Divulgação
Divulgação

No rumo da idade madura

Cartas revelam transformação de T.S. Eliot de jovem sensível em disciplinado senhor das letras

Marjorie Perloff , Bookforum

10 de dezembro de 2011 | 03h00

O volume 1 de The Letters of T.S. Eliot, que nos leva da infância do poeta em Saint Louis a The Waste Land, saiu em 1988, o ano do centenário de Eliot; a edição revisada, meticulosamente editada pela viúva do poeta, Valerie Eliot, dessa vez com a ajuda de Hugh Haughton, acrescenta cerca de duzentas cartas, muitas delas dispensáveis, mas algumas contendo revelações reais, assim como as notas emendadas. O volume 2, mais de duas décadas em preparação, cobre apenas os anos 1923-25. Considerando que Eliot ainda viveria outros 40 anos, e que esses dois primeiros volumes inteiram mais de 1.800 páginas, fica-se pensando quando, e mesmo se, essa edição em muitos volumes será um dia concluída.

Pouco importa: a história que esses dois volumes contam é tão fascinante que eu não conseguia parar de ler. O jovem Tom Eliot, que se formou em Harvard em 1910 e partiu para um ano de estudos em Paris é uma figura saída diretamente de um romance de Henry James - um tímido e esteticamente inclinado inocente no exterior numa período em que as normas puritanas ainda imperavam no ambiente americano. "Eu não aprovo a instrução pública sobre relações sexuais", escreveu o pai do poeta, Henry Ware Eliot (presidente da Hydraulic-Press Brick Company em Saint Louis) a seu irmão Bob em 1914. "Quando ensino meus filhos a evitarem o Diabo, eu não começo dando-lhes uma carta de apresentação a ele e sua turma. Espero que jamais se descubra uma cura para a Sífilis. Ela é um castigo de Deus à sordidez. Acabe com ela e haverá mais sordidez, e será necessário emascular nossos filhos para mantê-los limpos."

A mãe de Eliot (ela mesma uma intelectual e poeta) não gostou nem um pouco do plano do filho de passar um ano na França. "Não posso suportar a ideia de você sozinho em Paris'', ela lhe escreveu, "as próprias palavras me dão um calafrio. Países de fala inglesa parecem tão diferentes do estrangeiro. Eu não admiro a nação francesa, e tenho menos confiança nos indivíduos dessa raça que nos ingleses." Mas foi precisamente para "essa raça" que o jovem Eliot foi atraído. Na Margem Esquerda de Paris ele se realizou: em sua pensão ele ficou amigo de um estudante de medicina chamado Jean Verdenal, de quem estão incluídas no livro seis cartas loquazes e amistosas em francês (as cartas para Verdenal obviamente se perderam). De volta a Cambridge, Eliot começou a trabalhar num doutorado em filosofia, mas a Europa - e especialmente Paris - continuava acenando para ele. Em 1914, quando se preparava para um ano como bolsista em Oxford, ele preferiu passar o verão em Marburg para melhorar o seu alemão. Menos de um mês depois de ele ter se instalado nesse "lugarzinho encantador... maravilhosamente civilizado", a guerra foi declarada, e Eliot fugiu para Londres. Ali ele logo se tornou amigo de outro jovem poeta americano, Ezra Pound, que prometeu publicar The Love Song of J. Alfred Prufrock na revista Poetry. "O diabo da coisa é que", queixou-se Eliot a seu velho amigo de Harvard, Conrad Aiken, em setembro de 1914, pouco antes de tomar residência no Merton College, "não fiz nada bom desde J. A(lfred) P(rufrock) e me contorço de impotência... Eu às vezes penso - se ao menos pudesse voltar a Paris. Mas sei que não voltarei, por muito tempo. Preciso aprender a falar inglês.... Agora eu penso que toda minha produção boa foi feita antes de eu ter começado a me preocupar - três anos atrás."

Preocupar-se com o quê? Em dezembro, Eliot confidencia a Aiken "Em Oxford eu tenho a sensação de que não estou plenamente vivo - que meu corpo está circulando com um pedaço do meu cérebro dentro dele, e nada mais. Como sabe, eu odeio cidades universitárias e a gente universitária, que são iguais em toda parte, com esposas grávidas, crianças se esparramando, muitos livros, e quadros horrorosos nas paredes." Não eram somente as cidades universitárias que eram opressivas. Em Londres, "andamos na rua com nosso desejo, e nosso refinamento ergue-se como um muro sempre que se aproxima uma oportunidade... Estou passando por um daqueles ataques sexuais nervosos que sofro sempre que estou sozinho em uma cidade.... Eu às vezes acho que poderia estar melhor se tivesse me livrado de minha virgindade e timidez muitos anos atrás."

Paris, de algum modo, havia sido diferente, Numa carta reveladora recém-incluída (12 de dezembro de 1921), o irmão do poeta, Henry, escreve a sua mãe: "A tensão de sair para o meio de pessoas que, no fim das contas, são estrangeiras... foi, eu penso, muito pesada para ele. Eu me lembro de que, faz um ano ou mais, numa carta para mim, ele falou de ter de ficar sempre ligado, alerta para a importância das aparências, usando sempre uma máscara entre as pessoas. Para mim, ele parecia alguém desempenhando um papel." O que torna as cartas tão peculiares é que aqui Eliot - o poeta que Pound mais tarde batizaria como "The Possum"(O Possum) - às vezes baixa a guarda. E quando o faz, podemos ver que, a despeito da famosa alegação de Eliot de que "poesia não é uma libertação da emoção, mas uma fuga da emoção" (Tradition and the Individual Talent, 1919), os poemas de Prufrock e Portrait of a Lady e The Waste Land eram, sobretudo, autobiográficos.

Em 2 de maio de 1915, Eliot recebeu a terrível notícia de que Jean Verdenal fora morto em ação nos Dardanelos. Prufrock and Other Observations, publicado em 1917, foi dedicado a Verdenal; muitos anos depois, num editorial de 1934 para The Criterion, Eliot lembraria: "Estou disposto a admitir que meu próprio retrospecto é tocado por um ocaso sentimental, a lembrança de um amigo cruzando os Jardins de Luxemburgo na minha direção, no fim da tarde, agitando um ramo de lírio, um amigo que posteriormente... se misturaria à lama de Gallipoli". Só podemos especular o que Eliot sentia na época, especialmente porque ele não conseguia falar de seus sentimentos com ninguém. Menos de dois meses depois, de todo modo, o poeta de 26 anos finalmente "se livrou da (sua) virgindade" casando-se repentinamente com uma jovem inglesa exatamente da sua idade chamada Vivien Haigh-Wood, que ele conhecera em uma festa nos quartos de Scofield Thayer em Oxford. "Estou muito menos reprimido, e mais confiante do que jamais estive", escreveu Eliot a seu irmão pouco depois do casamento. E a seu pai: "Ela tem para dar tudo que eu desejo, e o dá". Mas um mês depois, com Eliot de volta aos Estados Unidos para uma breve visita para consultas sobre seu futuro com seus professores de Harvard e a família, Vivien escrevia brejeiramente, numa carta recém-incluída, a Thayer (2 de agosto de 1915): "Tom foi para a América sem mim... Bastante imprudente talvez largar uma esposa tão atraente sozinha e a seus próprios artifícios. Entretanto - eu não queria absolutamente ir - fico apavorada com a viagem e os submarinos - e preferi ficar e jogar meus próprios joguinhos sozinha... É muito bonito ser a sra. Stearns-Eliot (note o hífen). Sou muito popular com os amigos de Tom - e quem você pensa em particular? Ninguém menos que Bertrand Russell!!! Ele está dando em cima de mim, é Bertie, e eu simplesmente o amo. Vou jantar com ele na próxima semana."

Russell revelou-se o gênio do mal da família Eliot: enquanto oferecia ao jovem Eliot seu apartamento, sua casa de campo, e várias oportunidades de emprego, ele estava, paralelamente, "entretendo" Vivien. "Ela diz que se casou (com TSE) para estimulá-lo, mas descobre que não pode fazê-lo", escreveu Russell a Lady Ottoline Morrell. Anos mais tarde, Eliot recusou-se a ter alguma coisa a ver com ele.

Se a guerra não houvesse eclodido em 1914, Eliot poderia ter tido uma vida muito diferente e - mais importante - se tornado um poeta muito diferente. Tal como as coisas se passaram, ele foi forçado admitir que seu futuro estava na Inglaterra. As intermináveis doenças neurastênicas de Vivien, as perspectivas agora ofuscadas de um cargo universitário para Eliot nos Estados Unidos, e a dificuldade de ganhar a vida por qualquer meio tornou sua existência quase insuportável, ainda que, com a publicação de Prufrock and Other Observations, ele estivesse começando a fazer seu nome. As cartas dos anos de guerra, de todo modo, são uma leitura dolorosa, com Eliot tentando a todo custo convencer sua família de que não havia "arruinado sua vida, como eles estavam inclinados a acreditar". Aí, subitamente, em 7 de janeiro de 1919, o pai do poeta morreu de um ataque cardíaco. Alguns dias antes, Henry Ware Eliot havia escrito a seu irmão: "Meu Tom está progredindo agora e foi promovido no banco (o Lloyds de Londres) de modo que ele é independente de mim. Gostaria de gostar da sua esposa, mas não gosto." Assim, o pai não chegou a conhecer o sucesso literário do filho. Foi um golpe devastador. Eliot o compensou planejando uma visita de sua mãe e sua irmã Marion a ele. A correspondência detalhando a estadia em Londres dessas damas bem intencionadas, mas dominadoras, tem um quê de jamesiano, o filho adorado contando os dias até elas partirem. Porque desta vez, Eliot estava terrivelmente ocupado depois que seus Poems (1919) e ensaios críticos em The Sacred Wood geraram dezenas de encomendas para críticas e artigos. Ele estava trabalhando duro no Lloyds e começando uma ativa vida social londrina, enquanto cuidava de uma Vivien cada vez mais enferma e exigente. No fim de 1921, Eliot teve um colapso nervoso e foi enviado para se recuperar em Lausanne. No caminho de volta para Paris, ele mostrou a Pound seus esboços para The Waste Land. A história dos cortes, transposições e omissões de Pound, quase todos aceitos graciosamente e até submissamente por Eliot, é bastante conhecida (ver a edição fac-símile de Valerie Eliot de The Waste Land), mas lida no contexto das cartas, a decisão de Eliot de simplesmente fazer tudo que Pound sugerira é ainda mais notável. O Eliot mais autoconfiante posterior não seria tão deferente.

O volume 2 retoma a história depois que Eliot ficou famoso como o autor de The Waste Land e se tornou editor de uma nova revista trimestral chamada The Criterion. O novo Eliot - e podemos registrar a mudança perto do fim do volume 1, antes mesmo de The Waste Land ser publicado e receber o prêmio Dial - tornou-se deliberadamente uma pessoa diferente. Fora-se o jovem poeta delicado e simpático, confidenciando suas dúvidas e medos ao irmão, Henry. Em seu lugar, temos o enérgico e eficiente Homem das Letras que havia aprendido perfeitamente "a preparar um rosto para encontrar os rostos que a pessoa encontra". Esse novo TSE deliberadamente inglês está ocupado cortejando o Establishment: velhos figurões como George Saintsbury (Eliot o trata como "o mais eminente crítico inglês de nosso tempo"), luminares franceses de Paul Valéry a Jean Cocteau, e escritores alemães de Hermann Hesse ao erudito Ernst Curtius. Ele está ansioso para publicar Proust por causa do renome deste último, mas diz a um amigo que "sou... da opinião que ele não é um escritor 'clássico'". Há até uma carta untuosa a "Vossa Alteza Real o Príncipe Coroado da Suécia" (30 de janeiro de 1924) pedindo um conto ou alguma outro texto somente para receber a resposta de um secretário dizendo que Eliot devia estar se referindo a Sua Alteza Real o Príncipe Wilhelm da Suécia já que o príncipe coroado "jamais havia escrito alguma coisa que houvesse sido publicada".

A atitude de Eliot com seus colegas americanos é muito diferente. Mesmo enquanto lisonjeia - nem sempre sinceramente - Virginia Woolf (sobre quem ele também pode ser bastante malicioso), ignora poetas americanos como Hart Crane, e quando William Carlos Williams oferece um ensaio sobre Marianne Moore, Eliot responde polidamente que "estamos absolutamente lotados para os próximos seis meses". O tratamento conferido a Moore (e, quanto a isso, das mulheres poetas em geral) é especialmente duro. Quando, em sua condição de editora de The Dial, Moore rejeita polidamente um dos contos de Vivien Eliot, Eliot fica furioso: "Até agora eu elogiei seu trabalho tanto na América como aqui, sem reserva, especialmente aqui: onde o público literário não vê nele nenhum mérito. Eu a defendi em face de escárnio e indiferença, e tinha o direito de esperar um melhor tratamento de sua parte.... Não pretendo tolerar essa manobra, e pretendo colocar todos os leitores do Dial que eu conheço - e conheço muitos deles - a par dos fatos."

Anos mais tarde, Eliot e Moore reataram, mas esta e muitas cartas igualmente cruéis e sarcásticas deixam um gosto amargo na boca. Cada vez mais, em sua condição de editor, Eliot oscila entre deferência e condescendência, com o resultado de que The Criterion não demorar para se tornar uma publicação formal e pouco empolgante.

Um escritor que regularmente censurou Eliot em suas escolhas foi seu velho amigo Ezra Pound. "Mas por t. ligação com a resenha", queixava-se Pound do oitavo número, "eu não poderia continuar aparecendo com esse bando de cogumelos mortos". E de novo: "Posso suportar teu conservadorismo, e tua erudição, mas não a afetação Bloomsbury que parece entrar pelas t. frestas.... Você NÃO PODE achar que 3/4 do material em Crit. deste ano foram in se dignos de publicação." Eliot responde defensivamente, "Eu te peço para citar um escritor de grande mérito que eu não tenha tentado conseguir." Mas por "grande mérito"ele queria dizer cada vez mais o testado e verdadeiro, o estabelecido, o eminente. Ali não se desejava nenhuma vanguarda, nem correr algum risco. Surpreendentemente, é Pound que surge como o bom moço neste volume - o poeta autêntico que não se vendia e estava sempre pronto a ajudar Eliot quando ele estava deprimido ou ajudar Vivien quando ela estava tendo uma de suas crises - e Eliot que faz observações antissemitas instintivamente associadas a Pound. Aborrecido por não receber os prometidos royalties por The Waste Land de seu editor de Nova York, Horace Liveright, Eliot resmunga para seu patrono John Quinn: "Estou cansado de fazer negócio com editores judeus.... Gostaria de encontrar um editor cristão decente em Nova York que se possa confiar em que não vai tirar o corpo fora em cada oportunidade."

Por irritante que esse Eliot posterior seja, eu sinto uma certa simpatia pelo correspondente atarefado que nunca tem dinheiro o suficiente, que precisa suar a camisa para assegurar, finalmente, um posto no conselho da Faber & Gwyer (depois Faber & Faber), o que lhe permite enfim demitir-se do Lloyds Bank. E durante todo esse tempo, Eliot esteve enfrentando seu pesadelo diário com Vivien (eles só se separaram em 1933). "Nos dez últimos anos", ele conta a John Middleton Murry, em abril de 1925, "gradualmente, mas deliberadamente - eu me tornei uma máquina. Eu o fiz deliberadamente - para suportar, para não sentir - mas isso matou V(ivien).... E deliberadamente eu matei meus sentidos - eu deliberadamente morri - para seguir com a forma externa de viver - Isso eu fiz em 1915."

Seria a "morte dos sentidos" equivalente à morte do instinto poético? Em 1925 pareceu que sim, tanto para Eliot como para seus leitores. Mas a história certamente não terminou aí: a próxima encarnação de Eliot, a de cidadão britânico, autodeclarado "classicista em literatura, monarquista em política e anglo-católico em religião", e autor de Ash Wednesday e Four Quartets, ainda estava por vir. Enquanto isso, o volume 2 oferece um quadro lindamente detalhado e doloroso da difícil conquista por Eliot de uma Londres ainda obscurecida pela catástrofe de uma das mais devastadoras e sem sentido das guerras, uma Londres em que todos os correspondentes de Londres de Eliot, mesmo os muito ricos e aristocráticos, parecem sofrer de repetidos acessos de gripe, azia, má nutrição e aquecimento central inadequado. Todos estão sempre deixando a cidade para climas mais amenos ou ao menos para a zona rural inglesa. Vivien fica doente com frequência por semanas de cada vez, e os dois Eliot estão constantemente consultando especialistas médicos diferentes. Os criados, obrigatórios antes da guerra, são cada vez mais difíceis de conseguir. Nesse clima, Eliot deixou a poesia de lado temporariamente. "Quanto à poesia", ele escreve ao editor Harold Monro,"eu lhe juro que não produzi o mais leve rabisco por um ano." Esse comentário é feito em 2 de fevereiro de 1923, o mesmo dia em que Eliot escreve cartas solicitando manuscritos dos seguintes: Herbert Read, Richard Aldington, F. S. Flint, Ford Madox Ford, Charles Whibley e Charles Caffrey, e em francês, de Julien Benda e Jacques Rivière. Presumivelmente, essas cartas foram escritas de noite: o poeta ainda estava dando expediente integral no Lloyds Bank.

A autodisciplina de Eliot é notável, sua adaptação a Londres completa. "Quanto a Paris", ele aconselha seu amigo Wyndham Lewis em abril de 1921, "não posso achar que haja uma grande dose de esperança em sua ida para lá em caráter permanente. Sendo pintar tão mais importante em Paris, há uma quantidade muito maior de homens de segunda classe espertos por lá... dentre os quais sobressair. Ademais, você sabe o quanto os franceses são implacáveis e infatigáveis trambiqueiros." O Eliot que, sete anos antes, sonhava acordado em voltar a Paris - "a terrível ousadia de render-se a um momento", como The Waste Land se refere a isso - atingira a "idade da prudência". / TRADUÇÃO DE CELSO PACIORNIK

MARJORIE PERLOFF É AUTORA DE UNORIGINAL GENIUS: POETRY BY OTHER MEANS IN THE NEW CENTURY (UNIVERSITY OF CHICAGO PRESS)

(C) Bookforum, Dez/Jan 2012, "He grew old", por Marjorie Perloff

Tudo o que sabemos sobre:
T.S. EliotSabáticoliteratura

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.