocou milhares de linhas de análises que tentam estabelecer alguma relação entre a microssociedade da "casa mais vigiada do Brasil" e a nossa própria sociedade, além de tentar explicar a relação que o público estabeleceu com o programa. Mas se podemos ver o Brasil por meio do BBB, então, o Brasil vai mesmo mal. Será que devemos dar tamanha importância a um programa de variedades, um jogo que vale R$ 1,5 milhão?

Para começar, é realmente curioso que justamente a décima edição, proclamada como o "BBB da diversidade" - por ter entre os 17 participantes, uma drag queen, um gay e uma lésbica - tenha terminado com um típico machão como vencedor - que passou boa parte do programa arrotando para as câmeras.

Antes de ser de certa forma decepcionante para o movimento gay, a vitória do gaúcho Marcelo Dourado deve mostrar que o BBB não pode mesmo representar qualquer causa social - o diretor Boninho, aliás, vive tentando afastar esse tipo de responsabilidade, ao enfatizar que o programa é apenas um jogo.

Para muita gente, entretanto, não é. Quando a vitória de Dourado parecia inevitável, nas últimas três semanas, as torcidas tentaram polemizar em blogs e no Twitter, para arrastar a disputa para um suposto campo de batalha entre homossexuais e homofóbicos. No começo do programa, a participação dos homossexuais foi tão valorizada que o BBB parecia ser capaz de promover ideais de igualdade e fraternidade. Mas, justiça seja feita, não houve qualquer comentário de Dourado - a não ser uma informação meio torta sobre como se transmite o vírus HIV - contra homossexuais.

Sucesso. Lutador de vale tudo, Dourado levou o R$ 1,5 milhão para casa porque é ótimo personagem. Sim, personagem, como se estivéssemos falando de uma novela. O povo se divertiu com os comentários sem noção dele, com os arrotos e, principalmente, tratou de transformar Dourado em mártir quando os outros participantes - enciumados porque ele já havia participado do BBB, da quarta edição - tentaram forçar seu isolamento. Macho ferido, feito um Rocky Balboa, foi ali que ele venceu.

A décima edição do BBB, com show de Ivete Sangalo (muito mais animado do que os das edições anteriores), terminou com 41 pontos no Ibope e 66% de share (participação no total de televisores ligados). É a a pior audiência de uma final, junto com a do BBB9, marcou também 41 pontos.

Mas alto lá, que o programa ainda tem muito poder de fogo e, principalmente, e mobilizar a opinião pública. O apresentador Pedro Bial anunciou impressionantes 154.878.460 votos, classificados por ele como "recorde entre todos os BBBs do mundo". Neste ano, a produção passou a dar peso igual entre os votos enviados pela internet e a votação pelo telefone - mesmo assim, voto é voto, ainda que fãs inflamados costumem votar centenas de vezes, coisa que o sistema da Globo não proíbe.

Dindim. Mas mais impressionante que a votação é o faturamento, também recorde, o que já demonstra que a TV brasileira ainda vai produzir muitos ex-BBBs. O BBB10 teve 25 contratos fechados, que se refletiram em 61 ações de merchandising (cujo valor não é revelado pela emissora) e cinco cotas de patrocínio master no valor de R$ 13,5 milhões cada. Até então, o programa que mais havia faturado em merchandising era o BBB4, com 19 clientes - coincidência, a edição que também teve a participação de Dourado. Parte das ações publicitárias - como a de um detergente, cujo jingle virou hit no carnaval - realmente demonstram que anunciar no BBB é ótimo negócio. Outras, como a do refrigerante, que terminou com uma das participantes vomitando, nem tanto. O que não precisava era a produção preparar um clipe com os melhores (?) merchandisings exibidos durante os 77 dias de confinamento. / COLABOROU ALLINE DAUROIZ D

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