No Sesc, ´Hamlet´ com roupagem latino-americana

Peça de Shakespeare é encenada em São Paulo por grupo teatral venezuelano

Livia Deodato, do Estadão

13 de julho de 2007 | 12h04

Uma das peças mais famosas e encenadasde toda a história, Hamlet, de Shakespeare, ganha uma roupagemque deve causar surpresa. Especialmente porque a história étransportada para um universo que diz muito sobre nós,latino-americanos. Somente sábado, 14, e domingo, 15, o grupo teatralvenezuelano Teatro del Contrajuego apresenta, no Sesc Consolação em São Paulo, o texto magistral do dramaturgo inglês escrito noséculo 17 - e que como toda obra clássica parece ser maiscontemporânea do que nunca. "Representar, na Venezuela, todo aquele jogo de podercontido em Hamlet ressoou demais. A analogia entre o enredoteatral e a tentativa de implantação de um sistemarevolucionário de Chávez foi inevitável", conta o protagonistado espetáculo Ricardo Nortier. O intérprete do príncipe Hamlet ébrasileiro e vive há 10 anos em Caracas. Teve de trabalharduramente para construir seu personagem e convencer falando ocastelhano. "Acabou gerando uma certa controvérsia na classeartística venezuelana, o que é natural. Treinei muito, realizeialguns trabalhos na TV de lá e hoje, após dois em cartaz, quemassiste pensa que sou de alguma parte da Venezuela ou daEspanha", relembra. O mineiro nascido há 37 anos em Belo Horizonte está,agora, estranhando o fato de vir ao Brasil e falar espanhol, comdireito a legendas. "Que ironia do destino, não?", diverte-se.Quando se formou em 1993 no Palácio das Artes, na capitalmineira, pensou alto: "Vou interpretar Hamlet ao completar 36anos." Pelo visto, um anjo passou e disse amém. "Sabe aqueletipo de loucurinha que de vez em quando temos e que o destinocumpre?"Cenário e trilha O cenário e os figurinos, respectivamente desenhados porJesús Barrios e Desireé Monasterios, sob supervisão do diretorOrlando Arocha, são os elementos que reforçam essa analogia coma realidade sul-americana. "No lugar do castelo, um quarto de umbarraco de uma favela", conta Nortier. O que acaba porcontrastar fortemente com os figurinos luxuosos. "Há um retratoda falsa aparência no reino da Dinamarca. É a destruição de umarealidade política, social e econômica, mas que ainda luta paramanter a boa aparência", complementa. A trilha sonora é permeada por canções folclóricas epopulares de Cuba, da Argentina e da região caribenha. Na cenaem que Ofélia enlouquece por uma suposta rejeição de Hamlet, arubrica de Shakespeare diz que ela canta algumas músicastradicionais inglesas. Na montagem venezuelana, a personagementoa canções da dupla argentina Pimpinela, tida como íconeportenho brega dos anos 80. "O público vem até nós, para dizerque nunca imaginava que conseguiria chorar com as músicas doPimpinela." O Teatro del Contrajuego levará Hamlet ao Festival deSão José do Rio Preto (FIT), que teve início na segunda-feira.Apresentam-se no Teatro Municipal rio-pretense nos próximos dias18 a 21. A partir do dia 3 de agosto, Nortier e o diretor Arochaseguem para o Teatro da Gávea, no Rio, com o monólogo Apuntesde Cocina de Leonardo da Vinci, em português Notas de Cozinha. O texto da peça foi livremente inspirado nas anotaçõesgastronômicas e em alguns manuscritos, que de acordo com MarinoAlbinesi, promotor de Justiça em Roma e presidente do CírculoEnogastronomico d’Italia, podem ter pertencido a Leonardo daVinci. Hamlet. 225 min. (c/ intervalo). 14 anos. Leg. em português.Teatro Sesc Anchieta (320 lug.). R. Dr. Vila Nova, 245,11-3256-2281. Sábado, 20 h; dom., 18h30. R$ 5 a R$ 20

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