No rio, monólogo de Ana Beatriz

No rio, monólogo de Ana Beatriz

Uma mulher anuncia ao marido que vai deixá-lo por um homem que visualizou num sonho. Uma senhora conta os desprazeres da idade avançada para o amado, que já morreu. Uma terapeuta de casais desnuda o amor que sente pela paciente. Uma amiga pede socorro à outra, com medo de que a visão da cartomante de sua morte iminente venha a se concretizar.

Roberta Pennafort / RIO, O Estado de S.Paulo

24 de setembro de 2010 | 00h00

São alguns dos relatos das cartas que compõem Tudo Que Eu Queria Te Dizer (Objetiva), livro de 2007 da gaúcha Martha Medeiros que já passou das 28 mil cópias vendidas. No palco, quem as interpreta é a atriz Ana Beatriz Nogueira, em seu primeiro monólogo. A direção é de Victor Garcia Peralta, por quem ela é dirigida pela primeira vez.

Atriz de teatro, novelas, minisséries e premiada por suas atuações no cinema, Ana, que este ano faz 25 anos de profissão, brinca que seu espetáculo é um stand-up book (livro em pé). Não que ela dê importância a questionamentos sobre essas classificações, tão em voga, diante da profusão de stand-up comedies.

"Há tanta discussão sobre o que é ou não teatro... Acho que temos coisas mais importantes para tratar. Se tem uma pessoa em cena se apresentando artisticamente, ou se apresentam Shakespeare num galpão, é teatro", diz Ana, que vem suscitando risadas, lágrimas e momentos de introspecção na plateia do Centro Cultural Correios.

O público se diverte com as sandices da carta, endereçada ao psicólogo, da mulher que confessa ser racista e elitista, afirma odiar gente feia e achar sexo anti-higiênico. Comove-se com a da anciã que "se despede de si mesma todas as noites", e que tem no falecido o único interlocutor na hora de narrar suas aflições. É o momento mais dramático da peça, pontuada por palavras de dor de cotovelo, recalque, ciúme, desamparo, esperança.

Ana estreou no Rio Grande do Sul, e passou por oito cidades. Na capital, contou com a presença de Martha Medeiros, que aprovou a montagem. Antes dessa, a autora já havia sido levada ao teatro com sucesso: Divã, com Lilia Cabral, foi sucesso no Brasil todo, e acabou virando filme, igualmente bem-sucedido; em breve, as reflexões da quarentona descasada Mercedes chegará a uma série da TV Globo.

Seus livros Trem Bala e Doidas e Santas também já foram adaptados. A montagem do último, aliás, está em cartaz no Rio (no Teatro do Leblon), com direção de Ernesto Piccolo e Cissa Guimarães no papel principal.

A estreia no Rio foi no início do mês. O Centro Cultural Correios, no centro da cidade, não é badalado, e a plateia tem ficado cheia na base do boca a boca. A peça fica em cartaz até 24 de outubro.

Ana ainda quer viajar bastante. Cenário mais simples de carregar não há: ela utiliza apenas um cubo negro, em que por vezes se senta. O figurino é uma calça e uma blusa pretas sem adereços. A figura da carta, deixada de lado em tempos de e-mail e torpedo, a atrai - até porque estamos falando de uma confessa resistente ao computador.

A atriz se interessou pela encenação, para a qual foi convidada pela produção, no meio da leitura do livro. Até então, não o conhecia. Martha escreveu 34 cartas, que não são relacionadas entre si; na peça, entraram seis, encenadas na íntegra. O mote é "o que você sempre quis dizer a alguém, e nunca teve coragem?"

Inicialmente, pensou-se em dois atores, uma mulher e um homem. Mas Ana acabou sozinha no palco, assim, sem programar. "Estou encantada com essa peça. Tem gente que leu o livro e vem porque gostou, outras pessoas assistem e depois saem direto para comprá-lo."

Tudo Que Eu Queria Te Dizer

Centro Cultural Correios (Rua Visconde de Itaboraí, 20 - Centro, Rio)

21- 2253-1580/2219-5165

Quinta a domingo às 19h

Preço: R$20

Até 24 de outubro

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