No Rio, pedreiro comanda biblioteca de 30 mil títulos

O pedreiro Evando dos Santos vai passar esta semana comemorando. Na quinta-feira, fará cinco anos que ele abriu a Biblioteca Comunitária Tobias Barreto, com 50 livros achados na rua. Hoje são 30 mil volumes, só na casa dele, na Vila da Penha, zona norte do Rio, além de outros milhares espalhados em 15 unidades que criou na periferia carioca. E, agora, ele acaba de receber o certificado do Ministério da Cultura que lhe permitirá captar recursos para construir a sede de biblioteca, num terreno próximo à sua casa, obra orçada em R$ 415 mil, dos quais o Minc prometeu R$ 66 mil. O projeto tem uma assinatura de peso. Oscar Niemeyer o desenhou e deu a Santos, para incentivá-lo.A obstinação de Evando os aproximou. Há dois anos, ele já acumulava milhares de livros em casa e, vendo na televisão uma entrevista com Niemeyer, ligou e pediu para conhecê-lo. Queria expor seu plano de construir uma sede para a biblioteca e uma universidade comunitária, com aulas gratuitas para pessoas como ele, que tiveram pouca oportunidade de estudo e com muita sede de saber. A idéia encontrou terreno fértil: o arquiteto se encantou com o desprendimento do pedreiro e os dois se entenderam às mil maravilhas. "Ele me disse que pessoas como eu levavam o País para frente", lembra Evando. "Ele não só desenhou o projeto para um prédio com 200 metros quadrados de área construída, como o detalhou para obter a aprovação na prefeitura."O projeto é ambicioso, como tudo que vem de Evando dos Santos. A Biblioteca Tobias Barreto ocupará dois andares, num prédio em declive. No térreo, com fachada para a rua, ficarão os livros e, no subsolo, salas de aula de espanhol, português, latim e tupi-guarani a serem ministradas por professores aposentados comprometidos com o projeto. "É fundamental o conhecimento dessas três línguas. O espanhol por causa do Mercosul e as outras três porque são nossa origem", teoriza. "No jardim, haverá uma biblioteca viva, com animais e plantas de verdade, que as crianças de hoje não conhecem. Elas saberão como é uma galinha, um pé de cana-de-açúcar, uma mangueira. Vamos ter tudo isso."O amor de Evando pelos livros vem muito antes da biblioteca. Nascido em Aquidabã, no interior de Sergipe, ele chegou ao Rio aos 27 anos (hoje tem 43) sem saber ler ou escrever. "Mas não era analfabeto, era um intelecto não lapidado. Aprendi a ler na Bíblia, porque sou da Igreja Batista, mas não entendia bem o que lia", diz. No fim dos anos 80, trabalhava como pedreiro na urbanização da Favela da Maré, na Avenida Brasil, quando um companheiro o incentivou a ler. "Ele me mostrou Machado de Assis, José de Alencar, Monteiro Lobato e Tobias Barreto, que considero o maior de todos."A partir de então, Evando começou a comprar livros, que guardava em casa, trocava com amigos ou em sebos. No início, a mulher dele, Maria José Lima, professora aposentada, e a mãe, dona Zelita dos Santos, estranharam, mas depois até deram força e ele começou sua coleção. "Um dia, era 17 de julho de 1998, fui fazer um serviço em Brás de Pina (bairro próximo à Vila da Penha) e vi, diante de uma loja, uns 50 livros. Tinha Os Sertões, a História do Brasil de Pedro Calmon, Emília no País da Gramática e Emília no País da Aritmética. Como eram para jogar fora, pedi para trazer e assim começou a coleção", conta. "Acho que as bibliotecas públicas intimidam o leitor, a burocracia impede o acesso do público. Aqui, empresto sem compromisso. Se alguém deixa de devolver um livro é porque gostou dele. Então, pode ficar que me deixa feliz", diz. "Quem quiser doar ou receber livros é só telefonar (21 2481-5336) que eu vou lá buscar ou entregar."

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